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domingo, 15 de outubro de 2017

CD Hoje / Tomada - Por Luiz Domingues



O Tomada é uma banda que já acumula uma história bem significativa no panteão do Rock paulista e brasileiro. Em atividade desde o final dos anos noventa e com vários trabalhos lançados (quatro álbuns anteriores a este que eu estou a resenhar e um DVD com cunho documentário & biográfico).

Ao reunir uma bela discografia, tal banda possui clips; vídeos ao vivo, um portfólio formatado com muito material, aparições em programas de rádio e TV, muita interação na Internet e o melhor de tudo: fãs de seu trabalho, muitos por sinal.

Nesta altura, ao lançar o seu último trabalho, o CD denominado: “Hoje”, já chegou ao ponto que todo artista sonha atingir, ou seja, criar uma expectativa generalizada da parte de crítica e do público em relação ao novo trabalho, antes mesmo de entrar em estúdio e claro que esse é um ponto da carreira que todo artista almeja alcançar. Não foi gratuito, haja vista que houve muito esforço; luta, estrada percorrida, mudanças de formação e bastante história gerada até chegar nesse patamar, mas esse dia chegou para a banda e tal realidade acontece, sugestivamente, “Hoje”.

Madura, experiente e sempre batalhadora, a banda apresenta um novo álbum permeado por canções com qualidade e a estabelecer aquela ponte tradicional na trajetória do grupo, no tocante à perfeita simbiose entre as melhores influências do passado e o pé no presente. 

Nesses termos, o Tomada bebe na fonte do Rock sessenta-setentista e soa moderno ao mesmo tempo, falemos em um português claro.

E não aborda o Rock, apenas, visto que no bojo do trabalho, passeia pelo Blues; R’n’B, Soul Music, Pop e até lança pitadas saborosas de MPB na sua receita, fora tudo ser feito com bastante consciência artística, é importante ressaltar-se.

O tecladista, Mateus Schanoski, ao vivo com o Tomada. Foto: Leandro Almeida 

O CD “Hoje”, apresenta onze faixas, sendo que duas dessas canções são releituras muito interessantes, ao estilo daquela maravilhosa MPB setentista, que era tão comprometida com a contracultura, ao confundir-se com o próprio Rock, por isso o mais adequado seria denominá-la como uma espécie de Folk-Rock Music ou coisa que o valha. Sobre as faixas, gostei das canções, dos seus arranjos, letras e o áudio, em torno de uma gravação muito feliz ao realçar os timbres vintage, ao máximo.

O disco abre com “Terno Branco”, um belo Rock, a apresentar teclados muito bem colocados pelo ótimo, Mateus Schanoski, um especialista em timbragens vintage e excelente “piloto de teclas” à moda antiga. 

Gostei muito dos timbres de todos os instrumentos, aliás, com um baixo robusto, bateria a soar como bateria (sem o indefectível uso exagerado de reverber, amém!), e guitarras com ótimo “punch”. São solos muito bonitos de slide, devo acrescentar, da parte do excelente guitarrista, Vagner Nascimento. 

Backing vocals muito bem colocados e o vocal solo do Ricardo Alpendre, dono da voz oficial da banda, a se mostrar cada vez mais técnico e seguro, em uma evolução notável, pois ao contrário de outros cantores que nascem com talento, mas não buscam aprimoramento, Ricardo, estudou e estuda ainda, portanto, o seu talento nato enriquece-se a cada disco novo do Tomada, visto que o estudo engrandece-o sempre, em progressão contínua. A sua dicção é excelente, fora o poder de emissão, agora aliada à técnica de respiração que aprendeu a usar muito bem e por ser muito firme também no quesito afinação, a torná-lo um cantor ótimo e muito consciente do que faz. 

Sobre a canção em si, lembrou-me muitas coisas boas do passado glorioso do Rock brasileiro (O Peso, Bixo da Seda...), e também sobre algumas referências mais modernas. Trata-se de um Rock’n' Roll básico e Pop ao mesmo tempo, com possibilidade para ser radiofônico, tranquilamente. 

