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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

CD O Segundo /A Estação da Luz - Por Luiz Domingues



Após um excepcional primeiro registro fonográfico, demorou, mais eis que a excelente banda, “A Estação da Luz”, oriunda de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, anunciou enfim o seu segundo álbum. E tal trabalho vem ao mundo com o sugestivo título de: "O Segundo", portanto a banda é bastante enfática em sua intenção de demarcar um novo passo importante em sua carreira, através de tal lançamento em sua discografia.

E a demora para mostrar-nos o seu novo trabalho foi amplamente compensada, pois “O Segundo” revela-nos a banda a manter a sua proposta estética firmada em seu álbum de estreia, e mais que isso, é um prazer mergulhar em sua audição e constatar que tais artistas apresentam ainda mais entrosamento, por gerar amadurecimento natural e tudo dentro de uma lógica fundamentada por fatos concretos, pois nda foi aleatório, mas fruto de um grande esmero. 
 
Como primeiro ponto, a permanência da mesma formação, desde o primeiro disco, é um fator fundamental para o bom andamento da carreira da banda. Em segundo lugar, os anos de labuta na estrada, certamente calejaram-na. Depois de muitas viagens, incluso shows em diversos estados do país, isso contribuiu decisivamente para o fortalecimento do grupo, ao solidificá-lo tremendamente. E um terceiro ponto, e aí trata-se de um ato de fé: a banda não mostra-se nem um pouco preocupada com o que esteja ou não, em voga no mundo da difusão cultural oficial, a dita mídia "mainstream". 
 
E ao não preocupar-se em galgar degraus para alcançar tal patamar de popularidade a todo custo, tal qual artistas popularescos que costumam contratar escritórios especializados em gestão de carreira, antes de pensar na sua própria música, os componentes d'A Estação da Luz dão de ombros para esse sucesso de plástico, efêmero e que não dura até o próximo verão, e dessa forma mergulham em sua produção para abraçar o âmago da arte verdadeira, aquela que vem do coração e da alma, ou seja, burilar uma obra valorosa a perpetuar-se. Em suma, raciocinam como artistas genuínos e não como essa turba que domina o mundo mainstream e que usa a música meramente para ficarem "famosos".

Sobre a questão estética, para quem não conhece a banda e nem leu a minha resenha anterior sobre ela, na qual englobou o seu primeiro disco no contexto, convido a realizar tal leitura. Eis abaixo o link para tomar conhecimento desse primeiro apanhado sobre a banda: 

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2013/04/estacao-da-luz-por-luiz-domingues.html 

Reitero que a banda mantém a sua coerência artística inalterada e de forma ilibada, eu acrescento. A sua intenção em beber na fonte de influências do Rock brasileiro e internacional das décadas de 1960 e 1970, é um fator preponderante para que expresse a sua criação a adotar uma riqueza inquestionável no tocante às mais nobres referências. 
 
Eu sei, nem todo mundo que ama essa estética, automaticamente reúne condições para fazer com que a sua criação fique à altura, pois não basta ouvir música de qualidade, porém outros múltiplos fatores precisam estar contidos neste bojo. Caso contrário, alguém que ame Frederic Chopin, mas nunca chegou perto de um piano na vida, tocaria e comporia “noturnos” divinamente só pela boa influência, porém não basta apenas ouvir a melhor música do passado para que crie crie pérolas do mesmo nível.  
 
Nesses termos, A Estação da Luz é uma banda muito bem embasada na sua identidade artística, pois não só é municiada pelas melhores influências no mundo do Rock (fora as boas doses de Black Music, incluso o Soul, Blues & Jazz; MPB; Folk Music etc), mas também é muito rica tecnicamente, por ter em suas fileiras, instrumentistas & vocalistas de alto padrão e por conseguinte, que compõem e arranjam muito bem o seu material. 
 
