sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

The Boat That Rocked (Os Piratas do Rock) - Por Luiz Domingues



Para quem acompanha a história do Rock, se havia um lugar a ser considerado a sua Meca nos anos sessenta, era Londres. E não foi à toa que em 1966, a capital britânica recebeu a alcunha de “Swingin’ London”, como a estigmatizá-la como o lugar mais glamorizado do mundo para traduzir a euforia que a explosão do Rock gerava no planeta.


Mas ironia máxima, o desbunde da contracultura pop na Europa ocorrer numa das sociedades mais tradicionais e arredias a mudanças comportamentais, naturalmente que gerou reações.

Em suma, se a moda era ir à Portobello Road para comprar roupas incríveis, deixar o cabelo crescer e frequentar os inúmeros clubes de Rock que fervilhavam pela cidade, do Marquee ao Ufo Club, por outro lado, a mais tradicional emissora de rádio do Reino Unido e uma das, senão a maior emissora do planeta, a tradicionalíssima BBC (British Broadcasting Company), não parecia entusiasmada com essa euforia do Rock e do pop que vinha em ebulição desde 1963, pelo menos. Nem mesmo comovia-se pelo fato de que os britânicos haviam conquistado a supremacia mundial no Rock. A cada dez artistas mundialmente reconhecidos em todo o planeta, pelo menos sete eram do Reino Unido, portanto, uma predominância absurda. Assim sendo, numa autêntica contradição, a realidade é que a sisuda emissora dedicava cerca de duas horas de sua programação apenas ao Rock e ao pop, frustrando milhões de ouvintes.

Nessa situação, muitas emissoras piratas começaram a surgir, com proposta de tocar Rock 24 horas por dia, mas numa sociedade tão tradicional como a inglesa, claro que as autoridades não gostaram nem um pouco de ver tanto estímulo à sua juventude a entusiasmar-se com aqueles cabeludos todos e aí, esforços foram empreendidos para fechar todas as emissoras clandestinas.

Uma saída criativa para as rádios piratas, foi montar estúdios operando a bordo de navios, ancorados fora do mar territorial britânico, onde juridicamente falando, não podiam ser cerceadas pelo governo de sua majestade e foi que ocorreu com certa profusão (estima-se que no seu auge na década de sessenta, cerca de 300 emissoras clandestinas operavam no dial do Reino Unido).

É sobre isso exatamente que trata o filme “The Boat That Rocked” (também conhecido como "Pirate Radio" e em português, “Os Piratas do Rock”), com a história de uma estação montada dentro de um antigo navio pesqueiro, com uma tripulação formada por um time de Disque Jóqueis muito loucos, com espírito totalmente Rock’n Roll.

São muitos personagens e cada um tem seu destaque ao longo da trama, portanto, oficialmente não existe um personagem protagonista que sobressaia-se nitidamente, embora possa afirmar-se que Carl (interpretado por Tom Sturridge), o adolescente que chega ao barco para passar uns tempos com seu padrinho, o diretor da emissora, Quentin (Bill Nighy), possa ser um catalisador de todos os outros personagens. Ele não é exatamente um Rocker super ativo num primeiro instante, mas ao chegar nesse verdadeiro hospício sobre a água marítima, claro que rapidamente entra na onda, com o perdão do trocadilho, adaptando-se.

Ali, o espírito do Rock, traduzindo-se em liberdade total, faz do barco uma referência para cerca de 25 milhões de britânicos que escutam-na o dia inteiro. Portanto, as ações no navio, mostrando as loucuras perpetradas pelos locutores da emissora, mesclam-se o tempo todo com a reação de ouvintes de diferentes matizes sociais e a devida representação da repercussão que isso causa-lhes em terra firme. E claro, o contraponto da reação, com o personagem do ministro de sua majestade para assuntos de difusão cultural, sendo intimidado pelo primeiro ministro a dar cabo das rádios piratas. O choque entre a Swingin’ London ultra "desbundada" e a alta cúpula ministerial da Rainha geram os inevitáveis clichês inerentes entre “libertários e caretas”, mas mesmo sendo piadas óbvias que o Monty Phyton já havia esgotado nos anos setenta, ainda funcionam e arrancam gargalhadas. O implacável ministro que odeia o Rock é interpretado por Kenneth Branagh, um ator bastante experiente no cinema britânico e que compôs o seu personagem com sobriedade, fazendo com que trejeitos óbvios que o clichê do “choque de gerações” causariam, não ficassem cansativos, mesmo não sendo nada inovadores. Então, o implacável ministro monta uma força tarefa para eliminar as rádios piratas do mapa do Reino Unido, primeiramente usando todas as brechas jurídicas possíveis. Mas ao longo do filme, percebendo que pela via legal não tinha como eliminá-las, começa a cogitar a sabotagem como forma de ação. Bem, guerra é guerra como muitos pensam e na hora que não tem como impor sua vontade pela lisura, nem brecha jurídica, vai na porrada, mesmo...