A respeito da letra, apresenta um enfoque bastante original, enquanto construção poética, ao fugir dos clichês, totalmente. Quase em tom de crônica, elenca imagens em que o uso de um terno branco pode proporcionar, como possibilidades na vida de um homem, não só pela sugestão empírica, como através de metáforas. Ao pensar nessa hipótese, a impressão que o produtor musical, Antonio Celso Barbieri teve dela e expressou em uma rede social com grande repercussão, ajuda o leitor e ouvinte a ter uma ideia dessa riqueza toda. Barbieri disse que tal faixa e a sua evocação, remeteu-o à figura do John Lennon na capa do LP mítico, "Abbey Road", dos Beatles. Perfeita interpretação em termos simbólicos, eu concordo e acrescento o Walter Franco a andar pela São Paulo noturna dos anos setenta, ao ilustrar a capa de seu álbum, "Revolver", com ambos a usar ternos brancos. Ou seja, uma imagem leva à outra.  
Assista acima um vídeo a conter o "making of" da gravação do álbum: Hoje", do Tomada

Link para assistir no You Tube:

“No Turnig Point”, a segunda faixa, começa com um sensacional piano elétrico. É inevitável não associar ao R’n’B classudo de Ray Charles, mas a música traz também motivações análogas. Lembrou-me bastante o Blues-Rock com alto teor Pop do "Back Street Crawler". Excelente o solo de piano e também o sentido rítmico da base de guitarra, bem espalhada pelo pan do stereo, algo certamente (bem) planejado na pré-produção de estúdio. 

É muito bom o refrão, também com bastante apelo popular (no bom sentido Rocker da expressão), com potencial para ser cantada em uníssono pelo público em festivais com grande audiência em estádios/arenas etc. Solo de guitarra super melódico, gostei muito e com um belo timbre, diga-se de passagem.

O guitarrista, Vagner Nascimento, ao vivo com o Tomada no Centro Cultural São Paulo. Foto: Eduardo Luderer

“Só com a Solidão” começa também com bastante influência R’n’B, e tem um quê de "Barão Vermelho", com aquela divisão rítmica toda entrecortada. Mais um solo ótimo de piano, desta feita o tradicional. Gostei do baixo a passear em andantes estratégicos e da bateria de Fábio Galio ao acompanhar a fragmentação rítmica com muita criatividade, fora as ótimas intervenções com contra-solos e micro-solos de guitarra.


A seguir, uma releitura muito agradável. Se a versão original dos anos setenta já agrada-me bastante, essa versão do Tomada para o clássico blues do Caetano Veloso, "Como 2 e 2", surpreendeu-me muito positivamente. 

Primeiro pela interpretação vocal e visceral de Ricardo Alpendre e sob um arranjo geral, sensacional. A base toda arpejada pela guitarra lembrou-me o clássico, “I’ve Been Loving You Too Long”, de Otis Redding, a firmar uma consistência harmônica, poderosa. O baixo de Pepe Bueno ficou com um timbre espetacular, absolutamente aveludado e encorpado, e sem contar as frases criadas, muito bonitas, sob uma bela construção de linha. 

O órgão Hammond suave, a marcar a camada harmônica, ficou ótimo e a bateria com pouco ou nenhum reverber, absolutamente providencial para garantir uma atmosfera de gravação ao padrão da Black Music sessentista. Adorei o timbre do bumbo, magnífico mesmo e tocado com muito bom gosto pelo ótimo baterista, Fábio Galio. E como se não bastasse tudo isso, os backing vocals ficaram sensacionais (Renata "Tata" Martinelli sempre faz a diferença, eu sei bem disso!). É como ouvir um velho disco da Gal Costa, aqueles do tempo bom em que Gal era To-Tal; Fa-Tal, Le-Gal...

O baterista, Fábio Galio, em ação com o Tomada no CCSP. Foto: Eduardo Luderer

“Terra Batida” tem aquela aproximação saudável com a MPB setentista em que eu aludi no início desta resenha. Tem a ver também com certos artistas da MPB mais atual igualmente e que buscam essa conexão perdida, tais como: Lenine e Zeca Baleiro, entre outros. 

Esta canção tem uma base muito "swingada", com um ótimo trabalho de guitarra e o acréscimo da percussão, pelo bom músico convidado, Tustão Cunha, foi providencial. Muito bem executada, a percussão trouxe um molho incrível ao arranjo final. Tem esse elemento “Doobie Brothers”, igualmente a reforçar o sentido de um balanço muito bem executado. 

