domingo, 22 de maio de 2016

Cine Bijou, uma Joia Cultural na Praça Roosevelt - Por Luiz Domingues




Inaugurado numa época onde a força dos cinemas de rua ainda era muito grande em São Paulo, o Cine Bijou tinha seu charme e diferencial por outros aspectos.


Fugindo da tendência dos cinemas gigantescos e luxuosos (alguns bem Kitsch, convenhamos), o Bijou era uma sala modesta, de apenas 137 poltronas, com decoração simples, sem exageros.


Todavia, o grande diferencial estava na programação, com a opção pelo cinema de arte; alternativos; documentários e outras peças impossíveis de serem exibidas em salas tradicionais da cidade.
Com essa característica assumida de cine-clube, e aberto ao público em geral, ganhou admiradores de imediato, atraindo o jovem público universitário que cercava a Praça Roosevelt, numa época em que o Campus da USP ainda estava sendo construído, e portanto, suas diversas faculdades se espalhavam por prédios esparsos pelo centro da cidade de São Paulo.
Mas também atraiu a classe artística, o pessoal do meio teatral que sempre frequentou aquele pedaço, principalmente, por conta da existência de inúmeros teatros nas redondezas e uma infinidade de restaurantes; bares e lanchonetes frequentados por atores; diretores; técnicos; autores etc.


Logicamente isso também atraiu músicos que se apresentavam em casas noturnas daquele entorno e por conseguinte, gente do cinema; artes plásticas; escritores; poetas; jornalistas e cronistas...
Bingo, estava formatada uma clientela assídua, formada por intelectuais, fazendo com que a fama da sala a tornasse de fato, uma referência cultural muito forte para os paulistanos.


Numa época onde o centro velho de São Paulo ainda não apresentava sinais de degradação, a noite era movimentada como já disse anteriormente e o Cine Bijou era um ponto certo para um programa sempre de ótimo nível, e abrindo a possibilidade da noite ser “esticada” com visita à um teatro; show musical; jantares ou noitadas pelas boites das cercanias.
Era o ano de 1962, e um rapaz estrangeiro chamado Harry Wilhoit, cuja nacionalidade é controversa, pois alguns afirmam que era francês e outros, americano, fundou o Cine Bijou. Ele era um ex-funcionário da Universal Pictures, segundo consta.


Exibindo filmes europeus, japoneses ou americanos alternativos e nada Hollywoodianos, agradava em cheio à esse público sedento por um cinema menos ou nada comercial, padrão nas salas de cinema tradicionais da cidade.


A fina flor do cinema francês; italiano e japonês, entre outras escolas e nacionalidades, ali foi exibida para deleite dos cinéfilos paulistanos.
A Nouvelle Vague francesa bateu ponto na Praça Roosevelt, assim como o pós-neorrealismo italiano de Fellini e Antonioni, para deleite dos cinéfilos.


No período pré-golpe de 1964, apesar das tensões que já haviam no ar por conta da turbulência sociopolítica gerada, ainda não haviam problemas para a exibição de filmes por conta da censura, e nem mesmo no período inicial da ditadura, quando a pressão sobre a cultura iniciou-se de forma branda, só piorando mesmo após a decretação do AI-5, em dezembro de 1968.
Portanto, filmes como “Mimi, o Metalúrgico”, de Lina Wertmuller, e “ A Classe Operária vai ao Paraíso”, de Elio Petri, foram exibidos no Cine Bijou, nos anos de chumbo, mas não sem antes um longo papo de convencimento com os senhores censores de que não eram “subversivos” etc e tal.


Por volta do final dos anos sessenta, o cinema foi vendido para o empreendedor cultural Francisco Coelho, que manteve o mesmo espírito alternativo, apesar de ser dono de cinemas tradicionais nos bairros do Brás e Penha, na zona leste de São Paulo. Sua perspicácia em não mudar a orientação do Bijou, foi genial.
Ao final dos anos sessenta, e por quase toda a década de setenta, filmes e documentários de teor contracultural fizeram a festa no Bijou, e o espaço também se tornou um grande ponto de referência para Hippies; Rockers & Freaks em geral.
Históricas as sessões que exibiram filmes como Easy Rider; The Trip; Zabriskie Point, além dos documentários sobre os festivais de Monterey’ 1967; Woodstock; Altamont; e a turnê de Joe Cocker de 1970, Mad Dogs and the Englishmen, entre tantos outros que evocavam a cultura Pop; Contracultura; Rock e afins.


