quinta-feira, 14 de maio de 2015

Quem tem Medo da Verdade ? - Por Luiz Domingues




Quando a TV Record de São Paulo, começou a notar que sua fase de ouro estava se esgotando, ao final dos anos sessenta, passou a tomar providências para criar novos programas, visando se adaptar aos novos tempos, e reagir diante do crescimento de seus concorrentes.


Na falta de um “vidente” poderoso que lhe desse uma dica valiosa e certeira, errou feio ao deixar de investir na sua galinha dos ovos de ouro, ou seja, os programas musicais que lhe deram fama, prestígio e fortuna.
Não que outras atrações também não lhe dessem sustentáculo, e de fato, havia a linha infantil, jornalismo, esportes, variedades e dramaturgia bem azeitadas, além de sessões de cinema caprichadas, as melhores séries e desenhos animados daquela década etc etc.


Todavia, o carro chefe que tornou a Record a melhor emissora naquela década, certamente foi a aposta nos programas musicais sensacionais, com música de qualidade para todos os gostos, além é claro, do furor que foram os seus festivais de MPB, entrando para a história, sem dúvida alguma, e o fenômeno pop da Jovem Guarda.


Portanto, quando a música foi tendo o seu espaço diminuído, a Record começou o seu triste declínio.


Nesse ambiente de mudanças, um programa de extremo mau gosto foi lançado, em 1968, com o objetivo de recuperar a audiência que começara a cair, e tratou-se de uma aposta medonha.
Chamado “Quem Tem Medo da Verdade ?”, tratava-se de um simulacro de “tribunal”, onde um artista, ou personalidade de outra área, mas igualmente famoso, era submetido à um julgamento sumário, sob acusações estapafúrdias em torno de supostos deslizes cometidos com atos, e/ou declarações feitas em público.


A ideia já era abominável no seu nascedouro, pois partia da premissa de que a vida alheia valia a pena ser discutida em público, e muito pior, contestada.
Indo além, o julgamento moral que viria a reboque, denotava um retrocesso em meio à uma sociedade que mudava bruscamente, quebrando paradigmas.


Por outro lado, deixava claro que setores retrógrados da sociedade, estavam incomodados com tais transformações, e tal programa mostrava os dentes cerrados da reação.


Mas quando foi ao ar, tudo piorou ainda mais, pois se em tese era uma ideia horrorosa, na prática, tornou-se um show de horrores, ainda pior.
O esquema era de fato o de um tribunal acusatório, com vários “jurados” que também acumulavam o papel de promotores, portanto, faziam acusações, inquiriam o “réu”, e ao final, proferiam sua decisão, condenando-o ou absolvendo-o.


Uma figura pública, geralmente um artista ou jornalista, fazia o papel de advogado de defesa do “acusado”, mas mesmo que sua argumentação fosse coerente, a intenção ali era atacar com violência, e condenar.


As intervenções dos acusadores eram muito agressivas, portanto, o programa era tenso, e muitas vezes descambava para discussões explícitas, e com troca de ofensas pessoais entre os jurados e o réu.


Para quem acreditava que era tudo uma mera encenação, apenas para prender a audiência, na verdade se assustou com a truculência, falta de lisura, e até manifestações de preconceito, que ali vieram à tona.
Entre 1968 e 1971, enquanto esteve no ar, protagonizou noitadas deploráveis para a história da TV brasileira, e para muitos historiadores, trata-se de um precursor dos programas “Mundo Cão”, que anos depois se tornariam uma peste na grade da TV aberta (e infelizmente invadindo também o espaço da TV a cabo, anteriormente um refúgio para quem fugia da baixaria da TV aberta...).


Claro, havia “O Homem do Sapato Branco”, que inclusive era mais antigo, e também entra nesse rol de precursores da baixaria na TV.


Outra marca registrada do programa era a dose maciça de desdém, com o qual os “réus” eram inquiridos.
Talvez por influência do texto mordaz da peça teatral “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf ?” (isso é uma especulação minha, e não um fato histórico comprovado), Carlos Manga tenha tido inspiração para o título do programa, mas sobretudo pelo mote, tem uma ligação.


Tal como no teor do texto dessa peça (a versão para o cinema, de 1966 (capa do DVD, acima), também é legal, e dá uma ideia boa do que se trata), os jurados faziam de tudo para constranger o acusado, provocando-o com alfinetadas ( estava mais para apunhaladas...), explícitas.
Era clara a intenção de tirar a pessoa do sério, e de fato, muitas vezes isso aconteceu, e poucos foram os que tiveram presença de espírito para não se abalarem, e/ou darem o troco aos acusadores, extremamente ignorantes, agressivos e carcomidos de preconceitos odiosos.


O cenário do programa era intimidante ao extremo. Com focos de luz exagerados sobre o acusado, parecia a ambientação de um interrogatório da Gestapo, com vários inquisidores agressivos, falando freneticamente e fazendo de tudo para ridicularizar, desdenhar, e provocar o acusado, até que ele reagisse e quando invariavelmente perdiam a cabeça e a compostura, respondendo à altura, tal reação de destempero era usada contra o acusado, como a reforçar a sua suposta culpabilidade.
O teor das acusações beirava o ridículo, e expunha o caldeirão de preconceitos de reacionários se revelando incomodados com as mudanças comportamentais que permeavam os anos sessenta como um todo.


