sábado, 24 de novembro de 2012

Colossus, The Forbin Project - Por Luiz Domingues


A imaginação de escritores como Julio Verne e H.G. Wells, que escreviam em tempos remotos projetando o futuro, era inacreditavelmente avançada para a época em que conceberam suas histórias fantásticas.

Já no século XX, outros tantos autores e produtores de cinema, deram asas à imaginação, criando exercícios de futurismo que muitas vezes transformaram-se em realidade, anos depois.

Até nos desenhos animados e nas séries de TV, esse exercício de prever inovações tecnológicas incríveis, tornou-se parte do imaginário das pessoas.
E nesse contexto, a ideia do computador, era tida como algo muito assustadora e distante das pessoas, antes do final da década de setenta, quando os primeiros e rudimentares modelos de computadores destinados ao uso caseiro, pelo cidadão comum, começaram a chegar timidamente no mercado.

Antes disso, o computador era algo idealizado como uma máquina gigantesca, só cabível em experimentos nas universidades, Nasa e demais agências espaciais ou de uso secreto de forças militares.

No imaginário popular, o computador era algo assustador, só acessado por super técnicos, cientistas e com funções destinadas à incompreensíveis equações da matemática e da física.
E também eram assustadores, pois ninguém sabia ao certo o grau de periculosidade desses monstruosos equipamentos, e graças à paranoia da guerra fria e alimentado pela literatura e cinema Sci-Fi, e também nas tramas de espionagem, ficamos todos com medo da palavra "computador", pensando em máquinas super inteligentes que dominariam o homem, como o "Hal-9000" que assolou no clássico de Stanley Kubrick, "2001".
Outros exemplos de filmes com esse tipo de motivação e também em séries de TV, já haviam nos metido medo dos monstrengos que eram enormes e ocupavam galpões cheios de cientistas e militares nos filmes.
E foi nesse contexto que em 1970, foi lançado "Colossus, The Forbin Project", que no Brasil recebeu o nome de "Colossus 1980" (inventaram "1980", para dar ideia de "futuro").

Sob direção de Joseph Sargent, a história gira em torno de um super computador criado pelo cientista, Dr. Forbin (interpretado por Eric Bareden), que o idealizou visando centralizar todos os comandos estratégicos do governo norte-americano.
A ideia básica era que com um cérebro eletrônico super inteligente e não humano, o controle das armas nucleares ficasse isento de emoções humanas, dando mais segurança à todos, pois há anos a guerra fria alimentou a ideia de que a qualquer momento, o presidente americano ou o soviético, poderia apertar o botão vermelho da aniquilação total.

Colossus é o grande computador norte-americano. Instalado numa montanha no Colorado, está rodeado de cientistas, técnicos e militares.
O presidente norte-americano faz contato permanente e mostra-se preocupado com a ideia do super computador assumir as funções estratégicas de defesa.
Interpretado pelo ator Gordon Pinsent, esse fictício presidente é quase um sósia do ex-presidente John F. Kennedy, uma interessante alegoria usada pelo diretor do filme para evocar a crise dos mísseis em Cuba, no ano de 1962.

Tudo parecia ir bem, mas subitamente, Colossus estabelece comunicação com o computador soviético, que tem o mesmo poderio e importância estratégica. Passa então a fazer cálculos matemáticos aleatórios e os técnicos ficam perplexos por essa reação espontânea da máquina.
O presidente fica atônito e pressiona o Dr. Forbin, cobrando-lhe uma explicação.

O super computador soviético chama-se "Guardian" e o único consolo para os americanos é que o presidente e os cientistas soviéticos também estão apavorados com essa reação dos dois computadores.

Num esforço conjunto, os dois presidentes conversam por vídeo conferência (mais futurismo para a época...), e combinam desligar cada respectivo computador, para efeito de segurança.
Leonid Rostoff interpretou o presidente soviético.

Mas Colossus parece estar tomando conta da situação e antes que os técnicos tomem uma providência, ele envia um míssil que destrói um enorme poço petrolífero soviético, em Sayon Siberski.
O computador soviético revida automaticamente e envia um míssel que destrói a cidade de Henderson, no Texas.

Os dois presidentes ficam arrasados e mesmo sabedores que nenhum dos dois tem culpa, lamentam a destruição e perda de vidas humanas.
Dr. Forbin viaja emergencialmente à Roma para buscar uma solução com outros cientistas europeus, mas Colossus sabe exatamente o que ele quer fazer e exige a sua presença imediatamente de volta ao Colorado, ameaçando enviar outros mísseis e arrasar outras cidades.

Sem escolha, Forbin retorna imediatamente e Colossus comunica que uniu-se ao Guardian, e agora eles dominam o mundo completamente.
Colossus controla Forbin e todos os funcionários do complexo, vigiando-os diuturnamente.

Para ironizar, Forbin em uma cena debochada, circula nu pelas dependências do complexo, usando apenas um relógio de punho.

