sábado, 3 de novembro de 2012

The Swimmer - Por Luiz Domingues


Em julho de 1964, foi publicado na famosa revista semanal, "The New Yorker", um curioso conto escrito por John Cheever, denominado "The Swimmer" ("O nadador").
Uma historieta introspectiva, e sem muita margem para a criação cinematográfica em princípio, ficou esquecida por alguns anos, até que o diretor Frank Perry resolveu filmá-la em 1968, para espanto de muita gente que não acreditava ser possível roteirizar um argumento aparentemente muito limitado para tal veículo.
Com a ajuda de sua esposa, Eleanor Perry, que assinou o roteiro, iniciou as filmagens de "The Swimmer", com Burt Lancaster atuando como protagonista.

Digo iniciou, pois ao final da produção, quem assinou a direção foi Sidney Pollack, já que Frank Perry brigou com os produtores por posicionamentos criativos divergentes, durante as filmagens.
A história gira em torno de um homem de meia-idade, chamado Ned Merrill (Burt Lancaster), um publicitário aparentemente bem sucedido, com família estruturada e típico representante do "american-way-of-life".

Aparentemente bem comportado, pois a ação inicia-se com ele trajando roupa de banho, e distante cerca de oito milhas de sua residência.
Essa estranheza já dá margem às primeiras interpretações metafóricas, visto não haver explicação plausível para a cena, a não ser o justificável calor do verão em Connecticut.

Então, o imponderável acontece, trazendo a dinâmica que permearia toda a ação, com Ned (Burt Lancaster), resolvendo voltar para a sua casa, dando mergulhos em todas as piscinas das casas de amigos que estivessem pelo caminho.
Na primeira casa que visita, é recebido pelo casal Westerhazy. 

Em conversa animada, fala sem rodeios que fora apaixonado por Helen Westerhazy (Diana Van Der Vlis), na juventude, mas nem ela, nem o marido, Donald Westerhazy (Tony Bickley), parecem se abalar com tal revelação fora de propósito. E continuando a agir com naturalidade, perguntam sobre a esposa e as filhas de Ned, e ao final da visita, indicam outras piscinas de vizinhos amigos, para que ele prossiga na sua empreitada aquática.
Mas algo enigmático acontece, pois Ned sai da piscina e sem se despedir, vai embora buscando a próxima piscina do caminho.
Na casa dos Graham, é igualmente bem recebido, por ser amigo do casal desde a adolescência. Encontra com Betty Graham (Kim Hunter - que nesse mesmo ano de 1968, protagonizaria "The Planet of the Apes", como a chimpanzé, Dra. Zira), na piscina e logo Howard Graham (Charles Drake) aparece para se unir aos dois.

Mais estranheza causa, quando os Howard atendem a campainha (com a chegada dos Westerhazy), pois Ned Merrill sai do mergulho e mais uma vez parte sem despedidas.
Nesse ponto, já ficou claro três pontos de ordem psicanalítica : 

1) A necessidade de Ned realizar os mergulhos tem o propósito de revisitar e ajustar contas com seu passado; 

2) A água é claramente o elemento da limpeza que Ned busca internamente e; 

3) Ele sai das casas de forma abrupta por querer romper com quaisquer amarras com o seu passado.
A próxima piscina lhe causa um dissabor. 

Enquanto dava as braçadas na enorme piscina da mansão da família Hammar, Ned é duramente advertido pela Sra. Hammar (Cornelia Otis Skinner), uma idosa muito mal humorada. Ao indagar que era amigo de seu filho, ela retruca com veemência, lhe dizendo que não fora amigo o suficiente para visitá-lo no hospital. Uma acusação forte, que deixa Ned sem contra-argumentação.
Mas nem assim Ned parece ter desanimado em sua determinação e ainda com a tentativa de imputar remorso da Sra. Hammar repercutindo em seus tímpanos molhados pelo cloro das piscinas, chega à outra casa e encontra Julie Ann Hooper (Janet Landgard), ex-babá de suas filhas, agora adultas, e na faixa dos vinte anos de idade.
Em sua companhia, entram na casa da família Bunker. Também fortuitamente, a ex-babá confessa que fora apaixonada por ele, no período em que cuidou de suas filhas. É óbvia a intenção confessional, mas não provoca a catarse, ficando tudo apenas no campo das revelações efêmeras que não causam transformações profundas, são apenas fleumaticamente serenas, como a água das piscinas residenciais.