Se existe um ponto mais frágil nessa estrutura, esse não chega a desabonar o trabalho, e pode ser melhor apurado em outros trabalhos futuros, tranquilamente. Refiro-me à parte de texto, com letras não muito profundas na maior parte das canções. São poesias bem escritas, a priori, mas a temática em sua maioria, versa mais pela relação Homem-Mulher, sem maiores voos, e nesse caso, aprofundar mais, seria mais estimulante para se coadunar melhor com temas musicais mais complexos, principalmente ao se esbarrar no Prog-Rock explícito, mas neste trabalho e no anterior, igualmente, não houve essa preocupação mais acentuada (há exceções), contudo, repercuto melhor isso quando falar sobre as faixas, detidamente, logo mais.
Ouvir o CD “O Segundo” é como escutar um bom disco de Rock brasileiro da década de setenta, mas também é como se fosse algum oriundo da safra da MPB daquela mesma década citada, mesmo por que, a MPB setentista foi em essência, híbrida, ao mostrar-se praticamente como um Folk-Rock Hippie, apesar dos nossos acentos culturais regionais nítidos e sem nenhum demérito, muito pelo contrário, tendo isso como um grande mérito, deixo isso bem claro. Sobre as faixas desse trabalho, tenho muitas observações positivas.
“Sem Direção” inicia o álbum e o seu embalo remete ao Country-Rock, portanto, é muito saboroso, enquanto clima ameno e a fugir da máxima que todo produtor fonográfico prega, ao dar conta de que a primeira faixa de um álbum tem que ter o poder de um “soco no estômago do ouvinte”, para visar gerar o forte impacto primordial. Não acho errado o conceito em si, mas quebrar o paradigma e apresentar um começo ameno, também pode ser agradável, e foi exatamente o que aconteceu com essa canção. 
 
Musicalmente, lembrou-me muito o velho e bom “Rock Rural” de "Sá; Rodrix & Guarabyra", mas também canções oriundas dos primeiros discos solo dos ex-componentes dos Beatles, notadamente os de George Harrison e Ringo Starr. Há um delicioso "Steel Guitar" que permeia uma voz suave e intermitente ao longo da canção, aliás muito inspirado da parte do ótimo guitarrista, Cristhiano Carvalho e como base harmônica, o tecladista Alberto Sabella arrebenta, não só pela execução, mas pelo feliz arranjo que criou, ao utilizar vários teclados sobrepostos. É muito rica a intervenção do piano Fender Rhodes, inclusive a imprimir desenhos interessantes, versados pelo efeito do contraponto e a presença do imponente órgão Hammond, impressiona, inclusive pela sua sobra estratégica, ao final.
 
Gostei muito do timbre do baixo, bem encorpado, mas igualmente da linha criada, todavia convenhamos, das mãos de um baixista da categoria de Vagner Siqueira, só vem coisa boa, naturalmente. E a melodia principal, entoada pela cantora, Renata Ortunho, contém a docilidade compatível com o clima da canção, onde o arranjo muito adequado, faz com que a banda flutue ao ritmo do slide-guitar.
Na segunda faixa, “Pensar em Você” (“Tudo é Saudade”), mergulha-se em um clima sessentista muito agradável. Parece aquele tipo de som "Bubblegum", típico da metade daquela década, mesclado com a tendência típica daquela safra de artistas britânicos dessa seara, que revisitaram com extrema felicidade o cancioneiro popular europeu dos anos vinte e trinta, do século passado. E assim, naquela levada rítmica bem característica, com condução harmônica bem forte em acentuações de tônica e quinta acima ou tônica e quarta abaixo, a banda soa como o "Small Faces" a brincar no "Itchycoo Park", ou os "Mutantes" na Rua Augusta, portanto, A Estação da Luz resgata tal tradição perdida no Rock (infelizmente), com bastante inspiração. 
 
Gostei muito do apuro no arranjo vocal dos backings, com desenhos engenhosos a trespassar por baixo da voz principal. Em um dado instante, uma intervenção muito rica de percussão (que deduzo ter sido uma ideia do excepcional baterista, Junior Muelas), é sutil, porém, de uma riqueza enorme. Ali ele risca-se o guiro, literalmente, e tal medida percussiva gera um efeito incrível. 
 
Também chamou-me a atenção o solo de guitarra de Cristhiano Carvalho, com uma linda interpretação, ao fazer uso de notas longas, esticadas ao estilo de um “ebow”, e também por uma sutileza que ficou ótima, ao trabalhar com a chavinha de mudança de captação, acintosamente, seguramente a seguir a tradição do mago, Ritchie Blackmore. 
 
