sábado, 27 de dezembro de 2014

Roddy McDowall, o Ator de Incontáveis Papéis - Por Luiz Domingues




Nem todo ator mirim consegue manter uma carreira prolífica, quando atinge a idade adulta.


São inúmeros os exemplos, e só para citar um e bastante gritante, Shirley Temple ilustra tal rol.
Com uma carreira explosiva quando criança, nos anos trinta do século passado, assim que atingiu a adolescência, Shirley caiu em franco declínio, diminuindo sua participação em novas produções, até abandonar a carreira, mas ainda ainda assim usar o seu prestígio adquirido, quando envolveu-se com a política, e ocupou cargos importantes, inclusive na diplomacia oficial dos Estados Unidos.
Mas alguns atores mirins tiveram outra sorte e quando adultos, seguiram em frente com sucesso, casos de Natalie Wood; Helen Hunt; Jodie Foster, e Roddy McDowall.


Roddy nasceu na Inglaterra, em 1928, filho de pai escocês e mãe irlandesa.


Com dez anos de idade, já estava envolvido com cinema, fazendo pequenos papéis ainda na Inglaterra.
Roderick Andrew Anthony Jude McDowall migrou para os Estados Unidos, e logo de cara,  já estava a serviço de um diretor icônico : Fritz Lang, e participando de “The Man Who Wanted to Kill Hitler” (“O Homem que quis matar Hitler”), em 1941.
Logo a seguir, pesou para ele o fato de ser britânico, e já ter uma boa experiência, apesar de tão novo, para ser escalado numa produção hollywoodiana de peso, quando interpretou o garoto Huw, em “How Green was my Valley”(“Como era verde o meu vale”), papel difícil, pois é através da lente narrativa da personagem desse menino, que se transcorre a história.
Adaptação do livro homônimo de Richard Llewellyn, e dirigido por um monstro do cinema, John Ford, conta a história dramática de uma família do País de Gales, e sua vida duríssima de pobreza, e insalubridade nas minas de carvão, tipicamente britânicas.


“Pesadão”, como seria de se esperar pelo teor do livro, o filme foi o primeiro estouro de Roddy como ator, passando num teste de fogo e tanto, ao encarar a batuta de um mestre como John Ford, com apenas 12 anos de idade (e convenhamos, depois de ter sido dirigido por Fritz Lang...).


Com o propósito de prosseguir com seriedade, Roddy colocou-se de corpo e alma na profissão, e concomitante aos estudos fundamentais, fez o curso de ator mirim do estúdio da Twenty-Century Fox.
Logo a seguir, sua participação em outras produções foi muito intensa : “Confirmy ou Deny”; “Hate the Heart”; “The Little Refugge”; “Abandoned”; “My Friend Flicka”; “The Power of the Heart”; “Evocation”, “The Keys of the Kingdom”; “Berserk”; “Comedians of Alcova”; “Romance in Mexico”; “Rocky”, todos realizados entre 1941 e 1948.


Então chegou outro teste dificílimo para o já adolescente Roddy : “Macbeth” , em 1948, com atuação e direção de Orson Welles.
Interpretando o personagem Malcolm, Roddy encarou com galhardia um Shakespeare.


Versátil, Roddy foi um dos primeiros atores do cinema a engajar-se também na TV, sem medo de sofrer preconceito, em detrimento da opinião formada de que a TV era um veículo “menor”, Roddy já estava batendo ponto em produções televisivas desde o final dos anos quarenta, e construiu ali um curriculum inacreditável de participações em seriados; especiais; TV Movies; além de diversas aparições em Talk-Shows, programas humorísticos; e até shows musicais.
Só para citar algumas, das dúzias de séries onde apareceu na TV : “The Twilight Zone”; “Naked City”;  “The Subterraneans”; The Eleventh Hour”; “Alfred Hitchcock Presents”; “Combat”; “Ben Casey”; Batman (fazendo o sensacional vilão, “The Bookworm” – “O Traça”); “The Invaders”;
“The King of Thieves”; “The Night Gallery”; “The Audacious”; “Journey to the unknown”; “Medical Center”; “Columbo”; “The Rookies”; “Mission Impossible”; “McCloud”; “Barnaby Jones”; “McMillan & Wife”; “Police Woman”; “Wonder Woman”; “The Love Boat”; "The Fantasy Island", e muitos  outros…