Em conversas reservadas, Colossus revela que tomou o controle unindo-se ao Guardian, porque os humanos são inconstantes, volúveis e portanto sujeitos à decisões tresloucadas, motivadas por emoções mesquinhas (caramba ! Falou alguma mentira ??).
Dessa forma, tomou essa decisão com Guardian, para preservar o planeta da destruição iminente, se dependesse do controle dos humanos.

Claro, os humanos estão apavorados e conspiram contra Colossus. Mas a tecnologia fez da criatura, uma entidade mais poderosa que o criador, e dessa maneira, o super computador instaura o poder pelo terror.
Tentativas de sabotagens são punidas com a morte, sumariamente.

Finalmente os humanos percebem que não há escapatória, a não ser obedecer o grande ditador eletrônico.
Um momento de descontração no filme ocorre quando o Dr. Forbin inventa um ardil para poder falar com a cientista Cleo (Susan Clark).
Diz à Colossus que tem sentimentos em relação à Dra. e pede permissão para realizar um jantar romântico com ela...

Claro, Colossus observa tudo pelas câmeras e de nada adiantam as tentativas de comunicação por sussurros disfarçadas de chamegos do casal enquanto dançam, o que chega a ser ridículo no filme.
Pior ainda, quando já nus na cama, pedem a Colossus que desligue as câmeras e apague a luz, pois humanos fazem sexo e sentem-se constrangidos em serem vistos...(bem, aí o exercício de futurologia falhou feio, pois não imaginaram que existiria a Webcam !!).

Mas nada que combinam dá certo e a verdade é uma só : Colossus e Guardian são os supremos comandantes do planeta Terra e estabelecendo normas de conduta aos humanos, através de um comunicado transmitido ao vivo pela TV para toda a humanidade, iniciam a ditadura dos computadores.

A cena final carrega na emoção, mas é melancólica como expressão do fracasso da humanidade.
Colossus trava duro diálogo com Forbin, e lhe diz de forma surpreendente : "Com o tempo, você vai me considerar não só com respeito e admiração, mas com amor"...

O close no rosto fechado de Forbin, vai aproximando-o num zoom, e ele diz com os dentes cerrados : "Nunca"...

A crítica não levou o filme a sério à época. No New York Times, disseram que o filme serviu para mostrar que no fundo, se um míssil atingisse um alvo, serviria apenas para o presidente exclamar : -"Que droga, você estragou o meu domingo no Golf "...
E claro, acharam-no inferior ao "Dr. Strangelove" ("Doutor Fantastico"em português), de Stanley Kubrick, o que sou obrigado a concordar, obviamente.

Para o público, o filme não causou grande comoção também. Numa época onde o gênero Sci-Fi estava em alta novamente, com lançamentos próximos como "2001" e "Planet of the Apes", para ficar só em dois exemplos, realmente "Colossus, The Forbin Project", ficou aquém.
Mas de forma alguma é um filme ruim. Ele te prende a atenção, o que é um mérito, visto que a ação tenderia a ser monótona, com o protagonista sendo uma máquina sem forma definida e identificada como uma voz robótica e monocórdica.

As metáforas são interessantes em relação ao poderio bélico das super nações da época da guerra fria, e a sensação de impotência diante de um domínio total.

Em termos tecnológicos, o futurismo imaginado por Joseph Sargent soa ingênuo com apenas 42 anos passados, em vista do que temos hoje em dia sendo operado por crianças de 3 anos de idade, mas também fica o filtro histórico, como ressalva a não desabonar a obra.
O filme foi baseado num livro chamado "Colossus", de Dennis Felthan Jones, escrito em 1966. O romance de Felthan Jones teve duas sequências, mas desconheço que tenham sido adaptadas para o cinema.

Rumores dão conta de que o diretor Ron Howard planeja um remake, com a participação do ator Will Smith, que estaria envolvido na produção. Smith é conhecido por gostar de Sci-Fi, e certamente deve ser fã do original de 1970.
"Colossus, The Forbin Project" recebeu o nome "Colossus - 1980" no Brasil, para fazer uma alusão ao fato de que seria futurista e sua ação desenvolvida dez anos depois do que vivia-se em 1970, mas quem o vê hoje em dia, não precisa nem de 30 segundos para ter a certeza de que era 1970, mesmo.
Gosto da trilha incidental (assinada pelo compositor e produtor musical, Michel Colombier), com ruídos de sonoplastia típicos do final dos anos sessenta, muito usados em séries de TV daquela época.
São sonoridades dos primórdios dos sintetizadores e que bandas de Rock que usavam elementos experimentais, utilizavam bastante, como o Pink Floyd da fase imediatamente após a saída de Syd Barrett (ponto da carreira do Pink Floyd, onde os críticos destacam que a psicodelia que praticavam anteriormente, estaria mudando para o estilo "Space Rock", numa alusão às sonoridades espaciais de filmes de Sci-Fi), além de Soft Machine; Tangerine Dream, e outras.