Uma medida, por exemplo, foi impor sanções pesadas à empresas que investissem na emissora que protagoniza o filme. Mas astutamente, a rádio abre-se para patrocínios internacionais e com os quais as leis britânicas não poderiam interferir.

Tentam abordagem truculenta através da Marinha Real, mas ardilosamente os locutores Rockers surpreendem as autoridades ao despistá-los no mar, saindo do quadrante em que estavam, sem deixar vestígios.

Então, uma fatalidade ocorre numa noite de mar turbulento, com o barco tendo seu eixo avariado e começa a submergir, dessa maneira. Não tem botes salva vidas suficientes (Titanic, de novo ?), e mesmo avisado sobre a situação, o ministro faz menção de que não vai acionar ajuda humanitária da Marinha Real, claramente querendo que todos morram, num momento que confunde o espectador, visto ter ido além da piada de humor negro, mas pegando pesado, mesmo.


Todos vão morrer, é inevitável, com o barco a afundar, mas subitamente a ajuda vem...são milhares de embarcações particulares, de todos os tipos e tamanhos, sendo conduzidas por fãs da emissora que mobilizaram-se para salvar seus ídolos. É clichê, eu sei, mas a cena emociona. Em meio às manifestações de júbilo pela salvação de todos os tripulantes, a metáfora é evidente, mas muito bonita : tentam destruir a força do Rock, mas não conseguem...o personagem Quentin bradando : “Rock’n Roll”, a bordo de uma embarcação de apoio, diz tudo. 

Fim do filme, a mensagem é essa no cômputo final, mas cabe acrescentar algumas observações ainda.

Apesar de haver um clima de libertinagem em muitas cenas, isso não depõe contra exatamente, tampouco denigre a imagem do Rock ou dos Rockers. São mais para serem encaradas como gags de humor, do que algum tipo de ode à baderna.

Nesse aspecto, são muitas cenas com piadas boas, eu admito, mas faço a ressalva de que há um excesso na metragem e aliás, a crítica pegou no pé nesse sentido. Com pouco mais de duas horas de exibição, de fato, poderia ser uma edição mais enxuta. O diretor e o editor devem ter conversado muito a respeito dos eventuais cortes e posso imaginar que acharam essencial manter tantas cenas que consideraram hilárias, mas sinceramente, fecho com os críticos que reclamaram dos excessos. “Menos é mais”, este clichê fica por minha conta. Tanto foi assim, que a edição norteamericana teve mais de 20 minutos suprimidos, não só pelo excesso, mas coibindo piadas consideradas britânicas demais para o paladar dos yankees.

Posso arrolar algumas cenas que achei interessantes :

Em meio à toda liberdade que os locutores tinham para falar o que quisessem ao microfone e eles exageravam mesmo, logo no começo do filme, o diretor da rádio, Quentin, só pede que não falem o palavrão “Fuck” (“Foda”), pois perseguidos pelas autoridades como eram, constantemente, isso poderia dar-lhes brecha jurídica para tirar a emissora do ar. Ora, que diferença essa palavrinha faria em meio às barbaridades com insinuações sexuais que eles falavam o tempo todo ?


Um frase dita pelo ministro em reunião de cúpula, é para pensar-se : -“Esta é a grande vantagem de ser do governo, se não gosta de uma coisa, cria-se uma Lei que a torna ilegal”.


São Rockers malucos mas em alto mar sentem as necessidades de qualquer marujo... uma sexta-feira sim, outra não, um barco cheio de garotas vem a bordo para uma festinha toda especial...no cotidiano, não é permitida a presença de mulheres, para não desviar o foco da rapaziada, a não ser a cozinheira da tripulação, Felicity (interpretada por Katherine Parkinson - na foto acima, segurando um cartaz dizendo "I Love You" ), mas que é lésbica assumida e não quer nada com os rapazes ali. 

Com a chegada do sobrinho de Quentin ao barco, Carl é descoberto como virgem por todos. Esforços são feitos para o rapaz sair dessa situação, rendendo cenas engraçadas, embora sexistas, naturalmente. Quando parece que vai conseguir, ao conhecer a sobrinha de seu padrinho, a bela Marianne (interpretada por Talulah Riley), o tempo de ir buscar um preservativo na cabine de um amigo foi suficiente para a moça pular na cama de outro rapaz...bem...sixties, amor livre...sabe como é... 


O assessor do ministro tem o sugestivo sobrenome de “Twatt”, que no inglês britânico é um termo chulo e causa constrangimento pela rudeza, quando empregado.