Enid Bunker (Marilyn Langner) recebe os dois e ao contrário das outras casas, a dos Bunker tem convidados naquele instante, e muitos são conhecidos de Ned Merrill.
Interessante observar outro elemento metafórico ao notar que essas pessoas falam e perguntam sobre a esposa e filhas de Ned, que de fato não aparecem nunca. Seriam arquétipos da personalidade de Ned Merrill ?

Ned e Julie partem para uma nova piscina, mas no caminho se desentendem, e Julie o deixa prosseguir sozinho. É clara a menção ao caráter fugaz das relações sociais.

Pessoas entram e saem de nossas vidas o tempo todo.
Ned chega então à residência dos Hallorans. Aqui, o que causa estranheza é o fato do casal ser adepto do nudismo, mas nenhum constrangimento maior é detectado, a não ser o fato do casal o tratar friamente, por conta de dívidas não saldadas por Ned. E a nudez significaria o que exatamente neste caso ? O despojamento moral num duplo sentido ? A vergonha seria não pela exposição dos corpos, mas pela falta de caráter ?
Na casa dos Gilmartins, ele encontra apenas o filho do casal, o garoto Kevin Gilmartin Jr. (Michael Kearney). Seus pais se divorciaram e a mãe acabara de viajar em Lua de Mel com o novo marido. A piscina está vazia, por motivo de segurança.
Piscina vazia ? Divórcio e padrasto à vista para o garoto ? Não seriam meras manifestações alegóricas do passado de Ned a atormentá-lo ?

Mas ele não se abate e num jogo lúdico, simula movimentos de nado com a companhia do garoto. O que vale é a ação, com ou sem água.
A próxima piscina é a de um espaço recreativo de um clube. Após o mergulho habitual, Ned envolve-se numa bizarra confusão, brigando com o dono de um carrinho de cachorro-quente. Sua alegação era a de que o carrinho lhe pertencia e de fato, ele fora seu dono no passado, mas por razões desconhecidas, o carrinho lhe fora confiscado e arrematado em leilão pelo novo e legítimo dono. Sem dúvida, mais um resgate do passado.
Expulso do local e com as pessoas tendo uma péssima impressão a seu respeito, Ned vai à casa de Shirley Abbott (Janice Rule). Ela houvera sido sua amante anos atrás e nesse momento, descarrega toda a sua frustração, acusando-lhe de não ter tido coragem de assumir a relação, por ter medo da esposa.

Diálogos ríspidos são travados dentro d'água, e Ned quase a seduz novamente, numa das melhores cenas do filme, onde a água deixou dois sentimentos distintos sob seu balanço : Amor e ódio.
Venceu o ódio, com Shirley o expulsando sumariamente, enquanto destilava seu veneno vingativo em forma de bravatas sexuais com outros homens, que alegava ter tido.
Cabisbaixo, a última piscina que encontra é a de um espaço público. Ali, é ainda mais hostilizado por várias pessoas. São pequenos comerciantes que lhe cobram dívidas de pequena monta, transparecendo que sua situação financeira é muito pior do que se imaginava.

O homem de porte atlético e supostamente um publicitário bem sucedido, era na verdade um homem derrotado, em péssima situação financeira e atormentado pelos fantasmas do passado.
Começa uma chuva e assim, a última oportunidade de expiação pela água o leva ao esgotamento físico.

A cena final mostra-o chegando à porta de sua casa, colocando-se quase em posição fetal e sendo banhado pela água da chuva.

Um final emblemático para um filme cheio de metáforas psicanalíticas.
No Brasil, o filme recebeu o nome fantasia de "O Enigma de uma Vida", mais uma vez fugindo completamente da proposta original.

O mais correto teria sido batizá-lo pela tradução literal, ou seja, "O Nadador".
Apesar de ter admiradores, não fez sucesso comercial algum na época de seu lançamento, e só é lembrado por cinéfilos mais antenados e colecionadores, nos dias atuais.

Causou um certo barulho no entanto nos anos setenta, aqui no Brasil, por ser reprisado inúmeras vezes nas sessões das madrugadas das TV's brasileiras. Eu me incluo no rol das pessoas que o assistiram várias vezes nessa época, onde me tornei fã.
Burt Lancaster foi o ator perfeito para interpretar Ned Merrill, por ter o porte atlético, e a idade ideal do personagem.

A ideia de começar o filme com autoconfiança total e encerrar aos frangalhos, certamente reforça toda a trajetória introspectiva do personagem.
No geral, existe uma certa melancolia, reforçada pela fotografia pastel, e pela trilha sonora.

