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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Hammer, Fábrica de Pesadelos... Bons - Por Luiz Domingues



O gênero do terror tem a sua parcela de importância muito grande na história do cinema mundial. Salta-nos da lembrança imediatamente, os grandes clássicos da escola expressionista alemã, notadamente concentrados em sua maioria, nos anos vinte do século passado; o horror Pop dos estúdios Universal, dos Estados Unidos, nos anos trinta; as intrigantes fantasias oníricas da escola francesa quarentista e tantas outras escolas surgidas posteriormente, onde claro, podemos incluir com louvor o brasileiro, José Mojica Marins, o nosso folclórico “Zé do Caixão”, como um criador do terror tupiniquim.
Nesse contexto formado por tantas vertentes cinematográficas e e também pelas suas respectivas estéticas diferentes dentro do gênero, não há como não ressaltar a produtora britânica, Hammer, que entrou para a história como um dos seus grandes expoentes e a tornar-se uma tremenda referência para definir a marca britânica, dentro desse estilo. Porém, apesar de fortemente identificada com o Terror, a produtora Hammer não lançou somente filmes dessa natureza, mas pelo contrário, sobre diversos outros gêneros, tais como :  filmes policiais; dramas; filmes com teor infantojuvenil; filmes de guerra; aventuras; filmes épicos; com teor histórico, e até comédias em seu currículo.
Aliás, o terror só emplacou para valer na vida da Hammer, bem depois de sua fundação, certamente um fato inusitado, se levarmos em conta o fato de que para muita gente, tratou-se de um estúdio de cinema exclusivamente pautado pelo gênero. A sua fundação deu-se nos anos trinta do século passado, em novembro de 1934.
A primeira produção, por exemplo, foi uma comédia romântica, “The Public Life of Henry IX”, lançada em 1935. Quando foi estabelecida uma associação com a MGM americana, a Hammer produziu a seguir, algumas coproduções interessantes, ao usar até a estrutura da Metro Goldwin Mayer, assim como os seus profissionais e atores norteamericanos, caso do filme : “The Song of Freedom”, com o genial ator / cantor, Paul Robeson (aliás, existe uma matéria aqui em meu Blog, a falar sobre essa personalidade incrível que foi Paul Robeson, esteja convidado portanto, a procurar tal texto nas postagens mais antigas).
Com o avançar dos anos trinta, e a crise financeira e política a piorar na Europa, a Hammer quase chegou a falir, ainda em 1937, no entanto reergueu-se, graças a uma estratégia forçada, porém pontual, quando investiu as suas forças nos documentários sobre a Segunda Guerra Mundial, então em curso, e assim atrair a atenção dos britânicos, aflitos com o conflito que ameaçava-lhes diretamente. Depois do fim da Guerra e com a sua saúde financeira restabelecida, a Hammer teve novos quadros diretivos e iniciou a sua trajetória sob ascensão, paulatina, mas sustentável. Nessa época, final dos anos quarenta, e início dos cinquenta, o seu patrimônio pôs-se a aumentar e isso refletiu-se nas constantes mudanças de endereço de seus estúdios, que fizeram, ao buscar melhores condições de trabalho, com espaços mais confortáveis e equipados para as filmagens. Nem sempre foi apenas esse o motivo das mudanças, mas havia também problemas com a vizinhança. Ao adaptar mansões alugadas, o barulho das filmagens noturnas que varavam madrugadas, causou problemas, naturalmente...


Nessa fase, a Hammer estava a produzir bastante filmes sob teor policial, a denotar uma influência do cinema norteamericano da escola "Noir", e também do francês, da mesma época. Aos poucos, os filmes Sci-Fi, e os de terror, começou a tomar conta da produção da empresa e nesse ponto, por volta da metade dos anos cinquenta, começou a sua fase de ouro, a catapultá-la mundialmente, e então, a escrever assim, páginas fantásticas na história do cinema inglês e mundial.
Para muitos críticos e historiadores, o primeiro estopim dessa fase de sucesso, teria sido o filme : “The Quatermass Experiment”, lançado em 1955. Um híbrido entre o terror e o Sci-Fi, tal película conta a história de um estranho vírus que causaria mutações terríveis nos seres humanos, portanto a evocar o clima apocalíptico.