Uma parte "C" com uma levada no padrão, R’n’B, é sensacional, por ter oferecido um colorido extra à canção. A sobra do piano ao final, sozinho, foi uma ótima ideia, a garantir a dose de singeleza. Trata-se de uma canção perfeita para ouvir-se na condução de um carro conversível, em meio a uma estrada deserta, e assim a sentindo o cabelo voar e com a sensação de liberdade a permear toda a experiência, é lógico.


“Hoje”, a canção título do álbum, lembra o "The Who" logo no início pelo estilo de riff, mas traz outros elementos retrô, igualmente nobres como referências em seu decorrer. Como por exemplo a presença de elementos psicodélicos deliciosos. Vocais em staccato, com vozes bem processadas, teclados a buscartimbres adoráveis e remotos, por evocar o bom e velho mellotron, uso e abuso de Leslie na guitarra e um contra-solo super processado, muito interessante. Gostei muito da letra, também. 

Veja esse trecho: “Na corrida, maratonistas tão fora de forma, não é o tempo escasso, é você que tem prazo, que também vive o prazo, olha que atraso"... 

E este: “óbvio, parece óbvio, tão óbvio”...


Em suma, é uma crítica ácida aos condicionamentos impostos pela sociedade moderna, mas feita de uma forma tão sutil, que não agride, não tem ranço panfletário, mas muito pelo contrário, ostenta um senso poético incomum nos dias atuais. Ponto para o Tomada, mais um aliás.

Eis acima o clip oficial da canção: "Trouxe Flores"

O link para assistir no You Tube é:

“Trouxe Flores”, de certa forma toca no assunto que bandas midiáticas como "Ira" e "Titãs" trouxeram à baila nos anos oitenta, mas o Tomada de fato trouxe flores com muito maior contundência. A performance da banda nessa canção é tão vigorosa quanto delicada, a revelar uma uma simbiose difícil de obter-se, mas a banda logrou êxito em minha percepção. O refrão é tão Pop quanto o das respectivas canções das bandas oitentistas que citei, só que aqui o Rock aconteceu, como se deve.


“5 Am” tem uma leveza e aposta em harmonia e melodia Pop ao sabor do “R’n’B”, mas apresenta as suas sutilezas. Por exemplo, em certos trechos da melodia principal, onde foge um pouco do padrão tradicional e ousa ao buscar escalas não usuais. Tem um ótimo solo de piano, também.

Uma panorâmica do Tomada no palco do CCSP, ao vivo, e com o vocalista, Ricardo Alpendre, em destaque sob foco de luz. Foto: Eduardo Luderer

“Carnaval” começa com uma batucada de samba, o que não é exatamente uma inovação para uma banda de Rock, mas sempre causa um efeito surpresa ao ouvinte Rocker tradicional que não conta com isso, habitualmente, digamos assim. A canção é Pop, e também traz uma linha melódica interessante ao alternar o refrão no padrão "chiclete" tradicional, para tocar e fazer sucesso radiofônico, mas ao mesmo tempo em outros trechos há uma passagem com uma métrica nada usual, portanto, vejo com mérito essa preocupação da banda em misturar conceitos. 

Sobre a letra, trata-se de uma interessante abordagem acerca da questão da inspiração, em princípio a parecer uma letra a evocar o amor homem-mulher, mas a conter implicitamente o efeito da metalinguagem, com o artista a falar de seu próprio processo de criação e propósitos na música.


Veja este trecho de “Carnaval”: 
“Eu vou pedir para Deus inspiração, pra te fazer declaração, fazer você sentir verão pra te fazer chorar / eu vou querer também explicação se não der certo, não vou ficar na mão, sou eu quem vou chorar”...


A seguir, vem uma outra releitura, desta feita: “Ama Teu Vizinho como a Ti Mesmo”, canção emblemática de Sá; Rodrix & Guarabyra, clássico daquele saboroso Rock Rural dos anos setenta, cheio de contundência e brilho, marca registrada daquele trio, que o fazia tão bem. E nesta versão do Tomada, a roupagem ficou sensacional, com uma pegada Rocker inequívoca.

Da esquerda para a direita : Fábio Galio (na bateria ao fundo); Ricardo Alpendre; Pepe Bueno e Vagner Nascimento. Foto : Eduardo Luderer 

“Sensação” resgata a sonoridade dos primeiros trabalhos do próprio Tomada, ao garantir o sentido do Boogie Woogie primordial, mas neste caso contém um apelo Pop muito bom. Gostei bastante da harmonia e da melodia principal. Mais uma faixa com potencial Pop e a provar que o Tomada ficou bom em fazer música nesses moldes. 