Em seu término, a música apresenta uma mudança rítmica acentuada, com teclados; baixo & bateria a imprimir um balanço "soul" incrível. O piano insinua-se como clavinete, mesmo, e a “setenteira” nessa hora é irresistível em seu apelo para balançarmos o esqueleto, mesmo que for só o pezinho, discretamente a marcar o ritmo no chão, caso o ouvinte seja muito tímido...
A terceira faixa, chama-se: “Dia de Domingo” e contém uma levada incrível. O "groove" da banda nessa faixa é impressionante, com todos os instrumentos a soar de uma forma magnífica. Não dá para destacar apenas um, gostei de todos os arranjos individuais. Baixo sensacional, guitarra estupenda, bateria fantástica e o órgão Hammond comandado por Alberto Sabella, arrebenta, ao parecer o som dos discos solos do Billy Preston, e com esse genial artista em pessoa, a atuar naquela pilotagem alucinante, que eu achava que só ele sabia fazer, mas o Sabella provou que eu estava errado... sem exagero algum. 
 
O vocal desenhado no início é muito bonito e a seguir, eis que surge a presença de uma voz masculina que conduz a melodia principal, para quebrar um pouco a marca da voz feminina oficial da banda, portanto é Cristhiano quem comanda, desta feita, ao invés de Renata. A canção apresenta muito da influência dos "Secos & Molhados", mas posso acrescentar nesse caldeirão, a presença do som de Zé Rodrix e basta ouvir os seus discos solo (ótimos), dos anos setenta, para constatar a minha impressão. Os timbres também ficaram magníficos, tudo soa encorpado e brilhante ao extremo. Adorei uma convenção feita com intenção de "groove", absolutamente incrível.
A seguir, uma faixa instrumental e sensacional, com mais um Funk-Rock de enorme balanço. É até constrangedor usar a palavra “Funk” nos dias atuais, dada a apropriação indébita em que esse termo foi submetido, mas ora bolas, o que temos aqui é o genuíno "funk" setentista, um nobre derivado da Soul Music e do R’n’B, portanto, é isso, aí, podes crer, amizade...
 
Sobre o tema em si, digo que é mais uma prova cabal de que os membros d’A Estação da Luz não estão para brincadeiras, pois eles descem o braço, ao imprimir um balanço maravilhoso que muito lembrou-me o trabalho do "Som Nosso de Cada Dia", quando esta banda histórica brasileira aventurou-se através do Funk-Rock, ao final dos anos setenta. Não sem antes apresentar uma introdução muito técnica, ao estilo do Jazz-Rock da banda argentina, "Crucis", ao menos na minha percepção pessoal. Tudo soa bem nessa faixa, de forma impecável. Gostei também da rica intervenção de um músico convidado, Victor Hugo, que trouxe o seu providencial saxofone ao produzir o recurso do "crescente", um típico efeito sonoro produzido por sessões de metais de bandas como: "Chicago"; "Blood; Sweat and Tears" e "Tower of Power", só para citar algumas poucas desse estilo, em temas "funkeados" assim. Portanto, um acréscimo genial, a caracterizar a dita"cereja no bolo". 
 
A destacar-se igualmente os solos e timbres diferenciados nos sintetizadores e na guitarra, inclusive um belo duelo de solos entre os instrumentos, uma outra tradição esquecida, todavia, essa banda orgulha-se em buscar o fio da meada perdido, amém!
“O Segundo”, faixa título do álbum, inicia-se com efeitos de sonoplastia. Trata-se de barulho urbano da madrugada, com o ruído de carros a passar distante e latidos de um cachorro, tudo muito sutil. Logo a instrumentação começa e mostra uma balada muito boa, com melodia e força interpretativa bastante condizente. 
 
Renata Ortunho, nessa faixa, lembrou-me bastante cantoras não tão conhecidas do público atual, como Luisa Maria; Tuca e Olivia Byington. O slide da guitarra produz uma melodia bastante melancólica, mas no bom sentido do termo, portanto ao evocar o "Mahatma" George Harrison, que foi um grande mestre em criar pérolas lindas dessa monta. 
 
