sexta-feira, 8 de maio de 2015

Piper Club : Templo de Loucura da Cidade Eterna - Por Luiz Domingues



Sempre que falamos sobre os inúmeros aspectos que são pertinentes ao caldeirão cultural borbulhante das décadas de sessenta e setenta, tendemos a focar a nossa atenção para a Europa e os Estados Unidos, quase que esmagadoramente.


E no caso da Europa, claro que o predomínio britânico sobre os eventos, era natural, mas de forma alguma significava que não estivesse ocorrendo também em outros países.


Com exceção dos países que sofriam com a ditadura ferrenha comunista, e fechados portanto na famigerada “cortina de ferro” (nem mesmo assim conseguiram sufocar em 100 % a livre expressão artística, pois existem casos notáveis de resistência no underground, por parte de artistas corajosos que correram risco de vida, até), e a península ibérica (Portugal e Espanha), amarrada ao atraso de ditaduras direitistas de orientação fascista, a efervescência ocorreu com intensidade em outros países, fora do Reino Unido.


E claro que além da Inglaterra, destacam-se numa primeira análise : Alemanha, Itália e França.

No caso da velha bota, o pop italiano produziu inúmeros artistas de qualidade.


Muitos seguiram uma linha evolutiva, e do bubblegum típico de início/meio de década de 1960, aventuram-se posteriormente na psicodelia; Acid Rock; Blues Rock, e mergulharam no Rock Progressivo, a seguir.


Aliás, a Itália (e o Japão, também numa segunda instância), ficaram incólumes ao manifesto niilista de 1977, e nunca deixaram de apreciar tal gênero.

Existe uma explicação plausível para tal fenômeno em ambos os países : na Itália, a tradição de excelência musical de um povo acostumado a ouvir música erudita em geral, e ópera em particular, faz dos ouvidos italianos, mais apurados para apreciar uma música mais sofisticada e cerebral, portanto, ali ninguém comprou com facilidade a argumentação esdrúxula de Malcolm McLaren; seus asseclas, e seguidores.


No caso do Japão, o espírito colecionador típico do nipônico, faz com que contendas estéticas perpetradas por marketeiros, não lhes digam respeito. Japonês curte tudo e, sobretudo, quer mais é colecionar o máximo de itens que puder armazenar.

Voltando ao foco, no panorama sessentista italiano, a música pop com forte influência do Bubblegum internacional em voga, mesclou-se às tradições do cancioneiro pop tradicional, mais as pitadas líricas sempre inerentes à alma “tricolore”, abrindo o caminho para que inúmeros artistas surgissem, e fizessem sucesso nacional, e em alguns casos, internacional.


Fora essa explosão pop, que invadiu as rádios e emissoras de TV, uma outra tradição italiana forte se fez presente, com os seus festivais de música popular.

Atraindo a atenção do povo, os festivais fizeram época, exatamente como aconteceu simultaneamente em outros países, incluso o Brasil. Vide o Festival de San Remo, onde até o Roberto Carlos foi participar, em 1968.


O cinema italiano; as artes plásticas; e a literatura, também embarcaram na loucura contracultural, e só intensificaram a vibração pelas vias da cidade eterna, numa loucura que nem o imperador Calígula poderia imaginar, em seus delírios mais exóticos.


Nessa atmosfera, surgiu em 1965, um clube na cidade de Roma, onde páginas belas do pop, rock, jazz e outras vertentes, seriam escritas nesses anos loucos.

Tratava-se do Piper Club, um tempo de loucura localizado no famoso endereço da Via Tagliamento, 9, distrito de Trieste, em pleno Quartieri Coppedè, um quarteirão histórico de palácios construídos no início do século vinte, de uma beleza incrível, arquitetônica e cultural.


O Piper foi concebido inicialmente sob uma decoração inspirada na Opera D’arte, porém, com fortíssima influência da emergente pop arte de Andy Warhol, e da literatura beat.


A profusão psicodélica veio a seguir, com o Piper se tornando a grande Meca dos shows na bela Roma, inclusive atraindo artistas estrangeiros sensacionais, também.


A lista de artistas italianos que ali se apresentaram, é gigantesca.

Citando alguns apenas dessa safra do Bubblegum : The Rokes; Rocketti; Caterine Caselli; Rita Pavoni; Gabrielli Ferri; Dik Dik; Renato Zero; Romina Power; L’equipe 84;  Gli Apostoli; Le Pecore Nero; Fred Bongusto; Farida; Giants; The Meteors, Patrick Samson etc etc.