A seguir, outro grande sucesso adveio, “X, The Unknown”, este inclusive, considerado pelo escritor norteamericano, Stephen King, como um de seus filmes favoritos de todos os tempos. E um sucesso colocou-se a suceder o outro, mais a atrelar-se para o estilo Sci-Fi, nesses primeiros dias de glória da Hammer, caso de “Enemy From Space”.
Todavia, o grande salto da produtora foi o sucesso extraordinário que a sua aposta no terror propriamente dito, fez, ao buscar principalmente enfocar em personagens consagrados da literatura do horror, e já explorados anteriormente em outra época, por outras produtoras, principalmente a Universal, norteamericana. Ao focar em personagens como : "Frankenstein"; "Lobisomem"; "Múmia", e sobretudo no "Conde Drácula", a Hammer criou o seu melhor momento, ao ganhar dinheiro e escrever o seu nome na história, além, é claro, em usufruir do domínio público que os respectivos textos originais de tais personagens, que já estavam em vigor.
Ao apostar em um elenco formado por atores fixos e em número pequeno, teve também nessa repetição, um trunfo, ao contrário do que poder-se-ia especular como um possível demérito. Portanto, a despeito de Bela Lugosi ter sido o maior intérprete do Conde Drácula nos anos trinta, e também uma figura divertida pela sua canastrice indisfarçável como ator, não dá para pensar em outro Drácula mais clássico como o interpretado por Christopher Lee, nas inúmeras vezes em que interpretou o vampiro aristocrata da Transilvânia, nos filmes da Hammer, quase sempre dirigidos por Terence Fisher.
Não cometerei a loucura em manter o mesmo raciocínio sobre o personagem do monstro de Frankenstein, porque Boris Karloff é praticamente insubstituível nessa interpretação, e Lon Chaney Jr, idem, como Lobisomem, mas no caso do Conde Drácula, Lee é sensacional.
Um outro ator que ficou muito identificado com a Hammer, foi Peter Cushing, que muitas vezes interpretou o inimigo mor de Drácula, o professor Van Helsing.
Ambos trabalharam muitas vezes juntos, ao fazer a dupla protagonista e rival, inclusive em outras histórias sem a presença dos personagens Drácula e Van Helsing, e também em raras oportunidades, como aliados na história, como no caso de “Skull”, uma absurda história sobre o poder psíquico que o crânio do Marquês de Sade exerceria sobre o incauto que tivesse contato com ele (aliás, uma curiosa participação da dupla para uma concorrente da própria Hammer, a também britânica, “Amicus”) .
No caso dos filmes sobre o Conde Drácula, algumas licenças poéticas foram tomadas, para fugir um pouco do texto original e primordial de Bram Stoker. Isso também ocorrera em outras produções, caso dos filmes que focaram em Frankenstein; Múmia e Lobisomem, principalmente.
Claro, por ser europeia, a Hammer usou do manancial de histórias de terror; crendices e folclore do continente, e particularmente do Reino Unido, para incrementar as suas histórias. Não foram poucas as citações góticas, ou do paganismo pré-cristão, a enriquecer os filmes com tais detalhes a ser observados pelos espectadores mais atentos.
A loucura também permeou os filmes da Hammer, em doses maciças. Cientistas malucos a estabelecer experimentos nada éticos, e também casos a abordar a paranormalidade, foram retratados, além, é claro, de citações à seitas macabras; complôs comprometidos com tudo isso e muito mais etc.
Assim como houve uma “British Invasion” no mundo do Rock, nos anos sessenta, com os britânicos a invadir a América, de uma forma avassaladora, e igualmente uma “American Reaction”dos norteamericanos a reagir, com o sucesso de bilheteria da Hammer, houve também uma reação do cinema norteamericano ao sucesso dos britânicos. Então, quando vemos os filmes do grande diretor, Roger Corman, ao final dos anos cinquenta e início dos sessenta, isso faz sentido por vermos toda aquela ambientação gótica, com fotografia de cores fortes e histórias que geralmente eram ambientadas na Idade Média, ao tentar conferir ares europeus, com o genial, Vincent Price a atuar como ator fixo, praticamente, de todas as suas películas.
Já nos anos sessenta, a Hammer tornara-se tão Pop quanto a Swingin’ London e a sua psicodelia lisérgica (que derretia o Big Ben, diariamente). Christopher Lee e Peter Cushing foram atores que extrapolaram as fronteiras da Inglaterra, e tornaram-se emblemáticos no mundo inteiro, tanto quando Sean Connery e o seu James Bond-007, aliás, outro fenômeno do cinema britânico.