Gostei muito de alguns acentos convencionados, ao demonstrar mais uma vez que esses artistas sabem arranjar bem as suas canções. Na parte final, o timbre do sintetizador e a condução rítmica desdobrada, remeteu-me ao som dos discos do David Bowie, bem no início dos anos setenta, tais como "Space Oddity"; "The Man Who Sold the World" e "Hunky Dory". Tem algo do "Uriah Heep" também, via Ken Hensley, naturalmente. É bem interessante o efeito fantasmagórico, apresentado no encerramento da canção.
“Na Contra Mão” é uma faixa que tranquilamente poderia figurar em um álbum como: “Atrás do Porto Tem uma Cidade”, de Rita Lee & Tutti-Frutti. Impressionante a proximidade de sua estética, com a desse trabalho que citei. 
 
Há um belo timbre de piano, e com o baixo a marcar com peso e também com timbre muito bom. Através de uma interessante parte "C", outra vez a banda busca a inspiração sessentista, ótima. Aquela doce evocação da década de trinta, mas com visão Rocker, ou seja, a se tratar de uma marca registrada, entre tantas, dos anos sessenta. 
 
Solo de guitarra de arrepiar, curto, mas intenso. Adorei o uso do efeito "staccato", além da campana dos pratos, percutida com muita classe por Junior Muelas. A letra tem um quê de tomada de posição em quebrar paradigmas, portanto, casa-se com o astral dos anos sessenta & setenta que ela carrega. Gostei desse trecho da letra: “Por isso eu vou dizer p’ra todos o que eu quiser, p’ra todos que eu quiser, p’ra todo mundo".  Uma afirmação forte e com suas sutilezas inerentes e pontuadas pelas vírgulas bem colocadas, portanto um bom jogo de palavras.
“Meu Amigo George” começa com um alarme falso. A contagem verbal dá o comando para o ataque inicial dos instrumentos, mas logo a seguir, uma nova contagem surge, para aí sim, a música deslanchar. Faz anos que não ouvia uma banda fazer uso desse recurso em um disco, portanto outro sutil resgate que a banda promove. Lembrou-me da canção: “I Want Freedom” do "Grand Funk" (LP "Survival" - 1971), por exemplo. 
 
Aqui, trata-se de uma canção com forte intenção psicodélica, com bela linha de baixo e condução muito boa do órgão Hammond, tendo o devido reforço da Caixa Leslie a girar em velocidade rápida. E gostei muito dos backing vocals entoados, sem letra, a cantarolar uma bela melodia.
“Vício Sem Fim” tem muito colorido harmônico. Arpejos de guitarra com um brilho intenso, baixo encorpado e a tecladeira de Alberto Sabella a trabalhar com multiplicidade. Apreciei muito a escolha de timbres dos sintetizadores, alguns a fazer uso do efeito Theremim, algo sensacional, além do órgão Hammond a usar o som de flauta, e assim imprimir uma certa docilidade à canção. 
 
Em uma outra parte, há uma acento brasileiro muito interessante, que remeteu-me ao som de Elis Regina nos anos setenta, quando esta cantora histórica e na companhia de seu então marido, o brilhante, Cesar Camargo Mariano, incorporaram o Rock ao seu trabalho, através da eletricidade encontrada e assumida. 
 
Adorei o timbre da bateria, aliás isso vale para o disco inteiro, que observa o mesmo padrão, mas nesta faixa com andamento mais reduzido, deu para apreciar cada peça com maior precisão e esse som seco, com o mínimo de reverber na sua resolução final, é sem dúvida o o som de bateria que eu mais gosto, igualmente. Em suma, como é bom ouvir uma bateria soar como se deve, ou seja, como uma bateria, verdadeiramente, em torno do seu som puro e assim deixar a cargo do baterista, a missão de explorar o seu timbre.
“Real Loucura” fecha o disco, e de fato é uma faixa intensa. Aqui a banda deixa um pouco de lado seu lado mais doce e investe forte em sonoridade progressiva, verdadeiramente, para imprimir uma quebradeira rítmica e harmônica, muito grande e a obrigar assim, a melodia a ser mais ousada. 
 
Lembra a música: “Cais”, do Milton Nascimento, logo no início, dada a sua característica soturna, mas intensamente bela, como é a canção do Milton e principalmente na interpretação da Elis Regina, neste caso. Alguns trechos remetem ao "Gentle Giant" e para situar mais em nossa realidade tupiniquim, lembra o som do "Terreno Baldio", do saudoso João Kurk. 
 