Claro, não poderia deixar de destacar que sua ligação com a saga cinematográfica de “O Planeta dos Macacos”, culminaria no inevitável convite para participar da versão feita para a TV, como série.
Ali, como haviam modificações significativas ao texto original do livro, e os filmes oficiais, ele não interpretou nem o Dr. Cornélius, tampouco Cesar, o filho de Cornélius, como havia feito no cinema, mas “Galen”, um chimpanzé crítico do sistema, e que ao longo da série se torna o principal aliado dos dois astronautas humanos, e formando assim, o trio de protagonistas do seriado.


Roddy era fã do veículo do rádio, e chegou a ter programas radiofônicos, também.


Outras duas paixões paralelas, eram para ele a fotografia, e a escrita.
Como fotógrafo, Roddy colecionou centenas de fotos de bastidores de set de filmagem, além de filmagens de making off, de quase tudo onde se envolveu no cinema.


Dessa maneira, suas fotos e filmagens amadoras são consideradas históricas, e esse material é um tesouro e tanto para os cinéfilos.

Algumas capturas feitas por ele são divertidíssimas, como por exemplo vários momentos de bastidores das  filmagens de “The Planet of the Apes” (“O Planeta dos Macacos”), que podem ser vistas no You Tube.


E a outra paixão paralela, era a de escrever resenhas e crônicas sobre cinema e TV.
Escrevia tão bem, que muitas foram publicadas em jornais e revistas, com um texto de qualidade, parecendo um jornalista profissional.
Em 1963, fez Cleopatra, na versão histriônica de Joseph L. Mankiewicz, interpretando o romano, Otavius Augustus.
No ano de 1967, atuou em "It", trabalhando novamente no cinema inglês, e por um estúdio de pequeno porte, tal filme é no entanto, considerado um clássico do cinema de terror.

Versando sobre a lenda judaica do Golem, o ser indestrutível e místico da sua mitologia, mostra Roddy interpretando o curador de um Museu londrino, completamente louco, e que aprende a manipular o Golem, usando o poder descomunal da criatura, para fazer valer suas vontades egóicas pessoais, mas tudo foge do controle, claro...
Mas em 1968, foi que voltou a fazer muito barulho no cinema, ao interpretar o cientista chimpanzé, “Dr. Cornélius”, em “The Planet of the Apes” (“O Planeta dos Macacos”), quando encarou uma caracterização ousada, e que muito ator de quilate não quis fazer, por conta da complexidade da maquiagem.


História não confirmada, por exemplo, dá conta que Jonathan Harris, que na época estava mega popular no mundo inteiro pela sua interpretação sensacional do vilão “Dr. Smith”, na série “Lost in Space”(“Perdidos no Espaço”), teria tido um chilique na sala de maquiagem, por conta de uma crise de claustrofobia ante o uso da pesada maquiagem de símio para atuar na produção, e sendo descartado dessa forma, para atuar no filme.
Portanto, Roddy não só se adaptou bem à caracterização, como teve atuação espetacular, fazendo com que seus personagens “Dr. Cornélius” e “Cesar” (o filho de Cornélius, na continuação da saga, em filmes posteriores), entrassem para a galeria dos maiores e mais queridos personagens de filmes Sci-Fi, de todos os tempos.


Em 1973, Roddy faria outro personagem marcante, desta feita num filme de terror.
Em “The Legend of Hell House” (“A Casa da Noite Eterna”), a personagem que defendeu, “Benjamim Franklin Fischer”, se depara com uma mansão amaldiçoada, onde o fantasma de seu ex-proprietário comanda uma noite de horror.


