sábado, 8 de dezembro de 2012

Westworld, Onde Ninguém Tem Alma - Por Luiz Domingues

Michael Crichton foi um artista multifacetado, e de certa forma subestimado, infelizmente.

Convenhamos, não é muito comum um diretor de cinema que também é escritor de ficção científica, com muitos livros publicados e formado em medicina...
Como escritor, Crichton escreveu muitos livros que fizeram sucesso no campo da literatura Sci-Fi.

Entre os quais : O Enigma de Andrômeda (que foi adaptado ao cinema, sob direção de Robert Wise); Devoradores de Mortos, Jurassic Park (também virou filme, nas mãos de Steven Spielberg); Esfera, Congo, Revelação e Twister (também tornou-se filme), e tem outros.
E o fato de ser médico, o ajudava na elaboração de certos conceitos técnicos, que gostava de usar como elementos em sua literatura Sci-Fi.
Mas ele gostava também de dirigir e tornou-se de fato um bom diretor, com carreira não muito longa, mas significativa.

Em 1973, Crichton lançou um emblemático filme chamado "Westworld" (no Brasil, recebeu o nome de "Westworld - Onde Ninguém Tem Alma").
Baseado no livro de mesmo título, escrito pelo próprio Michael Crichton, "Westworld" fantasiava o "futuro", onde existiria uma Disneyland para adultos, chamada "Delos".

Logo nos créditos iniciais, vemos cenas de pessoas embarcando para essa gigantesca estrutura turística e sendo monitorados por funcionários, simulando a organização desses parques temáticos norte-americanos.
Mas tratava-se de um hipotético futuro onde a tecnologia sofisticara-se ao ponto das atrações prometidas, observarem o realismo extremo.

Sendo assim, os turistas iriam interagir com robôs de aparência humana perfeita, com sensações e a possibilidade de todo o tipo de envolvimento.
Haviam três opções temáticas a serem escolhidas : o velho oeste; a Europa medieval e a Roma da antiguidade.

O foco dramatúrgico segue através de dois personagens que escolheram passar alguns dias no velho oeste. Mas ao longo do filme, surgem cenas simultâneas de outros personagens curtindo os outros parques temáticos e chega num ponto onde eles se fundem.

Peter Martin (interpretado por Richard Benjamim) e John Blane (James Brolin), são amigos e decidem curtir férias juntos no velho oeste de Delos.
A curtição é chegar numa típica cidade daquele período e passar por todas as situações típicas daquela época, e devidamente expostas pelos filmes de western, décadas a fio.

Ou seja, eles pretendem beber; dormir com as garotas do saloon, envolver-se em brigas por motivos fúteis e claro, matar pessoas nessas brigas, sem o menor pudor...

A garantia do pacote turístico é total : os robôs brigam de verdade, mas sempre o humano turista vai ganhar, e jamais poderão ferir gravemente e muito menos matar o turista.
Um rígido monitoramento é feito on line e técnicos trabalham 24 h por dia, controlando essas ações.

Peter e John sabem disso e vão arrumando confusões como verdadeiros forasteiros petulantes, divertindo-se muito.

Até que surge na cidade um bandoleiro muito temido. Seguindo o roteiro de um filme de western, ambos apreciam a situação, sabedores que mesmo que o robô represente um bandido perigoso e exímio atirador, no final da história, eles o executarão e fim de papo.
E o robô é programado para ser arrogante, frio e obstinado. Interpretado pelo ator Yul Brynner, no filme ele é denominado : "Gunslinger"
Cabe observar que o robô é baseado num personagem que próprio Yul Brynner interpretou brilhantemente no cinema, desta feita um pistoleiro de carne e osso, no filme "The Magnificent Seven" ("Sete Homens e um Destino"), um western clássico, lançado em 1960, e baseado no filme japonês, "Os Sete Samurais", de Akira Kurosawa.

De fato, o figurino do andróide Gunslinger é idêntico ao usado pelo personagem de "The Magnificent Seven".

Durante a madrugada, técnicos do parque removem robôs mortos e são mostradas cenas da oficina trabalhando a todo vapor, com os cientistas de plantão emitindo diversos pareceres técnicos. Aí entrou o lado médico de Crichton que sempre gostou de inserir em seus filmes e livros, tais inserções teóricas, querendo dar embasamento real à sua obra.
No caso de Westworld, são curiosos esses diálogos, geralmente conduzidos pelo diretor do parque, interpretado pelo ator, Allan Oppenheimer.

E como os robôs "morrem" para divertir os turistas, eles voltam à cena quando os turistas despertam para curtir um novo dia e assim, podem morrer novamente...
Martin e Blane abusam da brincadeira, arrumando brigas no saloon onde até Martin vai preso, para momentos depois Blane ter o prazer de dinamitar o cárcere da delegacia e matar o delegado, sem piedade...