Na parte final, um Prog-Rock bem "nervoso", deveras cerebral e com a introdução de um solo de saxofone incrível (mais uma vez graças a participação do músico convidado, Victor Hugo), e também pela insanidade instigante que ficou garantida, portanto fez jus ao título da canção. É de fato uma “Real Loucura”. 
 
Por um segundo, o ouvinte desatento poderá achar estar a ouvir o LP “Lizard” do "King Crimson" (lançado em 1971), mas é A Estação da Luz a quebrar tudo, sob uma loucura intensa. A letra investe nessa perspectiva, também: “Sobriedade te faz entender, real loucura é sobreviver, ainda insiste em ser sentido, na esperança de ser compreendido”
Sobre a arte gráfica, é muito bela a imagem de uma locomotiva, uma velha “Maria Fumaça” indo com tudo sob os trilhos, com faróis acesos. A metáfora é boa ao mostrar, sim, uma máquina do passado, mas que vai para a frente e retrata o que A Estação da Luz de forma contundente faz na prática, ao unir o melhor do passado à realidade contemporânea. Uma banda que busca as melhores influências possíveis, mas que está atuante aqui e agora, para tocar com muito vigor. Destaca-se também a foto da banda sob efeito 3D e inevitavelmente salta-me da memória o LP "Shinin' on" do "Grande Funk", que usou desse mesmo expediente em 1974.

O disco foi gravado; mixado & masterizado no estúdio “Área 13”, de São José do Rio Preto-SP. Criação da capa; lay-out final e fotos, a cargo de Fabio Mata

A formação da banda nesse disco foi:
Renata Ortunho: Voz e Percussão
Cristhiano Carvalho: Guitarra; Violão e Voz
Junior Muelas: Bateria; Percussão e Voz
Alberto Sabella: Teclados e Voz
Vagner Siqueira: Baixo

Músico especialmente convidado:
Victor Hugo: Saxofone em “Papo Furado” e “Real Loucura”
A Estação da Luz  Da esquerda para a direita: Vagner Siqueira; Alberto Sabella, Renata Ortunho, Cristhiano Carvalho e Junior Muelas 

Ouça esse álbum na íntegra, nas seguintes plataformas virtuais:
Deezer; Spotify; Google Play; Itunes ou Apple Music, a acessar o mesmo Link abaixo:
https://onerpm.lnk.to/AEstacaoDaLuz 

E também disponível no espetacular Site "Nave dos Deuses", um dos maiores, senão o maior arquivo vivo do Rock Brasileiro de todos os tempos:
http://navedosdeuses.com.br/release/o-segundo/

Recomendo a audição do álbum, com ênfase e convido o leitor a não perder um show dessa banda, quando ela estiver em sua cidade.

Para conhecer melhor o trabalho da banda, acesse:

Página no Facebook :

Contato por E-Mail :      

aestacaodaluz@gmail.com

 

domingo, 15 de maio de 2016

CD Eu, o Estranho/Pepe Bueno - Por Luiz Domingues


Pepe Bueno, é baixista de uma banda de Rock chamada: Tomada, que já conta com uma carreira longeva na cena Rocker paulistana.
 
Super ativo como músico, produtor musical e envolvido também com audiovisuais, ele é irrequieto por natureza e não obstante o fato de batalhar arduamente por sua banda, encontra fôlego para trabalhos musicais paralelos em regime solo. 
Em 2008, ele lançou o seu primeiro álbum solo: “Nariz de Porco não é Tomada”, a estabelecer uma clara alusão em tom de brincadeira com o nome de sua própria banda. 
 
E nesse trabalho, já surpreendeu positivamente ao fugir do clichê de que disco solo de baixista tem que ser inteiramente instrumental e calcado em Jazz-Fusion, recheado por solos de baixo. Pelo contrário, se tratou de um disco repleto de canções com teor Rock e apelo Pop convidativo. 
 
Agora em 2016, ele lança um novo trabalho solo e surpreende mais uma vez, ao apresentar elementos os mais diversos, ainda que a formatação seja a de um conjunto de canções curtas, algumas com potencial radiofônico, até. Trata-se do CD "Eu, o Estranho"
Não obstante o que citei acima, sobre o caráter Pop de algumas canções, o seu novo álbum investe bastante em psicodelia, experimentalismos e loucuras em geral, para lembrar os primeiros álbuns dos Mutantes, em muitos aspectos. 
 