No ano de 1972, passou por uma ampliação, agora apresentando uma nova sala, que passou a chamar-se Sala Bijou Sérgio Cardoso.
Minha ligação pessoal com o Cine Bijou vem daí, anos setenta, quando entrei na adolescência e mesclei duas paixões. Uma que vinha desde a tenra infância, que era o cinema, e posteriormente o mergulho no desbunde contracultural, via música e demais signos inerentes.
Causa-me uma incrível nostalgia pensar nas inúmeras sessões de cinema que ali presenciei, não só pela qualidade das obras exibidas que escolhi ver, mas também pela aura sensacional que a época nos proporcionava.


Claro, nas ruas o baixo astral da época cinza da ditadura existia e assustava. Batidas policiais agressivas aconteciam aos montes e há relatos de ocorrências com frequentadores do Bijou, mas esse azar eu não tive.
Alheios aos tempos de coturnos e arbitrariedades cometidas com o AI-5 debaixo do braço, o astral ali na porta e dentro do Bijou, era total “Peace & Love”, e o aroma típico daqueles anos era o de Patchouli, perfume padrão para nove a cada dez Freaks.
Vi muitos filmes do Werner Herzog, um cineasta alemão que aprendi a cultuar, com seu cinema hipnótico e quase sempre ao som da banda alemã, Popol Vuh, sensacional.
Muito cinema italiano, onde me tornei muito fã de Ettore Scola e Mario Monicelli, entre tantos cineastas geniais da terra do macarrão.
Dario Argento; Alain Resnais; Ingmar Bergman e um Woody Allen ainda não elevado à categoria de uma “persona pop”, eram frequentes ali.
Ciclos sensacionais de diretores como Akira Kurosawa; Yasujiro Ono; Stanley Kubrick; Tony Richardson e Roman Polansky...onde mais senão no Bijou ?
Hal Ashby; o desbunde britânico do Monty Phyton e o primeiro Milos Forman, a gente nunca esquece...
Lembro-me de ter saído com a música “Porque te Vas", grudada na minha cabeça, depois de assistir “Cria Cuervos”, de Carlos Saura.
A cinebiografia do compositor Scott Joplin, um achado musical sensacional que abriu-me os olhos para a beleza do ragtime, uma vertente antiga e praticamente extinta do Jazz, causou-me grande impacto.
Assim como outra cinebiografia de Woody Guthrie (Bound for Glory, de Hal Ashby), um pioneiro da Folk Music americana, ídolo de Bob Dylan e Joan Baez; pai do Hippie-mor, Arlo Guthrie, e interpretado de forma visceral pelo eterno Kung Fu, o ator David Carradine. Mais uma porrada bem no meio do peito que levei, no bom sentido, sentado numa daquelas poltroninhas vermelhas...
Vi também muitos filmes mais antigos. Reprises de filmes sessentistas sensacionais como “A Dança dos Vampiros”, de Roman Polansky, e não parando de pensar que aquela mulher deslumbrante, Sharon Tate, havia morrido poucos anos antes de forma chocante...
Barbarella e aquela outra mulher deslumbrante...convencido que aquele francês safado, Roger Vadin, era o sujeito mais sortudo do planeta, enfim...
Dustin Hoffman sem saber o que fazer com a sogra, e o som de Simon and Garfunkel explodindo na tela; depois era o som do Nilsson ecoando, e o Dustin indo para Miami para buscar o sol, mas morrendo antes, tuberculoso, dentro do ônibus...
E os macacos ? E o monolito ? E a valsa espacial ? E o Hal 9000 (I’m Sorry, Dave...I’m Afraid, I Can’t Do That...) ? E a grande cena final que causa aquela apreensão toda sobre a vida / morte; começo / final ? Tudo na tela do Bijou !!