Os grandes filmes do Conde Drácula, com Lee a interpretá-lo como : “Dracula, Prince of Darkness”e “Horror of Dracula”, entre outros, são clássicos da companhia. Ao final da década, a Hammer atuou também com TV movies, produções mais baratas feitas especialmente para a TV.
A série, “Journey to Unknown”, apresentava histórias de terror; Sci-Fi e mistério em geral, ao lembrar de certa forma a série norteamericana, “The Twilight Zone”, e mais ainda “The Night Gallery”, ambas do produtor, Rod Serling. Esta última que citei, pelo contrário, era mais influenciada pela Hammer do que o contrário, aliás.
Tais historietas em uma segunda etapa, nos anos setenta, foram reeditadas como episódios duplos, ao tornar-se longa metragens em reprises que passaram muito na sessão coruja das TV’s abertas do mundo inteiro, incluso o Brasil.
Por falar nisso, para quem viveu os anos setenta, fica a lembrança do saudoso, ”Cine Mistério”, a sessão de filmes de terror que eram exibidos às sextas, na TV Bandeirantes, onde o maior lote de filmes fora disponibilizado pela Hammer. A produção continuou a todo vapor no início da década de setenta, mas o nível das histórias começou a decair, infelizmente.
Um bom exemplo disso, em 1972, com um lançamento chamado : “Drácula no Mundo da Mini-Saia” (“Drácula A.D. 1972”), é engraçado pelo inusitado da história e ambientação de época, mas é uma bobagem sem tamanho para quem gosta do gênero, e depara-se com o velho Conde Drácula a parecer um “tio” de meia idade, metido a galanteador no meio daquelas garotas jovens, com as pernas de fora, e garotões cabeludos com aparência de Rockers setentistas. De fato, não foi um deslize isolado, mas denotara uma tendência, ao apostar em querer atrair o público jovem da época e dessa forma, outras produções assim, a carregar no erotismo, pareceram aproximar-se da estética do diretor italiano, Tinto Brass (pelo apelo erótico), do que honrar as tradições da velha Hammer.
Antes disso até, em 1970, a Hammer havia lançado um filme ambientado na Pré-História, chamado : “Quando os Dinossauros Dominavam a Terra” e a quantidade de atrizes lindas a interpretar mulheres trogloditas (incluso mega beldades como Rachel Welch e Martine Beswick), motivou que ninguém fosse ao cinema para ver os tais dinossauros em questão, mas sim as beldades semi nuas...

Quando começou a perder mercado, a Hammer decaiu rapidamente, de uma forma acintosa.
Nos anos oitenta, a produtora parou em produzir e sustentou-se doravante em um novo nicho de atuação, bem menos glamoroso, que foi o da produção de Fitas VHS, ao buscar o mercado do Home Entertainment. E nesses termos, adaptou-se às mudanças desse mercado, para abandonar gradativamente o formato do VHS e assim abraçar o Laser Disc, e posteriormente o DVD.


Nos anos 1990, aproveitou o seu próprio e rico acervo, para produzir DVD’s para colecionadores, com diversas abordagens sobre a sua própria história filmográfica. Documentários sobre a sua obra, a mirar em aspectos específicos ou mesmo sobre as suas estrelas, Christopher Lee e Peter Cushing, principalmente, encantaram os seus fãs, naturalmente. Uma boa nova surgiu já no avançar dos anos 2000, quando em 2008, a Hammer anunciou a retomada de sua produção cinematográfica.
Com abordagem moderna, norteamericanizada demais para os mais puristas fãs da velha Hammer, mas com qualidade técnica no padrão dos Blockbusters da atualidade, a Hammer vem a lançar filmes novos e que estão a amealhar bons números nas bilheterias. "Let me in"; "The Resident"; "Wake Wood"; "The Woman in Black"; e "The Quiet Ones", são exemplos dessa produção moderna da Hammer, e sim, direcionada no terror.
Para 2015, é aguardado “The Woman in Black” (Angel of Death), uma continuação do filme protagonizado pelo ator, Daniel Radcliffe, o eterno, Harry Potter.
