domingo, 15 de maio de 2016

Eu, o Estranho / Pepe Bueno - Por Luiz Domingues


Pepe Bueno, é baixista de uma banda de Rock chamada, Tomada, que já conta com uma carreira longeva na cena Rocker paulistana.


Super ativo como músico; produtor musical e envolvido também com audiovisuais, é irrequieto por natureza e não obstante o fato de batalhar arduamente por sua banda, encontra fôlego para trabalhos musicais paralelos em regime solo. 

Em 2008, lançou seu primeiro álbum solo, “Nariz de Porco não é Tomada”, numa clara alusão em tom de brincadeira com o nome de sua própria banda. E nesse trabalho, já surpreendeu positivamente ao fugir do clichê de que disco solo de baixista tem que ser inteiramente instrumental e calcado em Jazz-Fusion, recheado de solos de baixo. Pelo contrário, tratou-se de um disco repleto de canções com teor Rock e apelo pop convidativo. 


Agora (2016), lança um novo trabalho solo e surpreende mais uma vez, ao trazer elementos os mais diversos, ainda que a formatação seja a de um conjunto de canções curtas, algumas com potencial radiofônico, até. 
Não obstante o que citei acima sobre o caráter pop de algumas canções, seu novo álbum investe bastante em psicodelia; experimentalismos e loucuras em geral, lembrando os primeiros álbuns dos Mutantes em muitos aspectos.


Com muita qualidade nas composições e arranjos, o álbum prima também pelo alto padrão instrumental, pois Bueno cercou-se de ótimos músicos a acompanhá-lo como banda base, além de alguns convidados pontuais e sensacionais. 


Contando com Alberto Sabella (teclados, guitarras) e Junior Muelas (bateria e percussão), componentes da excelente banda “A Estação da Luz”, como seu núcleo base, Bueno também contou com quatro guitarristas da pesada (Denny Caldeira; Xande Saraiva-Baranga-; Edu Gomes e Pi Malandrino); as cantoras Renata Ortunho (também componente da Estação da Luz), e Débora Camiotto; além do vocalista Fernando Fish (ex-componente da Estação da Luz).


Com um time desses, tendo boas composições nas mãos e arranjos criativos na cabeça, não tinha como dar errado, e de fato, não deu outra mesmo, tratando-se de um excelente álbum.


A primeira faixa se chama “Se Abra” e cabe uma explicação em relação ao seu título, visto ter uma segunda intenção em tom de homenagem prestada. 
                            O grande e saudoso, Renê Seabra 

Além da ideia de “se abrir ao som” como sugere inicialmente o título, foi também a maneira pela qual Pepe Bueno homenageou o saudoso baixista, Renê Seabra (Se Abra...), que era muito amigo dele e de quase todo mundo no meio Rocker de São Paulo, incluso este que vos escreve.


Tema instrumental, passeia pelo Jazz-Rock setentista com intenções funkeadas, mostrando muita versatilidade musical. Apresentando uma introdução que lembra bastante o trabalho de Frank Zappa, tem uma linha de baixo intrincada, com intervenções muito ricas da guitarra e sobretudo pelos teclados pilotados por Alberto Sabella, que usou seu arsenal setentista sensacional, de forma soberba. Tem clavinete swingado; um piano muito Chick Corea; órgão Hammond esquizofrênico a La Ken Hensley, e um solo de baixo muito louco para derreter os miolos do ouvinte.


Aliás, para introduzir a entrada do referido solo, uma frase emblemática (e engraçada), que era um bordão criado e usado pelo grande Renê, é pronunciada : -“Hey, Bro, liga o phodalizer”, uma pilhéria que sempre arrancou risadas de quem o ouvia falar isso. É de fato, a única intervenção vocal da faixa, que é instrumental.

Junior Muelas, que é um dos meus bateristas prediletos na cena Rocker brasuca moderna, é tão seguro e preciso, quanto esperamos dele, e ainda colocou uma intervenção de percussão com cowbell e reco-reco, estratégica, trazendo um molho todo especial em alguns trechos.  
E lá vamos nós de encontro à segunda faixa, chamada “Rotina”, com uma deliciosa pegada, ao melhor estilo das influências sessentistas que buscavam inspiração nos anos trinta do século passado. É folk; bucólico; silvestre,  lembra Donovan, Beatles, e tem seu sabor de Rock Rural, como se estivéssemos no interior de Minas ouvindo um disco do Sá; Rodrix & Guarabyra, numa casa no campo. 