Se fosse em uma época passada, onde a difusão mainstream era um pouco menos egoísta, canções assim estariam a tocar muito nas emissoras de rádio, mas os responsáveis por tal decisão, atualmente, nem cogitam dar chances para bandas de Rock underground, como bem sabemos, uma lástima. Tudo bem, sem resmungar, vamos ouvir “Hoje” que vale muito mais a pena e deixemos as rádios a tocar o seu pastiche anti-musical e deprimente.

Sobre a capa, gostei bastante da ilustração. É pura impressão pessoal, mas lembrou-me os filmes do cineasta francês, Jacques Tatit, bem naquela sugestão meio nonsense do personagem, Monsieur Hulot. Bem criativa a ideia da ilustração do motociclista a fundir-se com a porta do galpão e a moto ser verdadeira, dentro desse contexto. Também é interessante os cartazes velhos a conter os nomes da músicas. Neste caso, trata-se de um ótimo trabalho do artista gráfico, Fabio Matta.

Para sintetizar, o Tomada avança ao mostrar amadurecimento, criatividade e força nesse seu novo trabalho. Eu recomendo!
Foi gravado nos estúdios Orra Meu e Musicaria 2 Irmãos e mixado no DaCosta Digital Studio, todos em São Paulo. 

O guitarrista das bandas "Flying Chair" e "8080", Claudio “Moco” Costa, foi o técnico de captura e mixagem, além de uma especial atenção na direção das vozes, Houve também a participação do guitarrista, Martin Mendonça (Pitty e "Agridoce"), como coprodutor da mixagem e a representar a banda nesse processo, o baixista Pepe Bueno.

Técnicos auxiliares: Marcello Schevano; Gabriel Martini e Fábio Galio.

Capa e encarte (criação; lay-out e arte-final): Fábio Matta (visite o seu site: bardeideias.com)

Fotos promocionais & ao vivo: Eduardo Luderer e Leandro Almeida
Selo/distribuição virtual e física: Tratore

Produção executiva: Pepe Bueno

Produção Geral: Tomada


A formação da banda nesse disco:

Pepe Bueno: Baixo e Voz

Ricardo Alpendre: Voz

Vagner Nascimento: Guitarra e Voz

Mateus Schanoski: Teclados e Voz

Fábio Galio: Bateria e Percussão



Músicos convidados:

Marcelo Gross ("Cachorro Grande"): Guitarra em “Hoje”

Renata “Tata” Martinelli: Voz em “Como 2 e 2” e “Terra Batida”

Tustão Cunha: Percussão em “Terra Batida”; “Ama Teu Vizinho como a Ti Mesmo” e “Carnaval”



Matéria anterior sobre o Tomada publicada neste Blog:




O álbum pode ser escutado na íntegra na plataforma Spotify:



Também na plataforma Deezer:



Contato direto com a banda:
http://www.tomadarock.com.br

Tomada. Da esquerda para a direita: Vagner Nascimento; Mateus Schanoski, Ricardo Alpendre, Fábio Galio e Pepe Bueno. Foto: Eduardo Luderer

domingo, 15 de maio de 2016

CD Eu, o Estranho/Pepe Bueno - Por Luiz Domingues


Pepe Bueno, é baixista de uma banda de Rock chamada: Tomada, que já conta com uma carreira longeva na cena Rocker paulistana.
 
Super ativo como músico, produtor musical e envolvido também com audiovisuais, ele é irrequieto por natureza e não obstante o fato de batalhar arduamente por sua banda, encontra fôlego para trabalhos musicais paralelos em regime solo. 
Em 2008, ele lançou o seu primeiro álbum solo: “Nariz de Porco não é Tomada”, a estabelecer uma clara alusão em tom de brincadeira com o nome de sua própria banda. 
 
E nesse trabalho, já surpreendeu positivamente ao fugir do clichê de que disco solo de baixista tem que ser inteiramente instrumental e calcado em Jazz-Fusion, recheado por solos de baixo. Pelo contrário, se tratou de um disco repleto de canções com teor Rock e apelo Pop convidativo. 
 