Com muita qualidade nas composições e arranjos, o álbum prima também pelo alto padrão instrumental, pois Bueno se cercou de ótimos músicos a acompanhá-lo, como a formar a banda base, além de alguns convidados pontuais e sensacionais. 
 
Ao contar com Alberto Sabella (teclados, guitarras) e Junior Muelas (bateria e percussão), componentes da excelente banda: “A Estação da Luz”, como o seu núcleo base, Bueno também teve o apoio de quatro guitarristas da pesada (Denny Caldeira, Xande Saraiva-Baranga-, Edu Gomes e Pi Malandrino), além das cantoras: Renata Ortunho (também componente d'A Estação da Luz), e Débora Camiotto, e também do vocalista, Fernando Fish (ex-componente d'A Estação da Luz). 
 
Com um time desses e a ter em mãos, boas composições e arranjos criativos na sua concepção, não teria como dar errado, e de fato, não ocasionou outro resultado mesmo, ao se tratar de um excelente álbum. 
 
A primeira faixa chama-se: “Se Abra” e cabe uma explicação em relação ao seu título, visto conter uma segunda intenção, em tom de homenagem prestada. 
                            O grande e saudoso, Renê Seabra 

Além da ideia em "se abrir”, no sentido da predisposição para absorver uma ideia nova, como sugere inicialmente o título, foi também a maneira pela qual Pepe Bueno homenageou o saudoso baixista, Renê Seabra (Se Abra/Seabra), que era muito amigo dele e de quase todo mundo no meio Rocker de São Paulo, incluso este que vos escreve. 
 
Tema instrumental, passeia pelo Jazz-Rock setentista com intenções funkeadas, a mostrar muita versatilidade musical. Ao apresentar uma introdução que lembra bastante o trabalho de Frank Zappa, contém uma linha de baixo intrincada, com intervenções muito ricas da guitarra e sobretudo pelos teclados pilotados por Alberto Sabella, que usou o seu arsenal setentista sensacional, de forma soberba. 
 
Há a presença de um clavinete a imprimir muito balanço, um piano muito ao estilo de Chick Corea, órgão Hammond frenético a La Ken Hensley, e um solo de baixo muito louco, para derreter os miolos do ouvinte. 

Aliás, para introduzir a entrada do referido solo, uma frase emblemática (e engraçada), que fora um bordão criado e usado pelo grande Renê, é pronunciada: 
 
-“Hey, Bro, liga o phodalizer!”
 
Ou seja, uma pilhéria que sempre arrancou risadas de quem o ouvia a pronunciar tal frase de efeito. É de fato, a única intervenção vocal da faixa, que é instrumental. 
 
Junior Muelas, que é um dos meus bateristas prediletos na cena Rocker brasileira moderna, é tão seguro e preciso, quanto esperamos dele, e ainda colocou uma intervenção de percussão com cowbell e reco-reco, bastante estratégica, a garantir um "molho" todo especial em alguns trechos da canção.  
E lá vamos nós, de encontro à segunda faixa, chamada: “Rotina”, com uma deliciosa condução, ao melhor estilo das influências sessentistas que buscavam inspiração nos anos trinta do século passado, como um recurso bem difundido. 
 
Dessa forma, tal tema é folk, bucólico, silvestre e lembra o trabalho de artistas como: Donovan, The Beatles e outros internacionais, além de que possui o sabor de Rock Rural, como se estivéssemos no interior de Minas Gerais a ouvir um disco do Sá/Rodrix & Guarabyra, confortavelmente instalados em uma casa no campo.

Gosto muito da docilidade do mellotron, a la Beatles, a desenhar junto com a voz principal e os backing vocais. É bem divertida também a intervenção do baixo de Bueno, ao usar um recurso bem exagerado (synth bass, na verdade), com uma condução típica de música Folk, a realçá-la. Mostra-se porquanto muito interessante a intervenção do órgão Hammond, "limpo", sem o uso da caixa Leslie, ao estilo “igreja”, que aparece vez por outra.

