Recentemente (abril de 2016), o
produtor de TV, Fernando Faro faleceu e tal fato lamentável causou comoção no meio. Figura muito importante, foi o criador de
uma série de programas em diversas emissoras da TV brasileira, desde os anos
sessenta, e ele não foi talentoso apenas como produtor, mas também como um grande redator,
graças a um talento ímpar para escrever.
Falo agora sobre uma de suas criações, e que
a extrapolar as fronteiras de uma
simples atração televisiva, é considerada um marco e para muitos, tem o peso de
uma verdadeira enciclopédia para a Música Popular Brasileira.
Refiro-me ao programa: “Ensaio”, que
desde 1969, retratou a arte de centenas de compositores, cantores e
instrumentistas da MPB, de todas as suas vertentes imagináveis. Digo isso, pelo volume impressionante
de artistas que passaram por tal atração televisiva, mas sobretudo pela
qualidade desse elenco.
Fernando Faro o concebeu para ser um
misto de entrevista e apresentação do artista enfocado, mas com características
muito peculiares. Para início de conversa, a utilizar um
tipo de enquadramento de câmeras muito intimista, ao usar bastante close-up. Com isso,
a sua intenção foi retratar o artista de uma forma muito íntima, a buscar o
máximo de sua expressividade natural, suas nuances faciais e até o suor a lhe
escorrer pelas têmporas durante a sua performance musical. Se fosse o caso de um instrumentista, além disso,
os movimentos das mãos a tocar, também como elemento “verdade” nessa equação, eram muito valorizados.
O uso de pouca luz, a estourar propositadamente os elementos do contraste e a explorar sombreamentos, também fazia do programa, algo muito
particular a explorar a imagem do artista nua e crua, sem artificialismos. Sobre as entrevistas, a ideia foi
manter a mesma postura de enquadramento, ao fazer com que o foco nunca saísse do
artista, mesmo quando este ficava em silêncio, a ouvir a pergunta do seu interlocutor.
Para realçar tal efeito, o
entrevistador (geralmente o próprio Fernando Faro), ficava inteiramente fora de foco, e a sua voz não era ouvida com
clareza pelo público, pois o seu microfone era diminuído na edição de áudio do
programa, de forma proposital, e com isso, a impressão que se passava ao
telespectador era que o artista falava de sua carreira; obra e assuntos
paralelos, de uma forma muito espontânea, como se estivesse a falar sozinho,
pensaro alto, enfim...
Tal característica deu ao programa um
caráter quase didático, daí a importância que ganhou ao longo dos anos, ao
ponto de se tornar uma referência para estudiosos de diversas áreas, ao buscar
em suas edições, informações sobre os artistas retratados, com a força de um
documento muito rico. Sobre o programa em si, ele foi criado
em 1969, e colocado no ar inicialmente na TV Tupi de São Paulo, onde Fernando
Faro estava na ocasião, e lá ficou até 1971.
Todavia, em 1972, Fernando transferiu-se
para a TV Cultura e levou o seu programa para ser exibido ali, porém. ele enfrentou um
problema. Como a TV Tupi havia registrado o nome “Ensaio”, ele foi obrigado a
rebatizá-lo, com o título de “MPB Especial”. E assim foi sendo exibido e
arregimentando muitos fãs, apesar da audiência modesta da TV Cultura em relação
à concorrência das emissoras comerciais e detentoras de orçamentos muitíssimo
maiores. Nessa fase na TV Cultura, o MPB
Especial durou até 1975. Somente quando a TV Tupi decretou
a sua falência, e saiu do ar, em 1980, Fernando pode recuperar o nome “Ensaio”,
novamente mas apenas a partir de 1990, o colocou no ar novamente com seu nome
original, na TV Cultura, para usá-lo doravante, por muitos anos.
Ali, desfilaram nomes de diversas
vertentes da MPB. Muitos desses artistas já partiram para o “lado de lá”, inclusive. Em alguns casos, artistas que não
alcançaram popularidade muito grande, tiveram em suas participações no “Ensaio”, a oportunidade única de ter um
material a registrar um pouco de sua obra em vídeo.
Veja acima a edição do programa Ensaio, com Elis Regina, em 1973
Muitas edições se tornaram icônicas,
caso da participação de Elis Regina em 1973, por exemplo. Mas a lista é gigantesca e entre o
Ensaio e o MPB Especial, que é a mesma atração com outro nome, muitas edições se
tornaram históricas.
Muitas delas estão disponíveis no You
Tube, e enumerá-las todas produziria um arrolamento enorme. Só para citar alguns: Adoniram
Barbosa; Demônios da Garôa; Geraldo Filme; Paulinho da Viola; Clementina de Jesus;
Cartola; Gonzaguinha; Raimundo Fagner; Caetano Veloso; Gilberto Gil etc.
Entre tantas criações geniais do
Fernando Faro, e a maioria delas ligadas à música, creio que o “Ensaio” foi sem
dúvida uma das principais.
O seu legado tem peso enciclopédico para
a MPB. A intenção do título, “Ensaio”, foi retratar o artista de forma despojada,
quase como se fosse um ensaio do artista enfocado, propriamente dito. Porém, eu ouso dizer que ganhou uma conotação
extra, no outro sentido da própria palavra, ou seja, trata-se de um verdadeiro
“ensaio”, no sentido que lhe é atribuído no dicionário como: “atribuição
crítica sobre as propriedades, a qualidade ou a maneira de usar algo; teste,
experimento. Ensaio é um texto literário breve, situado
entre o poético e o didático, expondo ideias, críticas e reflexões éticas e
filosóficas a respeito de certo tema. É menos formal e mais flexível que o tratado”...
Pois é, Faro legou-nos um “ensaio” sobre a MPB, para não dizer que foi um
“tratado”...
Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2016.