A Hammer fez história com os seus filmes produzidos mediante um orçamento barato, porém muito marcantes na história do cinema britânico e mundial. Passou por muitas fases, quase a acabar logo no seu nascedouro, e sob uma fase bem posterior, a ficar quase invisível ao grande público, embora viva.
Teve também o seu auge, com a possibilidade em angariar muitos fãs em todo o mundo. Ressurge no mundo atual dominado pelo cinema Blockbuster, e colocou-se nesse mercado, coadunado com a tendência moderna.
Torço para que continue viva e ativa por muitos anos. E sou muito fã de seu período áureo, do qual tenho muitos filmes devidamente alojados em minha prateleira de DVD’s.
Terror não é um gênero que agrade muitas pessoas e dentro do gênero, nem tudo que foi produzido, é agradável para todos.
Eu não diria que recomendo o gênero como um todo, sem reservas, pois nesse caso, a percepção de cada um é bastante subjetiva. Digo apenas que sou fã da Hammer e tenho saudade das noites das sextas do Cine Mistério, lá pelos idos de 1972, 1973, quando levei sustos, mas também encantei-me com a produção dessa companhia cinematográfica britânica...   

sábado, 8 de dezembro de 2012

Filme : Westworld (Westworld, Onde Ninguém Tem Alma) - Por Luiz Domingues

Michael Crichton foi um artista multifacetado, e de certa forma subestimado, infelizmente. Convenhamos, não é muito comum um diretor de cinema que também seja escritor de ficção científica, com muitos livros publicados e ainda por cima, alguém formado em medicina...
Como escritor, Crichton escreveu muitos livros que fizeram sucesso no campo da literatura Sci-Fi. Entre os quais : "O Enigma de Andrômeda " (que foi adaptado ao cinema, sob direção de Robert Wise); "Devoradores de Mortos"; "Jurassic Park" (também motivou um filme, através das mãos de Steven Spielberg); Esfera, Congo, Revelação e Twister (também tornou-se filme), e existem outros.
E o fato de ser médico, o ajudou na elaboração de certos conceitos técnicos em torno da biologia, que ele gostava de usar como elemento em sua literatura Sci-Fi.
Mas ele gostava também de dirigir e tornou-se de fato um bom diretor, com uma carreira não muito longa, mas significativa. Em 1973, Crichton lançou um emblemático filme chamado : "Westworld" (no Brasil, esta obra recebeu o nome de : "Westworld - Onde Ninguém Tem Alma").
Baseado no livro de mesmo título, escrito pelo próprio, Michael Crichton, "Westworld" fantasiou o "futuro", onde existiria um parque temático ao estilo da "Disneyland", mas dirigida aos adultos, chamada : "Delos". Logo nos créditos iniciais, vemos cenas de pessoas a embarcar para essa gigantesca estrutura turística e por conta desse ato, a ser monitoradas por funcionários, a simular a organização desses parques temáticos norteamericanos da vida real.
Todavia, tratava-se de um hipotético futuro, onde a tecnologia sofisticara-se ao ponto das atrações prometidas, observar o realismo extremo.  Sendo assim, a proposta mostrava-se a atender aos anseios dos turistas que interagem com robôs a ostentar uma aparência humana perfeita, com sensibilidade aguçada, inclusive e portanto, a proporcionar todo o tipo de envolvimento imaginável.
Havia três opções temáticas a ser escolhidas : o ambiente do velho oeste norteamericano; a Europa medieval e a Roma da antiguidade. O foco dramatúrgico segue através de dois personagens que escolheram passar alguns dias no velho oeste. Mas ao longo do filme, surgem cenas simultâneas de outros personagens a aproveitar os outros parques temáticos e chega-se em um ponto do filme, quando eles fundem-se. 

Peter Martin (interpretado por Richard Benjamim) e John Blane (James Brolin), são amigos e decidem aproveitar as férias juntos, no velho oeste de Delos.
A diversão é chegar em uma cidade daquele período e passar por todas as situações típicas daquela época, e devidamente expostas pelos filmes de western, décadas a fio. Ou seja, eles pretendem beber; dormir com as garotas do saloon, envolver-se em brigas por motivos fúteis e claro, matar pessoas nessas brigas, sem o menor pudor. A garantia do pacote turístico é total : os robôs brigam de verdade, mas sempre o humano turista vai ganhar, e jamais poderão ferir gravemente e muito menos matar o turista.