Há muitos detalhes com cordas, incluso um lap steel (executado pelo próprio Bueno, que aliás, pilotou vários violões e guitarras no disco todo), a se revelar bem "caipira" e colorido, é claro. A letra dessa canção contém um tanto do ideário hippie e eu gosto bastante dessa suposta ingenuidade perdida, mas que suplanta em muito a insistência de letristas pessimistas, ao pintarem o mundo de cinza.

“Deixe o sol entrar na sala, abra a porta ou deixe um vão; raio de luz mostra a vida, mais simples que a escuridão”...

Fecho com o “mahatma” Harrison, nessa questão, em deixar o sol entrar, sempre... portanto, eis mais uma boa inspiração de Pepe Bueno!

“Vale Dizer” é uma outra canção “beatle” (mas tem um "quê" do som do grupo britânico, "Small Faces", nas entrelinhas, também), a denotar uma linha Folk-Rock, no entanto, a despeito de uma primeira impressão que eu tive, a opção por ter ficado alojada logo a seguir da anterior na formulação das faixas, no sentido de ter sido uma escolha errada pela quase similaridade estilística entre ambas, na verdade, ao ouvi-la com atenção, a minha impressão se dissipou por completo.
Muitos elementos da teia "beatle" a provocarem sonhos lúdicos, estão ali representados. A se discriminarem: solo de cravo a introduzir o elemento erudito, via George Martin, melloton doce a la "Strawberry Fields"; trechos em staccato, órgão Hammond, baixo com timbre grave e aveludado a marcar a tônica e quinta, ou quarta abaixo e guitarras pesadas a realçarem as partes mais dramáticas. 
 
Lembrou-me também muitas canções da carreira solo do Ringo Starr, sempre alimentada pela cordialidade e genialidade de seus amigos talentosos e presentes constantemente em sua volta.

A quarta faixa se chama: “Bem à Vista”. Trata-se de uma aposta no ritmo 6/8, a conter uma condução de baixo e bateria muito envolvente. Os teclados brilham muito: o órgão Hammond lembra muito a sonoridade de algumas boas bandas da seara do Hard-Rock setentista, tais como o Uriah Heep, Jane, Lucifer’s Friend, Birth Control e outras, com peso e saturação.

Gosto da parte B, muito dramática, a propor um crescente harmônico. É melancólica a melodia, principalmente pelo fato de ser realçada pela letra poética (“A escuridão vai chegar / E eu não vou me preocupar / Em acender a luz e sim em esperar/O dia amanhã ser e o sol / Chega cedo e brilha forte / Pedindo o seu espaço”). Lembrou-me pela intensidade, a cadência de “1921”, do disco "Tommy", obra do The Who.

Os backing vocals são sensacionais, com um desenho de notas esticadas em mínimas e semínimas, a lembrar muito o trabalho vocal dos irmãos Nardo, nos bons tempos de Rita Lee & Tutti Frutti.

“Última Prova” apresenta o baixo de Pepe com um timbre sensacional, e o riff é "ganchudo", pois lembra bastante os trabalhos solos de George Harrison.

Muelas e Sabella brilham muito. Gostei bastante da base de guitarra, também, com uma densidade rara, mas sem cair na tentação dos timbres modernosos e "crunchados" perpetrados por bandas com orientação pesada, e pelo contrário, a demarcar ser bem "vintage" (e por isso me agradou, certamente).
“Tudo o que queria” é a sexta faixa do disco e investe no Country-Rock. O timbre do órgão Hammond e do piano lembram demais o estilo da The Band. É como se Richard Manuel e Garth Hudson a houvessem gravado, mas certamente que ambos jogaram as suas bênçãos sobre Alberto Sabella. A canção apresenta um ótimo refrão e apoio da guitarra nessa canção.

“Pote de Mal” é um tremendo Blues-Rock em 6/8, com influências as mais nobres, a passear entre a influência de bandas e artistas solo tais como: Humble Pie, Mountain, Ten Years After, Robin Trower, Rory Gallagher etc. 
 
É muito interessante o vibrato da guitarra em alguns trechos. Apreciei toda a loucura experimental a la "Whole Lotta Love", do Led Zeppelin, no meio da canção, e o solo de guitarra é para arrepiar.