Já o documentário “Janis”, sobre Janis Joplin...
Quantas sessões e sempre com o mesmo desfecho : aquele bando de hippies sendo surpreendidos com os olhos marejados ao inevitável acendimento das luzes de serviço com o término da sessão...quem aguenta aquela cena final das fotos na garagem, ao som de "Me and Bob McGee", sem emocionar-se ?
Outro momento “nó na garganta”, com o belíssimo “The Last Waltz”, de Martin Scorsese. Tudo bem, nós sabíamos que a The Band havia encerrado sua carreira e isso era inevitável. Sabíamos também que o filme é lindo, misto de documentário e show ao vivo do concerto de despedida dessa banda maravilhosa, mas como não se emocionar mesmo assim ?
E lá fomos nós, muitas vezes deixar cair uma lágrima vendo os caras tocando “The Night They Drove Old Dixie Down”...fazer o que, não é mesmo ? Não é que o sonho acabou, mas acabaram com o nosso sonho, se é que me entendem...


Mas os tempos foram mudando e esse astral todo foi dissipando-se. Por volta de 1986, uma das salas remodelou-se e passou a se chamar “Cine Clube Oscarito”. Tentou bravamente manter a tradição do Cine Bijou, mas era uma geração diferente a ser atraída, e que não dava a mesma resposta lotando as salas.


Perdendo para os videocassetes e as “baladas”, o Bijou foi perdendo força e lá pela metade dos anos noventa, encerrou sua história.


Para amenizar, uma turma boa, imbuída de amor à arte, não deixou a sala cair nas mãos de um empreendedor disposto a abrir um supermercado ou um religioso a fundar uma Igreja.


Em princípio, no ano de 1999, recebeu o nome de “Cine Teatro Recriarte Bijou”. Não durou muito, infelizmente,  e em 2003 passou por outra reformulação, quando passou a se chamar “Teatro do Ator”.


Transformada novamente alguns anos depois, a sala tornou-se o Teatro Studio 184, e desde então, tem se mantido como um polo de resistência ao teatro não comercial, ao lado do Teatro Parlapatões, que mantém a mesma iniciativa, e agitam a Praça Roosevelt dos anos 2000/2010, como um polo de teatro alternativo na cidade.
Mais que isso, mesclam exibições de cinema, evocando a velha aura do antigo Cine Bijou, inclusive exibindo clássicos do cinema alternativo das décadas de cinquenta; sessenta e setenta, atraindo muitos saudosistas do velho Bijou de outrora. Eventualmente, fazem também produções itinerantes, levando tal programação de cinema para outros ambientes, uma iniciativa bacana, também.


Claro que não é a mesma coisa, mas prefiro mil vezes que ainda haja uma ligação, tênue que seja, do velho Bijou, viva, do que o destino da imensa maioria dos cinemas de rua da cidade de São Paulo : demolidos ou entregues para fins nada culturais.
Um livro, escrito por um rapaz que foi frequentador do Cine Bijou, saiu com muitas impressões pessoais do autor a respeito de sua experiência como habitue da sala. Trata-se de “Cine Bijou”, de Marcelo Coelho, e que conta com ilustrações belíssimas, assinadas por Caco Galhardo, inspiradas nos filmes citados por Marcelo, e também pela própria ambientação do Bijou e alguns pontos da cidade de São Paulo, igualmente citados na obra.
Ilustração de Caco Galhardo, aludindo ao filme "A Clockwork Orange" ("Laranja Mecânica"), de Stanley Kubrick, e presente no livro, Cine Bijou.
 
É um texto bem calcado na experimentação pessoal do autor, que remonta às suas impressões desde 1974, quando passou a frequentar com assiduidade a sala, e mesmo sendo bem personalista, é um belo registro.
Acabei trilhando o mesmo caminho do Marcelo em seu livro, e nesta matéria citei muitas impressões e lembranças pessoais minhas, também, porque é válido, acredito.


Esse foi o Cine Bijou, que fez história muito linda entre 1962, e o fim dos anos setenta, pensando num “auge”, digamos assim, e que teve final oficial em 1996, infelizmente, mas que continua nos dias atuais, como espaço multiuso.
Matéria publicada inicialmente no Site / Blog Orra Meu, em 2016

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