Um filme de terror impressionante, e que é bastante citado entre os fãs desse gênero.
Já nos anos oitenta, Roddy participaria de outros filmes de terror, como por exemplo, “Fright Night” (“A Hora do Espanto”), que foi sucesso de bilheteria naquela década.
Nos anos noventa, não parou de trabalhar e atuar na TV e no cinema, e até locução em animações realizou, aliás, seu último trabalho em vida (“Bug’s Life” – “Vida de Inseto”).


Roddy McDowall só deixou de trabalhar em 1998, quando foi vencido por um câncer, aos 70 anos de idade.
Foi um raro caso de ator infantil que conseguiu construir carreira sólida na vida adulta, deixando um tremendo legado.


Foi também um raro exemplo de ator que atuou com desenvoltura no cinema e na TV, simultaneamente, e muito bem nos dois veículos.
Nos deixou dúzias de filmes; os tapes das séries televisivas em que atuou; suas fotos & filmagens amadoras de bastidores, e muitos textos bacanas sobre cinema e TV.


Tem, merecidamente, uma estrela na calçada da fama em Los Angeles.
Existe um site oficial, onde a memória do ator é preservada, e merece ser visitado :


http://www.roddymcdowall.info/

14 comentários:

  1. Um dos meus atores prediletos, o filme ''A casa da noite eterna'' e “Fright Night” são os meus preferidos, ótimo texto e fotos amigo.

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    1. Sem dúvida, Kim !

      Você citou dois momentos marcantes de Roddy fazendo filmes de terror.

      O famoso berro : -"Belaaascooo", deu frio na espinha de todo mundo, para quem acompanhou "A Casa da Noite Eterna".

      Grato pela visita, leitura, comentários e sobretudo, elogios !!

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    2. Eu é que lhe agradeço amigo, obrigado! :)

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    3. Esse tipo de manifestação de apoio é que mantém este Blog vivo.

      Grato, Kim !!

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  2. Nooossa Luiz, se superou !! Viajei aqui, rsrs :)

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    1. Mas que observação bacana para mim, amigo Sidnei !

      Grato por ter lido, comentado e elogiado !!

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  3. Excelente, seu texto muito rico nos mostra o grande legado desse ator espetacular.
    Parabéns!!

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    1. Muito grato por ter lido, comentado e elogiado, amiga Jani.

      Também acho-o um ator espetacular, e eclético.

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  4. Ator maravilhoso e seu texto excelente!
    Arte é envolvente, quando nos envolvemos com ela, a vida fica mais leve, mas quando damos conta, estamos em mil atividades paralelas em nome da ARTE, sempre !
    bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Verdade, amiga Elyane, o Roddy foi um ator excepcional, eclético e muito inteligente.

      Verdade, também..arte é apaixonante e não conseguimos deixar de gostar mais e mais, nos envolvendo sempre em proporção geométrica.

      Seguimos em frente, com nossa missão hercúlea de espalhá-la através de nossos respectivos Blogs, mas sempre com enorme prazer.

      Grato !!

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    1. Muito obrigado pelo elogio muito significativo.

      Sou apenas um apreciador de cinema que tenta passar a mesma magia que a sétima arte me causa, aos meus leitores.

      Abração, Christine !

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  6. Roddy Macdowall é meu ídolo de juventude. Parabéns pela lembrnça. Uma dúvida que ficou é porque ele fez mais papéis de vilão que de mocinho.
    Grande abraço.

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    1. Mas que legal que tenha apreciado a matéria. De fato, o Roddy foi um ator que merece essa reverência, não só pela sua categoria como ator, mas pelos aspectos além disso, que elenquei no texto.

      Sua observação sobre ele ter feito vilões mais que "mocinhos", não tem uma resposta oficial que eu tenha conhecimento. Contudo, creio que fazer um vilão é muito mais complexo e estimulante para um ator,portanto, desconfio que seja um privilégio e para tal, o ator tem que ter mais bagagem para fazer, portanto, mais um mérito do Roddy.

      Muito grato por ler e comentar. O Blog é seu, visite-o, sempre, e deixo a dica que nas postagens mais antigas, tem muitas matérias sobre cinema.

      Abração !!

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