Por fim, a última faixa é emblemática ao bojo da obra toda. Ao justificar a temática que evoca a estranheza psicodélica, na canção “O Estranho”, Pepe Bueno não mediu esforços e apostou as suas fichas na rodada final do seu carteado, com muito experimentalismo, estranheza & psicodelia. 
Neste caso, esse tema lembra muito o trabalho de bandas como o Gong, Can, Mutantes nos seus primeiros tempos, trabalhos solo de Syd Barrett e com a intervenção vocal de Débora Camiotto sob uma locução anárquica, traz a lembrança do trabalho de Arrigo Barnabé. Completamente louca, é uma faixa instigante que fecha bem o álbum e justifica seu título, como uma ode à loucura.

O disco foi gravado em dois estúdios. Parte no "Área 13", de São José do Rio Preto-SP, estúdio de propriedade de Alberto Sabella, que pilotou a gravação, e uma outra parte no "Cakewalking", de São Paulo, do não menos ótimo, Edu Gomes, que também fez a pilotagem dos botões.

O áudio ficou muito bom, moderno a observar o "level" alto, embora em alguns momentos eu tenha achado que a voz solo de Pepe Bueno tenha ficado obscurecida em uma briga com o instrumental. 
 
Veja, eu sou um Rocker inveterado e detesto o conceito Pop/comercial em se colocar a voz solo muito acima do instrumental em um trabalho de mixagem, e pelo contrário, cresci a ouvir discos de bandas de Rock clássicas, com conceito oposto, das vozes mixadas quase no mesmo patamar dos instrumentos. 
 
Mas eu senti em alguns trechos, uma certa dificuldade na inteligibilidade das letras. Claro, pode ter sido proposital para realçar a estranheza proposta na obra, conceitualmente portanto.  
Sobre a capa, cabe um parêntese. Assinada por Fábio Mata (que também compôs a capa do CD debut d'A Estação da Luz), é um dos melhores trabalhos dos últimos tempos, em uma colagem muito criativa. 
 
Ao fazer jus ao mote geral da obra, tal ilustração trabalha com a ideia da estranheza expressa através de conceito surrealista, ao apresentar uma ilustração emoldurada como um quadro de exposição, e assim mostrar a perturbadora figura de dois homens sentados em uma mesa de restaurante, certamente sob a égide do conceito surreal. 
 
Ambos estão trajados à moda dos anos quarenta e causa estranheza o rosto de um deles, fatiado em camadas como a insinuar a metáfora das subpersonalidades descoladas e o outro, com cabeça de elefante (a mencionar o panteão hinduísta talvez, seria Ganesh?), ao deixar derramar um copo de leite, que se espalha pela tela. 
 
Isso tudo, além dos detalhes (cogumelos presentes no copo de um drink, a capa do primeiro álbum do Pepe Bueno, sobre a mesa etc). Conclusão: é estranhamente belo...
A mixagem do disco foi feita por Alberto Sabella, e o próprio, Pepe Bueno, com masterização a cargo de Daniel “Lanchinho”, em São Paulo. Foto por Victor Daguano. Assinam a produção geral, junto a Pepe Bueno: Alberto Sabella e Junior Muelas. 
 
O disco não foi lançado em versão física, através do CD tradicional e Bueno justifica que tal iniciativa nos dias atuais, com o CD em decadência, tal disposição não faz sentido mais. Penso igual, que se registre. O artista não descarta no entanto, que no futuro haja um lançamento na versão em vinil, a se tratar do velho LP. 
 
Como o mercado é volátil (e estratégico enquanto capitalista), quem poderia nos garantir que o CD não tenha um revival mais para frente, também? Registre-se, também. 
 
Por enquanto, a opção é ouvir a versão que o disco tem em plataformas streaming, como o Spotify e Deezer, por exemplo.

Bueno já produziu e lançou um vídeoclip, louquíssimo por sinal, da música “O Estranho”, disponível nos portais, YouTube e Vevo.  Ele promete lançar um para cada canção, nos próximos meses. 
 
Eis abaixo, o clip de "O Estranho" :
Veja também o clip do Making off da gravação do álbum "Eu, o Estranho" :


Para conhecer melhor esse trabalho, procure informações na página de Marcelo “Pepe” Bueno no Facebook:


O disco na íntegra, no Spotify: 


Contato direto com Pepe Bueno:


Eis aí mais um trabalho que eu recomendo, certamente!