E numa dessas brigas, matam Gunslinger, mas claro, após reparos, o robô voltou no dia seguinte.
Contudo, algo começa a falhar na estrutura do parque temático. 

Pequenos sinais vão pipocando, sem que os turistas percebam a fonte, que na verdade era um vírus eletrônico que epidemicamente foi contaminando todos os robôs.

Por exemplo, John Blane (Richard Brolin), é picado de verdade por uma cobra androide; moças andróides programadas para cederem aos desejos sexuais dos turistas, recusam-se a colaborar nesse sentido etc.
Nesse momento, interagem as cenas dos outros parques temáticos, mostrando que a epidemia também os contaminou.

No mundo medieval, um cavaleiro arruma briga com um turista e propondo um duelo de espadas, o mata.

Na "Roma antiga", tudo sai do controle e o que era para ser um final de semana de orgias, vira uma matança com requintes de crueldade.
Ainda não percebendo o perigo em que se meteram, os amigos Martin e Blane são desafiados a duelar, pelo pistoleiro Gunslinger.

Desdenhando da situação, por estarem seguros de que o matarão sem problemas, não se abalam com as bravatas do pistoleiro e portam-se displicentemente diante do perigo.

Mas Gunslinger está obcecado por matá-los e portando uma pistola real, atira e mata Blane.

Só aí Peter Martin percebe que acabou a brincadeira e foge desesperadamente.
Gunslinger o persegue de forma implacável e essa parte final do filme é muito angustiante, pois sabemos que o robô só vai parar quando for destruído, mas a questão é : como destruí-lo ?

Nesse ínterim, os técnicos estão fazendo todo o esforço para desligar os robôs e a duras penas vão conseguindo, mas Gunslinger continua perseguindo Peter Martin, determinado a matá-lo.

Martin alcança o deserto que cerca a cidade do velho oeste e as cenas seguem os clichês dos filmes de western com a perseguição em ambiente árido e inóspito.
Encontra com um técnico do parque que mais assustado ainda, está fugindo da matança desenfreada. É curiosa essa pequena ponta feita pelo ator Steven Franken, que mais baseou sua carreira nas comédias, onde cito o genial garçon bêbado que rouba a cena em "The Party", uma das melhores comédias de Peter Sellers. E claro, Gunslinger mete-lhe bala, apavorando ainda mais o personagem Peter Martin.

Então, munido de algumas cápsulas de ácido (que achou no laboratório do parque, durante a sua fuga), espera uma oportunidade e joga o líquido no rosto de Gunslinger.
Essa cena, mostrando o rosto do robô derretendo, foi uma das primeiras, senão a primeira na história do cinema, onde usou-se a computação gráfica, que logicamente em 1973, ainda engatinhava e não era nada parecida com a que conhecemos hoje em dia.

Mas, considerando-se a época e os recursos disponíveis, é espetacular.
Martin chega aos limites do mundo medieval, onde os robôs estão desativados, mas também se veem corpos de turistas mortos.

Mesmo sem rosto e com apenas componentes eletrônicos expostos na cavidade facial, Gunslinger continua sua caçada frenética.

Gunslinger chega e Martin corre para a masmorra do castelo e vê uma mulher acorrentada, mas percebe que é uma robô, quando oferece água e lhe causa um curto circuito.
A última tentativa é incinerar o robô e parece que Martin salvou sua vida. Mesmo carbonizado ele ainda se aproxima, mas explode a seguir, literalmente.

Então, finalmente Martin, atônito com toda a agonia que passou, senta-se numa escadaria da masmorra, onde pensa na ironia do slogan do parque : "Já temos um período de férias para você"...
É óbvio que o filme versa sobre o vazio do homem massacrado pela sociedade capitalista. A ideia de um parque temático nos moldes dos parques Disney, mas com teor adulto e evocando grandes sets de filmagem de cinema, demonstra claramente que a vida frenética das pessoas, carece de válvulas de escape.

Brincar de estar num mundo diferente e poder extravasar o hedonismo e não só isso, mas também o poder da vida e da morte, sem questionamentos éticos, morais e obediência às leis, pode fascinar.

Outra observação pertinente, se dá na comparação que muitos críticos fazem entre Westworld e Terminator, realizado onze anos depois.

Parece claro que o androide assassino e obstinado vivido por Arnold Schwarzenegger, é muito parecido com o robô Gunslinger, de Yul Brynner. 

Implacável, persegue sua meta até o fim, sem esmorecer.
E certamente algumas ideias também influenciaram "Predator", outro filme de Schwarzenegger do final dos anos oitenta. O alienígena usa muita tecnologia para empreender sua caça aos humanos, usando recursos vistos em "Westworld", com o robô Gunslinger.