Mas ao mesmo tempo, enxergo beleza nessa trajetória aquática de Ned Merrill, um homem que buscou na água, o acerto de contas com seu passado.
Há muitos anos que não o vejo na grade da TV, mesmo dos canais a cabo especialistas em filmes vintage.

Se você souber de uma exibição por aí, assista, pois vale a pena.

8 comentários:

  1. Ainda não assisti, me parece interessante... e tendo o seu aval deve ser bom mesmo. ótimo texto Luiz, abraço! :-)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Kim, recomendo que assista, pois tenho certeza de que irá curtir.


      É um filme introspectivo, cheio de metáforas interessantes.

      Obrigado por ler, comentar e elogiar !!

      Excluir
  2. Luiz você é um ótimo contador de filmes, porque não me contou logo que a nossa ídala tava no filme??? Dra Zira eu nem lembrava....Mas a melhor parte que vc contou foi quando Ned chega ao casal adepto do nudismo e a vergonha não seria o nudismo mas a falta de caráter... é um tóin atrás do outro!!! Só não gostei da parte que as pessoas entram e saem das nossas vidas o tempo todo (mas é a verdade absoluta, nada é para sempre). Apesar de ter ficado mega agoniada assistindo esse filme deu vontade de assistir de novo porque verei com outros olhos. Afinal eu sou uma das notívagas que assisti na madrugada e também gostei da atuação do Burt Lancaster no 1900 do Bertolucci. Fora que ele foi um ator do tempo da minha mãe e foi com ela que aprendi ver filmes clássicos e PB. Como diz o nosso amigo William Kusdra vc está insuportavelmente DEZ!!!!

    ResponderExcluir
  3. Sil:

    Que legal ouvir um baita elogio desses. Fico muito feliz por saber que curtiu a matéria e com isso lhe trouxe novo interesse pelo filme.

    Sim, não poderia deixar de observar a presença da nossa Kim Hunter, eterna Dra. Zira. Não é um papel de grande destaque em The Swimmer, mas fiquei feliz quando achei na internet uma foto mostrando-a numa foto dupla, como ela mesma e caracterizada como a Zira.

    Sim, curto muito a metáfora do Ned chegando na mansão do casal adepto do nudismo. Aquilo é sensacional, por desmascarar a hiprocrisia da sociedade burguesa.

    Adorei a sua percepção de ser um "tóin" atrás do outro. Acho que é a proposta do conto original e consequentemente do filme.

    De fato, pessoas entram e saem de nossas vidas, gostemos ou não. Eis outra metáfora.

    Sim, gosto dos filmes europeus do Lancaster também. Il Gatopardo e 1900 são sensacionais.

    E como sua mãe, sou fã incondicional do cinema das décadas de 10 a 70. Os PB dos anos 30, 40 e 50, são maravilhosos.

    Sabe como me apaixonei por cinema ? Vendo filmes PB dessas décadas, na TV, nos anos sessenta. Eu tinha cinco anos de idade em 1965, mas já amava os filmes do Frank Capra e do John Ford, entre outros, mesmo sem ter a menor consciência disso...

    Obrigado pelo elogio final. Fiquei até emocionado !

    Beijo !

    ResponderExcluir
  4. Puxa quem ficou emocionada com essa big resposta fui eu e to prestando muito mais atenção nas décadas de 60 e 70 graças a vc e é muito bom isso!!! Beijo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que legal, Sil !

      Em termos de cinema, adoro as décadas anteriores, mas no cômputo geral, a "minha praia" é sessenta/setenta, pela música e estética filosófica contracultural.

      Beijo e obrigado !!

      Excluir
  5. E agora Luiz, como vou ver o filme? Você contou tudo... rsrs Bricadeirinha, eu já o vi e achei bem interessante. Ele mexe bem com nossas emoções. Rompe campos internos de modo peculiar. Bj

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ha ha ha !!

      Eu sei que cometo spoiller quando faço resenhas de filmes, mas brincadeiras à parte, faço de propósito, pois o foco da minha análise não é a surpresa do ineditismo.

      Pelo contrário, gosto de lançar olhares diferentes, múltiplos se possível, que despertem o interesse do leitor pelo filme, mesmo já o tendo visto anteriormente.

      Nesse caso, peço desculpas a quem não viu, mas realmente não foco na surpresa.

      No caso de The Swimmer, o importante é justamente o que você observou no seu comentário, ou seja, o romper com campos internos de modo peculiar. Aliás, adorei sua frase.

      Beijo, Lourdes !

      Excluir