Vale acrescentar Patty Pravo, que era considerada a “Ragazza Piper”, como uma espécie de artista criada exclusivamente como prata da casa.


Entre os internacionais, tocaram no Piper nos anos sessenta : Procol Harum; The Byrds; Jimi Hendrix Experience, e ninguém menos que o Pink Floyd, com Syd Barrett em suas fileiras. Se Nero colocara fogo em Roma séculos antes, Syd Barrett tratou de derreter a cidade eterna...

Com a psicodelia total enlouquecendo a juventude romana, o Piper continuou sendo o grande templo do Rock italiano, e ali a história foi escrita com toda a galhardia de bandas como o Le Orme; Phoo, Ravens; Dolphins; New Trolls, e tantas outras.


Em 1967, o Piper abrigou nas suas dependências um evento que entrou para a história, e foi de certa forma, o equivalente italiano do que fora o 14 hours Technicolor Dream em Londres, no mesmo ano.



Organizado por Mario Schifano, líder da banda “Le Estelle di Mario Schifano”, botou para quebrar na loucura total.



Chamado “Grande Angolo, Sogni”, reuniu uma série de bandas psicodélicas da cena italiana; alternando-se com um citarista mandando ver nas ragas indianas; poetas e telões com exibição de filmes underground; e tudo ornado com projeções de luzes e bolhas psicodélicas...groovy !!

A Black Music e o Jazz também tinham representatividade ali. Assistir Sly and the Family Stone ou Duke Ellington, após uma bela macarronada, era privilégio dos romanos mais descolados, sem dúvida.


Com o avançar dos tempos, a onda progressiva também encontrou no Piper o seu cenário ideal para expandir-se.

São memoráveis os shows do Genesis, nas diversas vezes em que foi ao Piper, inclusive com filmagens que hoje em dia se encontram postadas no You Tube.
 

A fina flor do Prog italiano, bateu cartão no velho clube localizado no distrito de Trieste, da capital italiana. Banco; Area; The Trip; Le Orme; Goblin; entre tantos outros artistas sensacionais, e claro, a PFM fazendo a festa.

Por volta de 1975, o Piper perdeu um pouco do seu fôlego, após dez anos de atividades e mudou seu direcionamento, infelizmente.


Sob outra mentalidade, deixou de lado os shows ao vivo e orientou-se mais para se tornar uma casa noturna de som mecânico, infelizmente.


Como Disco Club, continuou lotando, mas atraindo assim um outro tipo de público, mais interessado na diversão hedonista e sem preocupações culturais mais avantajadas.

Foi o fim de uma era de profunda euforia para a juventude italiana e romana, em particular.


O Clube seguiu em frente, no entanto, e está em pleno funcionamento até os dias atuais, mas naturalmente sem o brilhantismo cultural que o marcou de 1965 a 1975.


Existe um documentário muito bom chamado “Piper”, que já foi exibido algumas vezes na Rai, principal emissora de TV da Itália, e com reprise na Rai Internacional, que é o que assistimos na TV a Cabo aqui do Brasil.

Nele, tem imagens raras e incríveis dos anos de ouro do clube, com trechos de shows sensacionais.


No site oficial do clube, tem um histórico resumido de suas atividades do passado, mas deixa a desejar para quem o enxerga com a devida importância cultural que teve no passado, pois a ênfase do site é a atualidade, mais preocupada em vender o clube, enaltecendo suas “baladas” do momento.



http://www.piperclub.it/


O que importa, é que mesmo não sendo mais assim, no seu passado, o Piper foi um dos maiores templos do Rock; contracultura; movimento beat; psicodelia, e Pop art da Europa e do mundo.
Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2015

2 comentários:

  1. Muito importante a matéria. Rita Pavoni. Grande intérprete do rock italiano. A ponto de os Beatles escreverem para ela "Lovely Rita". Não sabia que o Pink Floyd tinha andado nesse palco, antes de terem filmado em Pompeia. Excelente, Domingues.

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    1. Mas que beleza que a matéria tenha lhe agradado em vários aspectos, amigo Elmo !

      Bem lembrado, a Rita Pavoni foi uma das principais vozes do pop italiano sessentista. Curto muito a trajetória dela nessa época.

      É vero...o Pink Floyd foi um dos maiores frequentadores do Piper Club, desde a época inicial da banda, com Syd Barrett.

      Como brinquei no texto, Roma foi sempre uma cidade para loucos, desde Nero e Calígula, portanto, nos anos sessenta, a lisergia psicodélica caiu muito bem ali, encontrando ambiente propício...

      Grato por ler, comentar, trazer adendo (Lovely Rita !), e elogiar !!

      Abraço !!

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