sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Feira Hippie da Praça da República de São Paulo - Por Luiz Domingues



Segundo consta nos registros históricos, a Praça da República, no centro velho de São Paulo, até chegar nesse formato e ostentar tal denominação, teve outros nomes e seu espaço usado de maneira diferente.


No fim do século XIX, por exemplo, aquela área era conhecida como “Largo dos Curros”, e era cenário para a promoção de rodeios, e até touradas.
Posteriormente, formatou-se como praça, mas ostentando nomes diferentes, tais como : “Largo da Palha”; Praça dos Milicianos” e Largo 7 de abril”, até que estabeleceu-se como “Praça da República”, pouco tempo após a Proclamação da República, em 1889.
Em 1932, foi palco de um dos momentos mais emblemáticos da Revolução Constitucionalista, quando uma manifestação popular culminou numa tragédia, onde quatro jovens estudantes ali foram mortos, e cujas iniciais de cada nome desses jovens, formaram a sigla MMDC, um símbolo da Revolução.


Consta também nos anais da história, que nos anos 40, tornou-se um costume espontâneo dos munícipes, realizar trocas de objetos em geral, embora isso não fosse um evento propriamente dito, ou algo programado desse nível.
Segundo o jornalista Marcelo Duarte (que mantém o Site “Guia dos Curiosos”, e de fato, é um dos maiores pesquisadores de cultura pop em geral do país), foi a partir de 1956, que a praça começou a se tornar um ponto de encontro de colecionadores, graças à um evento específico desse teor, promovido pelo filatelista J.L. de Barros Pimentel, que reuniu ali sua coleção de selos, atraindo a curiosidade de filatelistas paulistanos.


Contudo, apesar disso, a praça só ganharia a fama como cenário de um evento fixo, e com regularidade, no final dos anos sessenta e graças à uma questão excepcional de caráter contracultural, iniciada no exterior, mas que rapidamente encontrou eco em São Paulo.
Com a explosão do movimento Hippie nos Estados Unidos, e em muitos países europeus, tais ideias & ideais chegaram com relativa simultaneidade no Brasil e em São Paulo, e o sinal disso eclodiu na Praça da República.
Por volta de 1967, algumas manifestações isoladas de Hippies, tentando vender sua produção artesanal, foram duramente reprimidas pelo poder policial.    


Bem, com a ditadura militar apertando o cerco, apoiada pela camada mais conservadora da sociedade, era natural que cabeludos usando roupas coloridas fossem muito malquistos e mesmo que aparentemente fossem pacíficos e apenas interessados em vender seus objetos artesanais, tal reação (e entenda-se a palavra “reação” em sentido duplo), perpetrasse tal atitude repressiva.


Pouco tempo antes, por volta de 1965-1966, há registros de imprensa dando notícia de que rapazes com cabelos longos, acima do padrão socialmente aceito como “normais”, eram hostilizados com vaias da população, e até caso de apedrejamentos foram registrados, naquelas imediações da Praça da República, em vias como a Rua Sete de abril; Rua Barão de Itapetininga e Rua Vinte e Quatro de maio, por exemplo.
Portanto, Hippies, com visual ainda mais “agressivo”aos olhares da pequena/burguesia paulistana, pouco tempo depois, devem ter chocado ainda mais a "reação da intelligentzia".


E pelo lado social, propriamente dito, o artesanato era a única forma de ser anti-sistema, mas manter-se minimamente dentro dele, a não ser a opção adotada por Hippies mais arrojados e radicais, em buscarem rincões remotos do país, para montarem comunidades rurais e autossustentáveis pela agricultura comunitária etc etc.
Mas para quem queria ser Hippie urbano, só embrenhando-se na arte, via música; artesanato ou mesmo literatura alternativa (e de fato, a partir dessa mesma época, tornou-se comum a abordagem de poetas e escritores alternativos, vendendo publicações mimeografadas pelas ruas, notadamente em portas de cinemas; teatros e Shows de Rock.
Por sorte, e apesar da ditadura, São Paulo tinha um prefeito muito dinâmico nessa ocasião (Faria Lima), e mais aberto ao mundo moderno, e não à Idade Média, como a maioria de seus pares à época, baixou um decreto em 1968, autorizando a presença dos artesãos Hippies na Praça da República.