"Westworld" teve uma sequência em 1976, com Peter Fonda como protagonista. Nessa sequência, chamada "Futureworld", teve a participação novamente de Yul Brynner fazendo o robô
Gunslinger, mas essa produção ficou aquém.
Pior ainda foi uma tentativa de adaptar a história para o universo das séries de TV, retumbando num fracasso e logo cancelado pela Rede CBS, no início dos anos oitenta.

Há planos para um remake, há anos e o próprio Schwarzenegger era cotado para ser o "novo" Gunslinger, mas até agora, não houve concretização dessa produção. Como cinéfilo, torço para que não haja e nos poupem de mais um remake cheio de tecnologia e pouquíssimo conteúdo.
Destaca-se, claro a interpretação de Yul Brynner, que tornou o robô Gunslinger, assustador.

"Westworld" é mais um desses filmes da safra Sci-Fi setentista, que ganhou fôlego extra após o sucesso mastodôntico de 2001 - Uma Odísséia no Espaço, em 1968.

Era exibido com frequência na grade das TV's brasileiras, geralmente na faixa da madrugada, mas com a mudança de mentalidade dos programadores de hoje em dia, que só privilegiam filmes produzidos até 15 antes, a cota de filmes vintage fica mesmo restrita a canais de TV a cabo especialistas e para garimpeiros de locadoras "descoladas" e de internet.

Eu o recomendo, evidentemente. Considero-o um grande filme Sci-Fi.

8 comentários:

  1. Muito bom Luiz !
    Yuliy Borisovich Bryner; July 11, 1920 – October 10, 1985

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    1. Excelente a sua participação, Juma !

      Sim, o grande Yuliy Borisovich Bryner, vulgo Yul Brynner, fantástico ator.

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  2. Por quê. vc têm o dom de deixar seus leitores. com vontade de ver o filme toda vez que vc fala de um???? Eu escolheria a Idade Média. com todos os Lancelotis e bruxas de direito!!!!Si Simplesmente impecável. seu texto Luiz!!!

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    1. Que belo elogio, Sil !

      Fico extremamente feliz por saber que uma resenha minha provoca a vontade do leitor em ver ou rever cada filme que enfoco.

      Eu teria a tendência a escolher a Idade Média também. Contudo, o Império Romano e o velho Oeste também seriam muito divertidos...

      Obrigado por ler, elogiar e comentar !!

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  3. Oi, Luiz
    Assisti ao filme há muito tempo. Lembro de ter gostado muito. É bem tudo isso que você cita no teu texto acima.
    Você diz torcer para que não haja remake cheio de tecnologia e pouco conteúdo. Você sabe que sou aficionada por tecnologia, então, por mim pode ter um remake sim, e torcer para que haja um pouco de conteúdo. E torço também para que Schwarzenegger não seja cotado para trabalhar no filme.
    E gostei da tua interpretação sobre o que versa o filme. Isso daria um outro artigo, com mais profundidade. Que tal uma continuação?
    Abraços

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    1. Oi, Janete !

      Que bom que identificou no meu texto as suas próprias impressões sobre o filme.

      Entendo e respeito a sua opinião sobre remakes e deixe que eu me expresse mais claramente sobre um aspecto : Eu não tenho nada contra os avanços da tecnologia. A minha discórdia é com a maneira como é usada e sobretudo a intenção comercial de tornar bons filmes do passado , palatáveis à garotada do momento que nasceu já na Era da informática e aí, são muitas explosões, barulho e nada de enrêdo. Por isso, estórias que foram estupendamente adaptadas ao cinema no passado, ainda que com recursos técnicos pobres,são completamente diluídas em quase todos os remakes.

      Bacana ter gostado da minha interpretação sobre as metáforas propostas por Michael Crichton. Talvez dê margem à um novo texto, aprofundando um pouco mais. Pensarei a respeito. Boa ideia !

      Obrigado por ler e comentar !!

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  4. Olá, Luiz, ótima resenha de um sci-fi-western que merece ser visto. Há no Westerncinemania uma resenha de minha autoria sobre esse filme (Westerns Bizarros), bem como um vídeo que editei de Westworld. Bom saber que o amigo gosta e conhece de faroestes. Um abraço do Darci.

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  5. Grande Darci !!

    Que honra receber sua visita em meu Blog !!

    Fico muito contente que tenha gostado de minha resenha sobre Westworld e claro, retribuirei a visita, lendo a sua resenha sobre a mesma obra,que tenho certeza, tem a visão de um expert no gênero Western.

    Claro que gosto de Western ! Só não tenho o conhecimento enciclopédico que o amigo tem !!



    Um grande abraço, amigo !!

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