Gosto muito da docilidade do Mellotron a la Beatles, desenhando junto com a voz principal e os backing vocais. É bem divertida também a intervenção do baixo de Bueno, usando um recurso bem exagerado (Synth Bass, na verdade), numa condução típica de música Folk, realçando-a. Muito bacana o órgão Hammond "limpo", sem caixa Leslie, ao estilo “igreja”, que aparece vez por outra.


Tem muitos detalhes de cordas, incluso um lap steel (executado pelo próprio Bueno, que aliás, pilotou vários violões e guitarras no disco todo), bem caipira e bem legal, é claro...


Letra muito hippie, gosto dessa suposta ingenuidade perdida, mas que suplanta em muito a insistência de letristas pessimistas ao pintar o mundo de cinza.


“Deixe o sol entrar na sala, abra a porta ou deixe um vão; raio de luz mostra a vida, mais simples que a escuridão”...


Fecho com o “mahatma” Harrison nessa questão de deixar o sol entrar, sempre...portanto, vai é que sua Pepe Bueno !


“Vale Dizer” é outra canção “beatle” (mas tem um quê de Small Faces nas entrelinhas, também), de pegada mezzo folk, mas a despeito de numa primeira impressão que tive, a opção por ter ficado logo a seguir da anterior ter sido errada, pela quase similaridade estilística, ao ouvi-la com atenção, minha impressão dissipou-se por completo.
Muitos elementos da teia beatle de sonhos lúdicos estão ali representadas. Solo de cravo trazendo o elemento erudito via George Martin; Melloton doce a la "Strawberry Fields"; trechos em staccato; órgão Hammond; baixo de timbre grave e aveludado marcando tônica e quinta, ou quarta abaixo; e guitarras pesadas a realçar partes mais dramáticas. Lembrou-me também muitas canções da carreira solo do Ringo Starr, sempre alimentada pela cordialidade e genialidade de seus amigos...


A quarta faixa se chama “Bem à Vista”. Apostando no ritmo 6/8, tem uma condução de baixo e bateria muito envolvente. Os teclados brilham muito; o órgão Hammond lembra muito bandas de Hard Rock setentistas como o Uriah Heep; Jane; Lucifer’s Friend e outras, com peso e saturação.


Gosto da parte B, muito dramática, num crescente harmônico. É melancólica a melodia, principalmente pelo fato de ser realçada pela letra poética (A escuridão vai chegar/E eu não vou me preocupar/Em acender a luz e sim em esperar/O dia amanhã ser e o sol/Chega cedo e brilha forte/Pedindo o seu espaço”). Lembrou-me pela intensidade, a cadência de “1921”, do disco Tommy, do The Who.


Os backing vocals são sensacionais, com um desenho de notas esticadas em mínimas e semínimas, lembrando muito o trabalho vocal dos irmãos Nardo, nos bons tempos de Rita Lee & Tutti Frutti. 


“Última Prova” tem um baixo com timbre sensacional, e riff ganchudo que lembra bastante os trabalhos solos de George Harrison. Muelas e Sabella brilham muito.


Gostei bastante da base de guitarra, também, com uma densidade rara, mas sem cair na tentação dos timbres modernosos e crunchados de bandas de orientação pesada, pelo contrário, bem vintage (e por isso agradou-me, é claro, ha ha ha...).
“Tudo o que queria” é a sexta faixa do disco e investe no country Rock. O timbre do órgão Hammond e do piano são puro The Band. É como se Richard Manuel e Garth Hudson tivessem-na gravada, mas certamente que jogaram suas bênçãos sobre Alberto Sabella.


Tem ótimo refrão e apoio da guitarra nessa canção.


“Pote de Mal” é um tremendo Blues-Rock em 6/8, com influências as mais nobres, passeando entre o Humble Pie; Mountain, Ten Years After; Robin Trower; Rory Gallagher  etc etc.


Muito bacana o vibrato da guitarra em alguns trechos. Curti toda a loucura experimental a La Whole Lotta Love, do Led Zeppelin, no meio da canção, e o solo de guitarra é de arrepiar.