Um rígido monitoramento é feito on line e técnicos trabalham 24 horas por dia, para controlar tais ações.  Peter e John sabem disso e põem-se a angariar confusões, como verdadeiros forasteiros petulantes, e assim, a divertir-se muito. Até que surge na cidade um bandoleiro muito temido. Para seguir o roteiro de um filme de western, ambos apreciam a situação, sabedores que mesmo que o robô represente um bandido perigoso e exímio atirador, no final da história, eles o executarão e fim de conversa.
No caso, o robô é programado para ser arrogante; frio e obstinado. Interpretado pelo ator, Yul Brynner, no filme ele é denominado : "Gunslinger"
Cabe observar que o robô é baseado em um personagem que próprio ator, Yul Brynner, interpretara brilhantemente no cinema, desta feita um pistoleiro de carne e osso, no filme : "The Magnificent Seven" ("Sete Homens e um Destino"), um western clássico, lançado em 1960, e baseado no filme japonês, "Os Sete Samurais", de Akira Kurosawa. De fato, o figurino do andróide, Gunslinger é idêntico ao usado pelo personagem defendido por Brynner em "The Magnificent Seven".

Durante a madrugada, técnicos do parque removem robôs "mortos" e são mostradas cenas da oficina a trabalhar a todo vapor, com os cientistas de plantão a emitir o seu parecer técnico. Aí entrou o lado médico de Crichton, que sempre gostou de inserir em seus filmes e livros, tais citações teóricas, ao desejar fornecer um maior embasamento real à sua obra.
No caso de Westworld, são curiosos esses diálogos, geralmente conduzidos pelo diretor do parque, interpretado pelo ator, Allan Oppenheimer. E como os robôs "morrem" para divertir os turistas, eles voltam à cena quando os turistas despertam para aproveitar um novo dia e assim, podem morrer novamente em cada jornada.
Martin e Blane abusam da brincadeira, ao provocar brigas no saloon, onde até Martin é "preso", para momentos depois, Blane ter o prazer de dinamitar o cárcere da delegacia para resgatar o seu amigo e matar o delegado, sem piedade. Em uma dessas brigas, de ambos.Gunslinger é morto, mas claro, após reparos, o robô voltou para a cena, no dia seguinte.
Contudo, algo começa a falhar na estrutura do parque temático. Pequenos sinais aparecem, sem que os turistas percebam a fonte, que na verdade fora um vírus eletrônico que epidemicamente colocou-se a contaminar todos os robôs. Por exemplo, John Blane (Richard Brolin), é picado verdadeiramente por uma cobra andróide; moças andróides programadas para ceder aos desejos sexuais dos turistas, recusam-se a colaborar nesse sentido etc.
Nesse momento, são exibidas as cenas dos outros parques temáticos, a demonstrar que a epidemia também contaminou-os. No mundo medieval, por exemplo, um cavaleiro provoca uma briga com um turista e propõe um duelo de espadas, quando o mata. Na "Roma antiga", tudo sai do controle e o que fora para ser um final de semana envolto sob orgias, torna-se um cenário de matança desenfreada, com requintes de crueldade.
Ainda por não perceber o perigo em que envolveram-se, os amigos Martin e Blane são desafiados a duelar, pelo pistoleiro, Gunslinger. Ao desdenhar da situação, por estar seguros de que o matarão sem problemas, não abalam-se com as bravatas do pistoleiro e assim, portam-se displicentemente diante do perigo. Todavia, Gunslinger está obcecado por matá-los e a portar uma pistola real, atira e mata Blane. Só aí Peter Martin percebe que acabou a brincadeira e foge desesperadamente.
Gunslinger o persegue de forma implacável e essa parte final do filme é muito angustiante, pois sabemos que o robô só vai parar quando for destruído, mas a questão é : como destruí-lo ? Nesse ínterim, os técnicos estão a empreender todo o esforço para desligar os robôs e a duras penas conseguem pequenos progressos, mas Gunslinger continua a perseguir obstinadamente Peter Martin, determinado a matá-lo. Martin alcança o deserto que cerca a cidade do velho oeste e as cenas seguem os clichês dos filmes clássicos de western, com a perseguição em ambiente árido e inóspito.