Agora em 2016, ele lança um novo trabalho solo e surpreende mais uma vez, ao apresentar elementos os mais diversos, ainda que a formatação seja a de um conjunto de canções curtas, algumas com potencial radiofônico, até. Trata-se do CD "Eu, o Estranho"
Não obstante o que citei acima, sobre o caráter Pop de algumas canções, o seu novo álbum investe bastante em psicodelia, experimentalismos e loucuras em geral, para lembrar os primeiros álbuns dos Mutantes, em muitos aspectos. 
 
Com muita qualidade nas composições e arranjos, o álbum prima também pelo alto padrão instrumental, pois Bueno se cercou de ótimos músicos a acompanhá-lo, como a formar a banda base, além de alguns convidados pontuais e sensacionais. 
 
Ao contar com Alberto Sabella (teclados, guitarras) e Junior Muelas (bateria e percussão), componentes da excelente banda: “A Estação da Luz”, como o seu núcleo base, Bueno também teve o apoio de quatro guitarristas da pesada (Denny Caldeira, Xande Saraiva-Baranga-, Edu Gomes e Pi Malandrino), além das cantoras: Renata Ortunho (também componente d'A Estação da Luz), e Débora Camiotto, e também do vocalista, Fernando Fish (ex-componente d'A Estação da Luz). 
 
Com um time desses e a ter em mãos, boas composições e arranjos criativos na sua concepção, não teria como dar errado, e de fato, não ocasionou outro resultado mesmo, ao se tratar de um excelente álbum. 
 
A primeira faixa chama-se: “Se Abra” e cabe uma explicação em relação ao seu título, visto conter uma segunda intenção, em tom de homenagem prestada. 
                            O grande e saudoso, Renê Seabra 

Além da ideia em "se abrir”, no sentido da predisposição para absorver uma ideia nova, como sugere inicialmente o título, foi também a maneira pela qual Pepe Bueno homenageou o saudoso baixista, Renê Seabra (Se Abra/Seabra), que era muito amigo dele e de quase todo mundo no meio Rocker de São Paulo, incluso este que vos escreve. 
 
Tema instrumental, passeia pelo Jazz-Rock setentista com intenções funkeadas, a mostrar muita versatilidade musical. Ao apresentar uma introdução que lembra bastante o trabalho de Frank Zappa, contém uma linha de baixo intrincada, com intervenções muito ricas da guitarra e sobretudo pelos teclados pilotados por Alberto Sabella, que usou o seu arsenal setentista sensacional, de forma soberba. 
 
Há a presença de um clavinete a imprimir muito balanço, um piano muito ao estilo de Chick Corea, órgão Hammond frenético a La Ken Hensley, e um solo de baixo muito louco, para derreter os miolos do ouvinte. 

Aliás, para introduzir a entrada do referido solo, uma frase emblemática (e engraçada), que fora um bordão criado e usado pelo grande Renê, é pronunciada: 
 
-“Hey, Bro, liga o phodalizer!”
 
Ou seja, uma pilhéria que sempre arrancou risadas de quem o ouvia a pronunciar tal frase de efeito. É de fato, a única intervenção vocal da faixa, que é instrumental. 
 
Junior Muelas, que é um dos meus bateristas prediletos na cena Rocker brasileira moderna, é tão seguro e preciso, quanto esperamos dele, e ainda colocou uma intervenção de percussão com cowbell e reco-reco, bastante estratégica, a garantir um "molho" todo especial em alguns trechos da canção.  
E lá vamos nós, de encontro à segunda faixa, chamada: “Rotina”, com uma deliciosa condução, ao melhor estilo das influências sessentistas que buscavam inspiração nos anos trinta do século passado, como um recurso bem difundido. 
 
Dessa forma, tal tema é folk, bucólico, silvestre e lembra o trabalho de artistas como: Donovan, The Beatles e outros internacionais, além de que possui o sabor de Rock Rural, como se estivéssemos no interior de Minas Gerais a ouvir um disco do Sá/Rodrix & Guarabyra, confortavelmente instalados em uma casa no campo.

Gosto muito da docilidade do mellotron, a la Beatles, a desenhar junto com a voz principal e os backing vocais. É bem divertida também a intervenção do baixo de Bueno, ao usar um recurso bem exagerado (synth bass, na verdade), com uma condução típica de música Folk, a realçá-la. Mostra-se porquanto muito interessante a intervenção do órgão Hammond, "limpo", sem o uso da caixa Leslie, ao estilo “igreja”, que aparece vez por outra.