Por fim, a última faixa é emblemática ao bojo da obra toda. Justificando a temática que evoca a estranheza psicodélica, na canção “O Estranho”, Pepe Bueno chuta o pau da barraca e aposta as suas fichas na rodada final do seu carteado, com muito experimentalismo; estranheza & psicodelia. 
Lembra muito o trabalho de bandas como o Gong; Can; Mutantes nos seus primeiros tempos; trabalhos  solo de Syd Barrett, e com a intervenção vocal de Débora Camiotto numa locução anárquica, traz a lembrança do trabalho de Arrigo Barnabé.


Completamente louca, é uma faixa instigante que fecha bem o álbum e justifica seu título, como uma ode à loucura. 


O disco foi gravado em dois estúdios. Parte no Área 13, de São José do Rio Preto / SP, estúdio de Alberto Sabella que pilotou a gravação, e parte no Cakewalking, de São Paulo, do não menos ótimo, Edu Gomes, que também fez a pilotagem dos botões. 


O áudio ficou muito bom, moderno com "level" alto, embora em alguns momentos eu tenha achado que a voz solo de Pepe Bueno tenha ficado numa briga com o instrumental. Vejam, sou um Rocker inveterado e detesto o conceito pop  / comercial de se colocar a voz solo muito acima do instrumental, e pelo contrário, cresci ouvindo discos de bandas de Rock clássicas com conceito oposto, de vozes quase no mesmo patamar dos instrumentos. Mas senti em alguns trechos uma certa dificuldade na inteligibilidade das letras. Claro, pode ter sido proposital para realçar a estranheza proposta na obra, conceitualmente portanto.  
Sobre a capa, cabe um parênteses. Assinada por Fábio Mata (que também assinou a capa do CD debut da Estação da Luz), é um dos melhores trabalhos dos últimos tempos, numa colagem muito criativa.


Fazendo jus ao mote geral da obra, trabalha a ideia da estranheza expressa através de conceito surrealista, apresentando uma ilustração emoldurada como um quadro de exposição, mostrando a perturbadora figura de dois homens numa mesa de restaurante, mas sob a égide do surreal. 

Ambos trajados à moda dos anos quarenta, causa estranheza o rosto de um deles fatiado em camadas como a insinuar a metáfora das subpersonalidades descoladas, e o outro, com cabeça de elefante (insinuando o panteão hinduísta talvez, seria Ganesh ?), deixando derramar um copo de leite, que se espalha pela tela. Fora os detalhes (cogumelos no drink; a capa do primeiro álbum do Pepe Bueno sobre a mesa etc). Conclusão : é estranhamente belo...
A mixagem do disco foi feita por Alberto Sabella e o próprio Pepe Bueno, com masterização a cargo de Daniel “Lanchinho”, em São Paulo. Foto por Victor Daguano.


Assinam a produção geral, junto a Pepe Bueno, Alberto Sabella e Junior Muelas.


O disco não foi lançado em versão física, no CD tradicional e Bueno justifica que tal iniciativa nos dias atuais com o CD em decadência, não faz sentindo mais. Penso igual, registre-se.


Não descarta no entanto, que no futuro haja um lançamento na versão em vinil, o velho LP.


Como o mercado é volátil (e estratégico enquanto capitalista), quem nos garante que o CD não tenha um revival mais para frente, também ? Registre-se, também.


Por enquanto, o negócio é ouvir a versão que o disco tem em plataformas como o Spotify e Deezer, por exemplo.


Bueno já produziu e lançou um vídeo-clip, louquíssimo por sinal, da música “O Estranho”, disponível no You Tube e Vevo.  Promete lançar um para cada canção, nos próximos meses.

Eis o clip de "O Estranho" :

Veja também o clip do Making off da gravação do álbum "Eu, o Estranho" :



Para conhecer melhor esse trabalho, procure informações na página de Marcelo “Pepe” Bueno no Facebook :




O disco na íntegra, no Spotify : 




Contato direto com Pepe Bueno :


 

Eis aí mais um trabalho que eu recomendo, certamente !

4 comentários:

  1. Ótimo, som bem anos 70s, me lembrou Frank Zappa, Mutantes, muito bom mesmo.

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    1. Excelente que tenha curtido, amigo Kim !

      De fato, o que observou tem toda procedência, sua percepção foi perfeita a respeito de influências desse trabalho e do artista em questão.

      Grato por sempre trazer sua inteligência e cultura, muito bem vindas, no meu Blog !

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    2. Valeu meu caro Luiz e tb Kim, tem muito mesmo destes artistas na atmosfera do disco!

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    3. Eu que agradeço por ter lançado um álbum tão criativo. Parabéns !!

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