Uma promoção com fãs que ganham direito a passar um dia no navio, causa uma balbúrdia e tanto. Numa das confusões geradas, um dos locutores é flagrado com muitas garotas, todos nus numa sala reservada. Na hora do flagrante, a configuração das pessoas no enquadramento, é quase idêntica à capa do LP “Electric Ladyland”, do Jimi Hendrix, numa clara menção em forma de homenagem. Nas fotos acima, compare a cena (1ª foto), com a capa do disco de Jimi Hendrix, na 2ª foto
 

Um dos locutores diz ter apaixonado-se por uma fã que conhecera no dia da promoção e ambos combinam casar-se. Essa seria a única condição para permitir-se a presença de uma mulher no navio, ou seja, como esposa. Tal anúncio é feito no ar e fãs de todo o Reino Unido encantam-se com a novidade, a tornar-se uma comoção total.

A cerimônia é feita a bordo, a moça é lindíssima (Eleonore, interpretada por January Jones), e o locutor está enlouquecido de tão apaixonado, mas na hora da “Noite de Núpcias”, ela anuncia que vai dormir na cabine de outro locutor, (o “flamboyant”, Gavin, interpretado por Rhys Ifans), pois era dele que gostava e tudo fora um plano para poderem ficar juntos, pois este não queria casar-se, mas ela estando casada com outro colega, oficialmente tinha o direito adquirido de ficar a bordo. Nem parece uma piada, mas dramalhão de novela mexicano lendo assim, mas o fato é que essa história paralela é muito engraçada, principalmente pela atuação do personagem do noivo ultrajado, Simon (interpretado por Chris O’Downd). Sua reação facial ante a desfaçatez da noiva inescrupulosa, é hilária. E sua “fossa” é engraçada também, ao ter que trabalhar horas depois e a notícia de seu casamento ter sido desfeito após apenas 17 horas, ter como explicação dada no ar, alegando “incompatibilidades musicais”, uma desculpa recorrente em releases elaborados por assessores de imprensa de gravadoras explicando saídas de componentes de bandas famosas, na vida real. E ele cantando junto com o disco, o Power Blues, “Stay With Me, Baby”, é significativa para o humor da situação, mesmo sendo uma música lindíssima, de fato.


Outra piada boa, ocorre quando o governo dá um "ultimatum" e exige que a rádio saia do ar voluntariamente à meia noite de um dia qualquer. No horário estipulado os locutores fingem consternação em ter que sair do ar por ordens do governo e fazem silêncio no momento em questão. Em sua residência, o ministro está sintonizado na rádio, comemorando com a sua família e o assessor “Twatt”, quando claro que não era a real intenção dos radialistas e num ato de suprema provocação, colocam “Let’s Spend the Night Togheter”, dos Rolling Stones para tocar, e de fato, “Vamos passar a noite juntos” não era o que o ministro queria ouvir...

Bem, daí em diante, o jovem Carl recebe a visita de sua mãe a bordo, Charlotte (interpretada pela experiente atriz, Emma Thompson), e logo descobre que sua ida ao barco tinha a intenção dele conhecer enfim seu pai biológico. Tudo o leva a crer que trata-se de Quentin, o diretor, mas na verdade é Bob (interpretado por Ralph Rowe), um hippie doidão e taciturno, típico fã de Grateful Dead. E também, Carl perde a virgindade com a gatinha ultra sixties, Marianne, que volta ao navio com tal finalidade, arrependida por ter frustrado o garotão numa ocasião anterior.

Sobre a cena do barco afundando, tem vários desdobramentos com piadas boas, eu sei, mas o lado poético também é bonito. Ver a resistência deles em manter a transmissão até os estertores da tragédia e os discos boiando, tornou a cena plasticamente bela. E nesse contexto, Carl e Bob boiando juntos após terem reconhecido-se como pai e filho ao som da linda canção "Father and Son" do Cat Stevens, deixou a cena bastante bonita.

O último a salvar-se foi o locutor conhecido como “O Conde” (“The Count”), único norte americano entre os britânicos da tripulação, interpretado pelo saudoso Phillip Seymour Hoffman (na 1ª foto acima, usando fone de ouvido), um bom ator ainda jovem, que deixou-nos precocemente. Ele e Bill Nighy (interpretando Quentin e retratado na foto acima com óculos vermelhos), fizeram outros filmes com motivação Rocker anteriormente. Phillip interpretou o personagem real, Lester Bangs, famoso crítico de Rock americano, no filme “Almost Famous” de 2001, e Bill, interpretou o vocalista da banda de Rock setentista, Strange Fruit no filme inglês, “Still Crazy”, de 1998. Ambos eram do ramo, portanto, quando compuseram seus personagens para este filme.


O que dizer da trilha sonora ?