Há muitos detalhes com cordas, incluso um lap steel (executado pelo próprio Bueno, que aliás, pilotou vários violões e guitarras no disco todo), a se revelar bem "caipira" e colorido, é claro. A letra dessa canção contém um tanto do ideário hippie e eu gosto bastante dessa suposta ingenuidade perdida, mas que suplanta em muito a insistência de letristas pessimistas, ao pintarem o mundo de cinza.

“Deixe o sol entrar na sala, abra a porta ou deixe um vão; raio de luz mostra a vida, mais simples que a escuridão”...

Fecho com o “mahatma” Harrison, nessa questão, em deixar o sol entrar, sempre... portanto, eis mais uma boa inspiração de Pepe Bueno!

“Vale Dizer” é uma outra canção “beatle” (mas tem um "quê" do som do grupo britânico, "Small Faces", nas entrelinhas, também), a denotar uma linha Folk-Rock, no entanto, a despeito de uma primeira impressão que eu tive, a opção por ter ficado alojada logo a seguir da anterior na formulação das faixas, no sentido de ter sido uma escolha errada pela quase similaridade estilística entre ambas, na verdade, ao ouvi-la com atenção, a minha impressão se dissipou por completo.
Muitos elementos da teia "beatle" a provocarem sonhos lúdicos, estão ali representados. A se discriminarem: solo de cravo a introduzir o elemento erudito, via George Martin, melloton doce a la "Strawberry Fields"; trechos em staccato, órgão Hammond, baixo com timbre grave e aveludado a marcar a tônica e quinta, ou quarta abaixo e guitarras pesadas a realçarem as partes mais dramáticas. 
 
Lembrou-me também muitas canções da carreira solo do Ringo Starr, sempre alimentada pela cordialidade e genialidade de seus amigos talentosos e presentes constantemente em sua volta.

A quarta faixa se chama: “Bem à Vista”. Trata-se de uma aposta no ritmo 6/8, a conter uma condução de baixo e bateria muito envolvente. Os teclados brilham muito: o órgão Hammond lembra muito a sonoridade de algumas boas bandas da seara do Hard-Rock setentista, tais como o Uriah Heep, Jane, Lucifer’s Friend, Birth Control e outras, com peso e saturação.

Gosto da parte B, muito dramática, a propor um crescente harmônico. É melancólica a melodia, principalmente pelo fato de ser realçada pela letra poética (“A escuridão vai chegar / E eu não vou me preocupar / Em acender a luz e sim em esperar/O dia amanhã ser e o sol / Chega cedo e brilha forte / Pedindo o seu espaço”). Lembrou-me pela intensidade, a cadência de “1921”, do disco "Tommy", obra do The Who.

Os backing vocals são sensacionais, com um desenho de notas esticadas em mínimas e semínimas, a lembrar muito o trabalho vocal dos irmãos Nardo, nos bons tempos de Rita Lee & Tutti Frutti.

“Última Prova” apresenta o baixo de Pepe com um timbre sensacional, e o riff é "ganchudo", pois lembra bastante os trabalhos solos de George Harrison.

Muelas e Sabella brilham muito. Gostei bastante da base de guitarra, também, com uma densidade rara, mas sem cair na tentação dos timbres modernosos e "crunchados" perpetrados por bandas com orientação pesada, e pelo contrário, a demarcar ser bem "vintage" (e por isso me agradou, certamente).
“Tudo o que queria” é a sexta faixa do disco e investe no Country-Rock. O timbre do órgão Hammond e do piano lembram demais o estilo da The Band. É como se Richard Manuel e Garth Hudson a houvessem gravado, mas certamente que ambos jogaram as suas bênçãos sobre Alberto Sabella. A canção apresenta um ótimo refrão e apoio da guitarra nessa canção.

“Pote de Mal” é um tremendo Blues-Rock em 6/8, com influências as mais nobres, a passear entre a influência de bandas e artistas solo tais como: Humble Pie, Mountain, Ten Years After, Robin Trower, Rory Gallagher etc. 
 
É muito interessante o vibrato da guitarra em alguns trechos. Apreciei toda a loucura experimental a la "Whole Lotta Love", do Led Zeppelin, no meio da canção, e o solo de guitarra é para arrepiar.