Por exemplo, tornou-se histórico o bate boca do jornalista Clécio Ribeiro, com Grande Otelo.
Pairava sobre o famoso ator/comediante/show man, a acusação de ser um “alcoólatra”, e que por conta de seu vício, tinha um histórico de mau profissionalismo, e até maus tratos contra mulheres.


Cansado de ser atacado com aquela enorme truculência por Clécio, Grande Otelo retrucou, dizendo que o jornalista não tinha moral para lhe acusar de ter um vício, pois no decorrer do programa, fumara um cigarro atrás do outro, caracterizando que também tinha um vício.
Enlouquecido, Clécio respondeu com enorme grosseria, que cigarro não fazia mal à ninguém, nem a ele mesmo e que bastava um copo de leite para se desintoxicar, enquanto Otelo por sua embriagues, não se curaria nem que bebesse uma vaca inteira.


Acrescento que à luz da nossa visão de século XXI em curso, a argumentação do dito jornalista, beira a insanidade ao defender o tabaco...absolutamente ridículo !


Pior que essa grosseria com o Grande Otelo, ocorreu com Leila Diniz.
Símbolo de uma mulher moderna que se emancipava, Leila era a mais “descolada” artista de cinema do Brasil à época.


Convidada para participar, foi levando na brincadeira, debochando dos jurados, e seu show de acusações fascistas, extraídas de algum manual de moral medieval, por aquela turminha que faria Torquemada se orgulhar por ver seu legado vivo no século XX. 

Mas eles apelaram, e foi feio...


Mais uma vez Clécio Ribeiro, o dito polemista mais virulento do programa, pegou pesado e disse à Leila, quando esta deixara escapar que sonhava em ser mãe, que ela não merecia nem sonhar com isso, pois uma “prostituta como ela, jamais poderia ousar querer exercer o sagrado direito da maternidade”.


Isso a tirou do sério e mesmo sendo despachada e segura de si ao extremo, abandonou o programa aos prantos, pois definitivamente, o acusador fora longe demais.
Roberto Carlos foi ao programa, e as acusações eram : “ser cabeludo”; e estar “desvirtuando a juventude do caminho do bem”.


Ora, justo o Robertão, que sempre foi um bom moço católico, e sem rebeldia alguma; adorado pelos idosos; menino bonzinho etc etc.
Enfim, colocaram um padre católico como membro do júri, e que foi duro com ele, expondo sua argumentação escolástica, e sem nenhum cabimento para o século XX...
Ao final, o advogado de defesa, ninguém menos que Silvio Santos, argumentou com sua lógica de vendedor de carnês, que Roberto era “barra limpa” e que o “iê-iê-iê” não era nocivo à juventude. Faltou explicar o que significava esse neologismo idiota, que não designa absolutamente nada sobre uma estética musical.


Aracy de Almeida e Silvio Luiz (pelo amor dos meus filhinhos...), também faziam parte desse corpo de jurados, e pegavam pesado.
O próprio Carlos Manga, um dos criadores da atração, era o mediador e fazia uma teatralização exagerada, para dar ar melodramático ao “julgamento”.


Manga foi um grande diretor de cinema e TV, e que na própria Record, tinha uma longa ficha de ótimos serviços prestados, com uma contribuição real para a grandeza da emissora, mas nesse caso...bem, ninguém é perfeito...
José Mojica Marins e/ou seu personagem, Zé do Caixão também foram devidamente demonizados pelo tribunal inquisitório, assim como diversas outras personalidades que eram famosas no meio da TV, na ocasião.


Muitos trechos de edições desse programa estão disponibilizados no You Tube.
Vendo-os hoje em dia, provocam risadas, tamanho o caráter absurdo da argumentação dos acusadores, e sua histriônica atuação.


Mas, é uma risada nervosa, pois chega a dar raiva de ver aquele festival de manifestações execráveis.
Particularmente, apesar de ser criança na época, lembro de ter visto ao vivo, e mesmo sem a compreensão intelectual que tenho hoje em dia como adulto, o programa já embrulhava-me o estômago, mais pela tensão instaurada, do que pela compreensão que eu não podia ter com aquela idade.


Era de uma agressividade gratuita; arbitrária; inquisitorial; carcomida de preconceitos; ignorância, e truculência.


“Quem tem Medo da Verdade ?” foi uma página lamentável e contraditória para uma emissora que tantas produções bacanas colocou no ar, dando sua ótima contribuição cultural ao povo brasileiro.


Nesse caso, foi uma “pisada de bola”, como se diz no jargão popular, e não curiosamente, mas de forma sintomática, a TV Record nunca mais foi a mesma, decaindo muito e se arrastando pelas décadas de setenta e oitenta, até ser vendida pela família Machado de Carvalho para um grupo religioso, que a mantém desde o início dos anos noventa.


O problema nem era ter “medo da verdade”, mas a melhor pergunta seria : que verdade era aquela, a que os paladinos da moralidade, daquele “tribunaleco” espúrio, se referiam ?
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2015  

2 comentários:

  1. Mas o homem voltou com tudo! Uma matéria enorme! Excelente. Parabéns.

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    1. Grande Elmo !

      Fico muito contente com sua visita e comentário. De fato, estou recuperando-me de saúde e voltando devagar a à vida virtual. No caso desta matéria, não deu-me trabalho pois é uma republicação, mas espero em breve estar em condições de elaborar trabalhos inéditos.

      Abração !

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