Sendo a história de uma rádio pirata britânica atuando em 1966, só posso afirmar que o que se ouve ao longo do filme é esplêndido, sem exceções. Para muitos, fica sempre a impressão de que poderiam incluir “tal e tal” banda que ficou faltando, porque a profusão sessentista do Rock e Pop britânico era absurda. Posso até concordar com isso, mas aí incorreria no erro que cometeram em esticar demasiadamente a película e mesmo que raramente eu concorde com os críticos, desta vez eu tendo a fechar com eles, como já havia dito anteriormente.

Pela música em si, digo que se eu ficar um mês ouvindo British Rock sessentista por 24 horas ao dia, ao término do período, além de querer prorrogação do prazo, estarei com uma listinha elaborada, com um “trilhão” de músicas que senti falta e queria acrescentar. Mas daí a esticar o filme só para dar vazão à essa sanha pela boa música, preenchendo-o com mais piadas, eu não faria de jeito nenhum...portanto, as mais de 40 canções que tocam nessa trilha do filme, são maravilhosas e significativas a retratar a excelência musical da época. Fica a ressalva contudo, de que não toca-se nada dos Beatles, pelo óbvio motivo da dificuldade de liberação dos direitos autorais do repertório dessa banda que era gigantesca para o Rock britânico e quiçá, a maior de todas. A despeito da grandeza dos Rolling Stones; The Who; Cream; The Kinks e tantas outras que foram representadas na trilha do filme.

Tem um pouco de artistas americanos, também, não é uma seleção só para apreço dos “Mods” entusiastas da “Union Jack”.

E não é exclusivamente Rock, embora este gênero predomine. Tem um pouco de Black Music americana também e que aliás, era muito admirada entre o público inglês, tanto que os Beatles não lançaram um disco em 1966 chamado “Rubber Soul”, a toa.


Outro fator e que não incomodou-me inteiramente, mas soa como falha pelo anacronismo, é que muitas músicas pós -1966 constam da trilha. Se o filme é ambientado em 1966, deveria ser mais criterioso nesse aspecto a colocar-se só músicas desse ano para trás na trilha, mas soam algumas peças de anos vindouros, até de 1971, meio longínquo e futurista, portanto...OK, não serei chato e vou considerar que foi licença poética da produção, com o contexto das letras de tais canções sendo convenientes para cada cena em que foram usadas. 



Produção britânica de 2009, fez pouco sucesso comercial no Reino Unido e na Europa em geral. E sendo tão britânico, dificilmente seria um estouro nos Estados Unidos, pelas diferenças culturais óbvias. Aqui no Brasil não ficou muito tempo em cartaz nas salas de cinema. Passou moderadamente em canais de TV a cabo e sinceramente, desconheço que tenha chegado às emissoras abertas. É facilmente achado em versões de DVD / Blue Ray e tem cópia dublada para assisti-se na íntegra, via You Tube.



Em suma, um filme com boas piadas, mesmo sendo um pouco longo; com bons atores do cinema inglês contemporâneo e o bom reforço do americano, Phillip Seymour Duncan; boa direção (Richard Curtis), embora tenha para si o leve pecado de ter esticado o filme em demasia; boa direção de arte & figurinos, retratando com dignidade a maravilhosa fase do Rock inglês em 1966; e uma trilha sonora matadora. 

Todas as versões das canções são originais, com exceção do blues “Stay With Me, Baby”, que tem versão moderna, gravada pela cantora pop, Duffy. Essa canção, além de ser linda e icônica dos sixties, foi regravada inúmeras vezes por grandes cantores. A versão original é de Lorraine Ellison, muito boa, embora com um arranjo um tanto quanto formal. Janis Joplin também cantou-a e tudo na voz da pérola do Texas ficava maravilhoso, mas muita gente elege a versão do cantor Terry Reid como a mais visceral (e é mesmo de arrepiar). Acrescento que Bette Midler, interpretando a cantora fictícia “The Rose”, no filme homônimo de 1980, também brilhou com essa canção. Nesta versão da jovem “Duffy”, tiveram a preocupação em regravá-la com os instrumentos apresentando timbres sessentistas adoráveis, portanto parabéns pela produção musical responsável por isso, e a garota canta bem, mas seu estilo pessoal exagerando em trejeitos ao arrastar as sílabas, e assim produzindo trinados, incomoda muitas pessoas. Já a vi sendo chamada de “Bode”, por sua voz emitir tais ruídos que parecem os que tal animal produz. Particularmente, isso não incomoda-me, acho que a menina canta bem, mas fica registrada tal curiosidade.

Em suma, "The Boat That Rocked" ("Os Piratas do Rock"), tem mais méritos que deméritos, e eu recomendo-o, como bom representante da vertente Rock & Cinema.

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