Por fim, a última faixa é emblemática ao bojo da obra toda. Ao justificar a temática que evoca a estranheza psicodélica, na canção “O Estranho”, Pepe Bueno não mediu esforços e apostou as suas fichas na rodada final do seu carteado, com muito experimentalismo, estranheza & psicodelia. 
Neste caso, esse tema lembra muito o trabalho de bandas como o Gong, Can, Mutantes nos seus primeiros tempos, trabalhos solo de Syd Barrett e com a intervenção vocal de Débora Camiotto sob uma locução anárquica, traz a lembrança do trabalho de Arrigo Barnabé. Completamente louca, é uma faixa instigante que fecha bem o álbum e justifica seu título, como uma ode à loucura.

O disco foi gravado em dois estúdios. Parte no "Área 13", de São José do Rio Preto-SP, estúdio de propriedade de Alberto Sabella, que pilotou a gravação, e uma outra parte no "Cakewalking", de São Paulo, do não menos ótimo, Edu Gomes, que também fez a pilotagem dos botões.

O áudio ficou muito bom, moderno a observar o "level" alto, embora em alguns momentos eu tenha achado que a voz solo de Pepe Bueno tenha ficado obscurecida em uma briga com o instrumental. 
 
Veja, eu sou um Rocker inveterado e detesto o conceito Pop/comercial em se colocar a voz solo muito acima do instrumental em um trabalho de mixagem, e pelo contrário, cresci a ouvir discos de bandas de Rock clássicas, com conceito oposto, das vozes mixadas quase no mesmo patamar dos instrumentos. 
 
Mas eu senti em alguns trechos, uma certa dificuldade na inteligibilidade das letras. Claro, pode ter sido proposital para realçar a estranheza proposta na obra, conceitualmente portanto.  
Sobre a capa, cabe um parêntese. Assinada por Fábio Mata (que também compôs a capa do CD debut d'A Estação da Luz), é um dos melhores trabalhos dos últimos tempos, em uma colagem muito criativa. 
 
Ao fazer jus ao mote geral da obra, tal ilustração trabalha com a ideia da estranheza expressa através de conceito surrealista, ao apresentar uma ilustração emoldurada como um quadro de exposição, e assim mostrar a perturbadora figura de dois homens sentados em uma mesa de restaurante, certamente sob a égide do conceito surreal. 
 
Ambos estão trajados à moda dos anos quarenta e causa estranheza o rosto de um deles, fatiado em camadas como a insinuar a metáfora das subpersonalidades descoladas e o outro, com cabeça de elefante (a mencionar o panteão hinduísta talvez, seria Ganesh?), ao deixar derramar um copo de leite, que se espalha pela tela. 
 
Isso tudo, além dos detalhes (cogumelos presentes no copo de um drink, a capa do primeiro álbum do Pepe Bueno, sobre a mesa etc). Conclusão: é estranhamente belo...
A mixagem do disco foi feita por Alberto Sabella, e o próprio, Pepe Bueno, com masterização a cargo de Daniel “Lanchinho”, em São Paulo. Foto por Victor Daguano. Assinam a produção geral, junto a Pepe Bueno: Alberto Sabella e Junior Muelas. 
 
O disco não foi lançado em versão física, através do CD tradicional e Bueno justifica que tal iniciativa nos dias atuais, com o CD em decadência, tal disposição não faz sentido mais. Penso igual, que se registre. O artista não descarta no entanto, que no futuro haja um lançamento na versão em vinil, a se tratar do velho LP. 
 
Como o mercado é volátil (e estratégico enquanto capitalista), quem poderia nos garantir que o CD não tenha um revival mais para frente, também? Registre-se, também. 
 
Por enquanto, a opção é ouvir a versão que o disco tem em plataformas streaming, como o Spotify e Deezer, por exemplo.

Bueno já produziu e lançou um vídeoclip, louquíssimo por sinal, da música “O Estranho”, disponível nos portais, YouTube e Vevo.  Ele promete lançar um para cada canção, nos próximos meses. 
 
Eis abaixo, o clip de "O Estranho" :
Veja também o clip do Making off da gravação do álbum "Eu, o Estranho" :


Para conhecer melhor esse trabalho, procure informações na página de Marcelo “Pepe” Bueno no Facebook:


O disco na íntegra, no Spotify: 


Contato direto com Pepe Bueno:


Eis aí mais um trabalho que eu recomendo, certamente!