sábado, 29 de março de 2014

TV 2 Pop Show / Som Pop - Por Luiz Domingues

Em 1974, a Rede Globo lançou o programa "Sábado Som", causando furor, por trazer tapes de apresentações ao vivo dos melhores nomes do Rock internacional dos anos sessenta e setenta, no frescor de sua contemporaneidade.

Por ter uma audiência esmagadora em rede nacional, obscureceu um outro programa que tinha os mesmos moldes, contudo, por ser uma produção bem mais modesta, da TV Cultura de São Paulo, e que na verdade, já estava no ar, bem antes, e estrutura & hype à parte, tinha o mesmo valor, artística e culturalmente falando.

Refiro-me ao "TV 2 Pop Show", que era exibido pela TV Cultura de São Paulo, com retransmissão para diversas TV's Educativas da maioria dos estados brasileiros.


O começo dessa produção, foi bastante ocasional e reforça assim, o conceito de que se por um lado havia um caráter prosaico na TV brasileira (apesar de que este veículo já existisse há mais de 20 anos no início dos anos setenta), por outro, há de se destacar a criatividade e a obstinação de profissionais muito dedicados, que proporcionaram a sua existência.

Foi o caso de um funcionário da TV Cultura, que fortuitamente interessou-se em usar trechos de apresentações ao vivo de artistas internacionais, com a edição de animações muito simples, mas eficazes para a época, visando ocupar uma lacuna na programação.


O funcionário, chamava-se Luiz Fernando Maglioca, que ingressara naquela estação estatal, em 1969, como estagiário e recém formado da ECA (escola de Comunicações e artes, da Universidade de São Paulo, USP).

A TV Cultura tinha em seus primórdios, uma imagem sisuda na área da música, passando a imagem de só difundir a música erudita.


Uma única aproximação com o público mais jovem, havia se dado em 1969, com o programa "Jovem Urgente", que levou artistas do Rock Brasileiro de então, como Mutantes e Novos Baianos, por exemplo, e que era conduzido pelo psiquiatra Paulo Gaudêncio, num formato parecido com o que Serginho Groismann vem fazendo há anos, só que sem a mesma estrutura, e muito mais contido, certamente.

Nele, o psiquiatra propunha discussões sobre temas ousados para a época, tais como gravidez na adolescência, virgindade, homossexualismo, música e rebeldia etc. Claro, durou muito pouco, pois irritou profundamente os militares da ditadura, e ainda mais numa TV estatal com o governador- fantoche de ocasião, a serviço deles...

Só no avançar dos anos setenta, surgiu essa nova oportunidade, mas como já salientei, de forma ocasional.

Portanto, esse tapa-buraco na programação, sem nome definido ainda, causou espanto, mas simultaneamente, gerou uma reação inesperada para a diretoria da emissora, pois uma semana depois, naquele horário em que passara as inesperadas performances musicais de artistas como Joe Cocker; Rita Coolidge, e Carole King, entre outros, telefonemas bombardearam a TV Cultura, com telespectadores querendo saber por que o "programa" não fora ao ar, novamente.

Então, ficou claro que um interessante caminho novo estava se abrindo, fazendo com que nascesse então, a ideia de aquela iniciativa tornaria-se de fato, um programa oficial na grade daquela emissora.

Essa primeira exibição fortuita foi ao ar no sábado, dia 14 de abril de 1972, portanto, dois anos antes da Globo lançar o seu "Sábado Som".

Recebendo o nome de "TV 2 Pop Show", mostrava basicamente músicas extraídas de documentários, recortadas, e alguns "promos" (a encarnação anterior dos vídeo clips).


Com o tempo, o programa foi ganhando mais sofisticação. Sem um apresentador formal, usava locução em off e quadros, falando sobre álbuns recém lançados, com a exibição de suas respectivas capas.

O "Sábado Som" atropelou-o, literalmente, mas sem abalar-se, o "TV 2 Pop Show" prosseguiu e foi melhorando sempre.

Já na metade dos anos setenta, tinha uma audiência significativa, que lhe deu a resistência que o "Sábado Som" da Globo não teve; sobreviveu ao "Rock Concert", que a própria Globo lançou em 1977, e aos similares da TV Bandeirantes, como "Balanço" e "In Concert".

Ainda nos anos setenta, passou a exibir quadros ditos "especiais", onde apresentava blocos dedicados à uma banda em específico, intercalando com informações biográficas dos artistas enfocados, curiosidades e discografia.

Numa mudança de nome, buscando repaginação, passou a ser conhecido como "Som Pop", e com esse nome, atravessou os anos oitenta, sendo uma das principais, senão a maior referência de Rock e música Pop em geral, na TV brasileira.


Especiais produzidos pelo próprio programa, eram a novidade no início da década de oitenta. Lembro-me bem de ver bandas setentistas como o Made in Brazil e a Patrulha do Espaço, tocando ao vivo no teatro Franco Zampari, de propriedade da TV Cultura, em especiais que ocuparam o espaço integral daquela atração, o que como músico, particularmente achava uma oportunidade incrível para o fomento do Rock nacional.

Na metade dos anos oitenta, um novo apresentador ocupou a ancoragem do programa. Com Paulinho "Heavy" Toledo (vocalista da banda Inox, na ocasião), no comando, a programação pendeu mais para o som pesado, mudando um pouco o direcionamento imediatamente anterior, quando o Pop oitentista dominava as atenções.


Uma nova troca de apresentadores e Kid Vinil puxou de novo a corda para o Pop, e com o verniz do Pós-Punk e derivados, na sua na orientação estética.

Com a chegada dos anos noventa, o velho Som Pop mostrava-se cansado e não suportou a concorrência da MTV, uma estação inteiramente dedicada à música e dessa forma, foi perdendo o seu gás, até sair de cena.

Particularmente, acho que o TV 2 Pop Show / Som Pop, foi muito importante, em vários aspectos.


Numa época onde a informação era cerceada por motivações políticas, e os meios eram escassos pelas dificuldades tecnológicas da época, é claro que um programa dessa natureza era um oásis.

Outro aspecto importante, dá margem à curiosa constatação de que existiu sobre o paradoxo, pois ao mesmo tempo que era produzido por uma rede estatal, podemos analisar que o fato de não haver a mesma pressão por audiência e inerente captura de recursos publicitários que existem nas Redes de TV comerciais, também estava sob o fogo cruzado dos interesses políticos, visto que principalmente nos anos setenta, um programa deliberadamente "jovem", incomodava os setores retrógrados da ditadura.

Nesse caso, mais um ponto para ele, que teve uma longevidade impressionante (16 anos no ar !), e marcou história na TV e no mundo musical.

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2014

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