Ele encontra-se com um técnico do parque, que mais assustado ainda, está a tentar fugir da matança desenfreada. É curiosa essa pequena ponta feita pelo ator, Steven Franken, que mais baseou a sua carreira nas comédias, onde cito o genial garçom bêbado que rouba a cena em "The Party", uma das melhores comédias de Peter Sellers. E claro, Gunslinger mete-lhe bala, para apavorar ainda mais o personagem, Peter Martin.  Então, munido de algumas cápsulas de ácido (que achou no laboratório do parque, durante a sua fuga), espera uma oportunidade e joga o líquido no rosto de Gunslinger.
Essa cena, a mostrar o rosto do robô a derreter, foi uma das primeiras, senão a primeira na história do cinema, onde usou-se a computação gráfica, que logicamente em 1973, ainda engatinhava e não era nada parecida com a que conhecemos hoje em dia. Porém, ao considerar-se a época e os recursos disponíveis, é espetacular.
Martin chega aos limites do mundo medieval, onde os robôs estão desativados, mas também vê-se corpos de turistas mortos. Mesmo sem rosto e com apenas componentes eletrônicos expostos na cavidade facial, Gunslinger continua a sua caçada frenética. Gunslinger chega e Martin corre para a masmorra do castelo e observa uma mulher acorrentada, mas percebe que trata-se de um robô, quando ele oferece-lhe água e o líquido causa-lhe um curto circuito.
A última tentativa é incinerar o robô e parece que Martin salvou a sua vida, enfim. Mesmo carbonizado ele ainda aproxima-se, mas explode a seguir, literalmente. Então, finalmente Martin, atônito com toda a agonia que passou, senta-se em uma escadaria da masmorra, onde pensa na ironia do slogan do parque : "já temos um período de férias para você"...
É óbvio que o filme versa sobre o vazio do homem massacrado pela sociedade capitalista. A ideia de um parque temático nos moldes dos parques Disney, mas com teor adulto e a evocar grandes sets de filmagem de cinema, demonstra claramente que a vida frenética das pessoas, carece de válvulas de escape. Brincar de estar em um mundo diferente e poder extravasar o hedonismo e não só isso, mas também o poder da vida e da morte, sem questionamentos éticos; morais e pela plena desobediência às leis, pode fascinar. Outra observação pertinente, dá-se na comparação que muitos críticos fazem entre Westworld e Terminator, realizado onze anos depois.

Parece claro que o androide assassino e obstinado vivido por Arnold Schwarzenegger, é muito parecido com o robô, Gunslinger, de Yul Brynner. Implacável, ele persegue sua meta até o fim, sem esmorecer.
E certamente algumas ideias também influenciaram, "Predator", outro filme de Schwarzenegger, do final dos anos oitenta. O alienígena protagonista em questão, usa muita tecnologia para empreender a sua caça aos humanos, ao usar recursos vistos em "Westworld", com o robô, Gunslinger. "Westworld" teve uma sequência em 1976, com o ator, Peter Fonda, como protagonista. Nessa sequência, chamada : "Futureworld", teve a participação novamente do ator, Yul Brynner, ao interpretar novamente o robô
Gunslinger, mas essa produção ficou aquém.
Pior ainda foi uma tentativa em adaptar a história para o universo das séries de TV, ao retumbar em um fracasso e que logo cancelado pela Rede CBS, no início dos anos oitenta. Há planos para um remake, há anos e o próprio Schwarzenegger foi cotado para ser o "novo" Gunslinger, mas até agora, não houve concretização dessa produção. Como cinéfilo, torço para que não haja e que assim, poupe-nos de mais um remake cheio de tecnologia moderna e pouquíssimo conteúdo.
Destaca-se, é claro, a interpretação de Yul Brynner, que tornou o robô, Gunslinger, assustador. "Westworld" é mais um desses filmes da safra Sci-Fi setentista, que ganhou fôlego extra após o sucesso mastodôntico de "2001" / Uma Odísséia no Espaço, em 1968. Foi exibido com frequência na grade das TV's brasileiras, geralmente na faixa da madrugada, mas com a mudança de mentalidade dos programadores de hoje em dia, que só privilegiam filmes produzidos até quinze anos para trás, a cota de filmes vintage fica mesmo restrita aos canais de TV a cabo especialistas e para garimpeiros de locadoras diferenciadas da internet. Eu o recomendo, evidentemente, pois considero-o um grande filme Sci-Fi.