Charlton Heston era o ator que os produtores desejavam, mas com a carreira em alta, o cachet era inviável para o orçamento modesto que dispunham, daí terem fechado com Eric Bareden para interpretar o Dr. Forbin.
"Colossus, The Forbin Project", era um filme bastante exibido na grade da TV aberta brasileira nos anos setenta. Tempo bom onde as sessões de cinema eram fartas na grade da TV, que hoje em dia destina pouco tempo para o cinema. Nos anos noventa, teve exibições em canais de TV a cabo, de onde tirei a minha cópia, para a minha coleção.

Faz tempo que não sei de uma exibição por aí. Portanto, quem leu e se interessou, esteja convidado a procurar na Internet ou locadoras.
Finalizando, apesar da guerra fria não ser mais a paranoia a nos atormentar, recomendo o filme como diversão e reflexão sobre o tempo onde a humanidade tinha pesadelos com dois homens que poderiam apertar um botão vermelho e daí, eu jamais teria escrito esta matéria, e você nunca a teria lido...Boom !!!

6 comentários:

  1. Pra variar dá vontade de sair e procurar uma locadora as 4 da madrugada pra ver o filme já!!! Mas me fez lembrar de uma música do Arrigo Barnabé que a Cassia Eller também gravou e que se chama "O Dedo de Deus


    Será que quem criou o céu
    É quem vai destruir a terra?
    Será que quem criou a luz (da sombra)
    É quem vai destruir a terra? (com a bomba)

    Porque pra bomba explodir
    Será que é homem?
    Será que é mulher?
    Será que aperta a hora que quiser?

    Como será o dedo da mão de quem vai apertar o botão?
    Como será o dedo da mão de quem vai apertar o botão?
    Será que ele faz a unha pro dedo ficar bonito?
    Antes de apertar o botão?
    Antes de afundar o Japão?

    E a gente vivia isso mesmo na guerra fria apostando em quem apertaria o botão primeiro, os americanos ou soviéticos????

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    1. Sil:

      Fico muito contente que tenha curtido a matéria, despertando-lhe a vontade de assistir o filme.

      O que realmente é mais interessante nesse filme, visto hoje em dia, é a perspectiva terrível da impotência do homum comum no período da guerra fria.

      A ideia de a qualquer momento um mandatário desses, apertar o famigerado botão vermelho, era de embrulhar o estômago.

      Gostei da letra da música. Nem sabia que existia, nunca ouvi. Mas gostei de seu teor, que exprime bem esse medo que tínhamos.

      Assista o filme, pois vai gostar !

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  2. Oi, Luiz
    Adorei a matéria.
    Lembro do filme, mas nunca o assisti. E dá vontade mesmo de assisti-lo. Ainda mais que sou amante da tecnologia.
    Eu já me divertia com a tecnologia rudimentar do seriado Perdidos no Espaço que foi feito anos antes, e que tinha um robô humanóide! E também com Jornada nas Estrelas, em que dizem que houve a ideia precursora do celular. Só faltam inventar o teletransporte.
    E vou atrás do filme!

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  3. Oi, Janete !

    Que legal saber que gostou da matéria.

    Pois é, o rítmo dos avanços da tecnologia acelerou tanto nos últimos anos, que é inevitável que os exercícios de futurologia caiam no ridículo quase instanteamente.

    Também adoro essa perspectiva Sci-Fi de séries sessentistas como Lost in Space, Star Trek e outras.

    E não descarto a possibilidade de inventarem o teletransporte e o túnel do tempo, logo mais...

    Quanto ao filme "Colossus, The Forbin Project", creio que vale muito a pena assisti-lo. É o retrato de uma época movida à paranoia da guerra fria.

    Obrigado por ler e comentar !!

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  4. É LU, o pessoal daquela época não acertou tudo, mas sabiam das coisas.
    Eu lembro de ter visto este filme. Não vivemos mais a paranoia do botão vermelho, mas temos muitas outras para substituí-lo "à larga".
    E quanto ao ..."porque os humanos são inconstantes, volúveis e portanto sujeitos à decisões tresloucadas, motivadas por emoções mesquinhas (caramba ! Falou alguma mentira ??)..." Uau, na mosca! Um super beijo pra ti.

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  5. Fala, Lourdes !

    Naturalmente o exercício de futurologia dos produtores do filme falhou em alguns aspectos. Mas como disse na matéria, isso não é culpa deles, pois era a imaginação doi homem comum de 1970 e a tecnologia avançou numa velocidade estonteante, tornando obsoletas, coisas que naquela época pareciam distantes.

    Verdade, a paranoia da guerra fria encerrou-se, mas outras nos assolam desde então...

    Que legal que gostou da minha constatação final. Realmente, o ser humano é muito contraditório.

    Obrigado por ler e comentar !!

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