segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O Mirante do Mundo - Por Luiz Domingues

Sou fã da escola de cinema "noir" americana, desde a tenra infância, pelo fato da grade de cinema exibida na TV, durante os anos sessenta, época em que fui criança, ter sido pródiga em exibir clássicos dos anos trinta, quarenta e cinquenta.

Evidentemente que gostava de outros estilos, mas esse clássico estilo policial, me agrada muito.


E falando de tais filmes, em sua maioria, os roteiros eram adaptados de  romances policiais, gênero literário muito apreciado na América, principalmente.

Quando comprei o meu exemplar do livro "O Mirante do Mundo", antes mesmo de ler suas "orelhas", já tive a melhor das impressões, ao verificar que a ilustração da capa remetia à uma paisagem muito instigante, que era alusiva aos cenários de velhos filmes "noir", dos anos quarenta e cinquenta, principalmente.


A história, muito bem engendrada, tal como um roteiro do estilo, conta a história de um ex-combatente da II Guerra Mundial, Jeff Monthel, que de volta à América, vê-se desolado com o fato de saber que sua mãe falecera, e ela era a sua única motivação para continuar a vida, no pós-guerra.

Desiludido pela falta de perspectivas, sai perambulando como um errante, sem destino, e parecendo um personagem pré-Beatnick.


Um dia, teve um ataque epilético na rua, e socorrido por estranhos, foi internado numa clínica psiquiátrica.

É aí que a trama torna-se permeada pelo fator enigmático, pois surge a figura de Diana, uma bela moça que o procura, visando lhe auxiliar.


Mas o fato, é que Diana não o conhecia pessoalmente até então, mas demonstra saber tudo sobre a sua vida, de forma que deixa Jeff atordoado.

A alegação da linda jovem, é que suas respectivas mães teriam sido amigas, e tratava-se de um desejo de sua mãe, que Diana auxiliasse o filho de sua grande amiga, dando-lhe perspectivas de vida.


Jeff aceita a ajuda, mas fica muito ressabiado com tal argumentação, julgando-a inconsistente.

Num primeiro instante, Jeff ainda mostra-se brutalizado pelos anos de horror vividos no front da guerra, somados à desilução pela perda de sua mãe, e a internação psiquiátrica.


Mas vai amolecendo paulatinamente, à medida que a doçura de Diana vai vencendo suas resistências mais recônditas. Porém, ainda não estava devidamente convencido de que a ajuda oferecida, tivesse a motivação singela, alegada.

Então, o grande salto na história é dado, quando vão parar numa pequena cidade interiorana, e se instalam numa casa erguida no topo de uma montanha.


Figura de linguagem muito americana, e típica dos filmes Hollywoodianos clássicos do passado, trata-se da sensação de ser "O Rei da Montanha", ou "King of the Hill", na expressão idiomática típica daquela cultura.

Mas o autor, teve uma segunda intenção, além de evocar a cultura americana, pois "O Mirante do Mundo", é a metáfora-chave do personagem Jeff Monthel.


Vivendo nessa casa sobre a montanha, o casal Jeff e Diana interage com a pequena e preconceituosa população da cidadezinha, que os hostilizou, tomando como base, fatos do passado perpetrados pelas respectivas progenitoras de ambos.

Surge a figura do Reverendo Charles, que torna-se um apoio importante para Jeff e Diana.


Contudo, uma série de sinais, fazem com que Jeff desconfie cada vez mais de Diana, e nesses arroubos paranoicos, passa a crer que toda essa bondade da moça, não passa de uma trama diabólica para efetuar um plano de vingança, eliminando-o.

Os signos cinematográficos usados pelo autor, nesse ponto do livro, são intensos. 


Sua vasta cultura cinéfila se fêz valer como autor literário, sem dúvida, e nesse sentido, a capacidade de prender a atenção do leitor, tem o peso de um diretor de cinema.

O final é surpreendente, e claro que não cometerei o deslize de revelá-lo, mas permito-me uma dica : a chave de tal desfêcho, está nas primeiras páginas da obra, onde geralmente o leitor é desatento, e considera tais informações preliminares, irrelevantes para a ampla compreensão do livro...

Conheci o autor de "O Mirante do Mundo", Eric Francato, numa rede social em 2010 (Orkut), e nos tornamos amigos por interagirmos em comunidades relacionadas ao cinema clássico americano, e séries de TV, vintage.

Sabia que ele escrevia roteiros para cinema, romances e crônicas, mas nunca havia lido nada de suas criações, a não ser suas intervenções em redes sociais e no seu bom Blog, "Críticas de Filmes".

 http://cineconhecimento.blogspot.com.br/



Fiquei muito contente quando me comunicou que seu primeiro livro estava sendo lançado por uma boa editora, e mais ainda, quando convidou-me para a tarde de autógrafos, realizada num teatro, na zona leste de São Paulo, numa tarde de abril de 2013.

Como já disse, a primeira impressão que tive, visual, foi a melhor possível, pois a ilustração da capa arrebatou-me pela beleza da ilustração, e também por remeter-me à uma imagem muito cinematográfica.

Parabenizo a ilustradora Karolyna Papoy, que soube exprimir com rara felicidade, a ideia que o Eric Francato deve ter lhe dado, baseado em sua cultura cinematográfica.


E por extensão, está de parabéns a editora Giostri, que caprichou na qualidade gráfica da edição, e sobretudo por apostar em novos talentos, conforme pude verificar não só pelo prestígio oferecido ao jovem Francato, mas pelo release que li, que veio na bela embalagem do livro, onde deixa clara a sua política editorial, recheada de novos e promissores autores, de diversos gêneros literários.

Que venham outros livros, pois Eric Francato tem somente vinte e poucos anos, e vai construir uma carreira longa, não tenho dúvida.

"O Mirante do Mundo", é um romance com cara de roteiro de cinema.


Se estivéssemos nos anos quarenta, e esse script chegasse às mãos de um Robert Siodmak, ou Raoul Walsh, entre outros, tornar-se-ia um belo filme, facilmente.


Fico imaginando Veronica Lake interpretando "Diana"; Dana Andrews, fazendo "Jeff Monthel"; e Spencer Tracy, como o "reverendo Charles"...
Que filmão !!

2 comentários:

  1. Excelente resenha! O livro deve realçar bastante o fato da guerra ter atormentado Jeff e a mulher que aparece em sua vida soa tão maravilhoso quanto misterioso! Se puder depois me falar mais sobre tal livro agradeço!

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    1. Sensacional que tenha apreciado, amigo Francesco. Exatamente, a guerra atormentou a cabeça de Jeff e o deixou desprotegido para lidar como conflito que teve de enfrentar quando voltou à rotina da vida civil.

      Bem, o que posso acrescentar, conforme solicitou, é que o leia, pois se eu contar mais, ultrapasso todos os limites do "spoiler" .

      Fiquei muito contente com o seu interesse !

      Abraço !!

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