Dessa forma, começou ali uma nova tradição na cidade, a Feira Hippie dominical.
 
Rapidamente a Feira cresceu e se tornou um ponto turístico da cidade, atraindo o público, e fazendo a Feira se tornar solidificada, economicamente, inclusive.  


Em princípio, os produtos expostos resumiam-se a poucas opções. Artigos de couro em predominância, no formato de bolsas e cintos.
Mas claro que com o tempo, outros artesãos trouxeram uma gama de produtos diferentes, enriquecendo a Feira.


Por volta de 1969, outras cidades brasileiras também já tinham Feiras Hippies significativas. No Rio, a Praça General Osório, em Ipanema, tornou-se a Feira Hippie dos cariocas, escrevendo sua história na cidade maravilhosa; em Belo Horizonte, a Feira Hippie dos mineiros, ganhou proporção mastodôntica, realizada na rua, como Feira Livre de alimentos; e outras cidades também abraçaram a ideia, incluso cidades interioranas, caso de Campinas, no interior de São Paulo.
No caso da Praça da República, a Feira manteve sua tradição Hippie, até meados dos anos oitenta, quando aos poucos, outros artesãos, não necessariamente comprometidos com a ideologia aquariana, começaram a ser absorvidos.
Nos anos noventa, a Feira ainda era enorme, mas a raiz Hippie que a notabilizou desde 1968, já quase não existia mais. Se parecendo mais com uma Feira de bugigangas para vender para turistas gringos, seu charme original diluíra-se.


Sai prefeito; entra prefeito, e um desses que passou pela prefeitura e nem merece ser mencionado, resolveu que a Feira deveria ser extinta. Gritos surgiram em protesto e uma ideia mais amena, mas ainda absurda, propôs então uma mudança de local, no afã de não radicalizar.
Mas venceu o bom senso, e a Feira voltou rapidamente à Praça da República, seu endereço histórico.


Ainda se vê algum Hippie veterano aqui e ali; alguns Neo-Hippies, mas hoje em dia, aquele comprometimento com o movimento, não existe mais, e a Feira tem mais característica de uma Feira de antiguidades, mesclada ao artesanato, além de artigos para encantar turistas estrangeiros, encantando-os com o exotismo tropical do Brasil, mas mesmo assim, ainda se encontra alguma coisa bacana, mesmo que para achá-las, seja preciso garimpar bem... 
Muitas das fotos que ilustram esta matéria são de Francisco de Almeida Lopes, um simpático e já falecido fotógrafo, que notabilizou-se por fotografar centros urbanos de cidades como São Paulo; Rio de Janeiro; Curitiba; Santos e muitas cidades interioranas paulistas e paranaenses.

Recomendo visita ao Blog mantido por seus familiares, onde muitas de suas fotos podem ser vistas :

http://almeidalopes.blogspot.com.br/
Minha matéria também foi reproduzida no Site "Memórias do Rock Brasileiro", do produtor brasileiro radicado em Londres, Antonio Celso Barbieri, que acrescentou um rico adendo, trazendo suas memórias pessoais sobre a Feira.

Seu site é sensacional, e contém muitas matérias de sua autoria falando sobre muitas memórias contraculturais em São Paulo nos anos sessenta e setenta, portanto, recomendo visita.

http://www.celsobarbieri.co.uk/index.php?option=com_content&view=article&id=759:a-praca-da-republica-e-a-feira-hippie-um-pouco-da-historia-de-sp&catid=28:tunel-do-tempo&Itemid=43
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2015 

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