terça-feira, 11 de junho de 2013

Harrison Aproximou a Índia para Nós - Por Luiz Domingues

O elo de George Harrison com a cultura indiana e por conseguinte, toda a tradição de espiritualidade expressa através da música, veio de muito mais longe do que imaginávamos.

Segundo consta em sua biografia, sua mãe, Louise Harrison, gostava de sintonizar a Rádio Índia, para ouvir a exótica música daquele país, que considerava relaxante durante a sua gravidez.

Indo além, achava que o som da cítara; tabla; e diversos outros instrumentos indianos, aliados aos mantras entoados, poderiam ser benéficos para o bebê. 

E certamente que foram...

Ainda na primeira infância, Harrison tinha em seu Lar um ambiente com muita música. Sua mãe gostava de cantar e a música folk irlandesa tinha vez em seus cânticos.

Quando a adolescência chegou, Harrison foi arrebatado pela música americana.

O Blues; o Rock'n Roll; e o Folk yankee, o estimularam a tocar e seu talento precoce o levou à dois colegas de escola, que estavam formando uma banda de "Skiffle". 

"Skiffle" era um rítmo tipicamente britânico nos anos cinquenta, que misturava o Rock americano com as raízes folk da Grã-Bretanha e por ser executado sem grandes aparatos em termos de equipamentos, virou febre entre adolescentes ingleses de origem social simples.

Isso porque bastava dois ou três violões e uma percussão improvisada com qualquer objeto caseiro, tornando a formação de bandas, muito acessível para garotos pobres e sem recursos.

Mas seus colegas eram mais velhos e ficaram receosos de aceitá-lo num primeiro instante. Com apenas 14 anos de idade, a despeito de mostrar desenvoltura no instrumento, o imberbe Harrison era imaturo e não demonstrava o jeito durão de rocker que eles julgavam imprescindível para entrar na banda.

Só aos 15 (que diferença insignificante, convenhamos...), ele se tornou membro do "The Quarrymen", junto aos amigos John Lennon e Paul McCartney.

Daí em diante, todo mundo sabe onde esse pequeno grupo amador de Liverpool foi parar... 

No ano de 1966, os Beatles eram o maior fenômeno da música mundial, ditando modas, apontando caminhos .

Sua influência já havia extrapolado as fronteiras da música, e atingira patamares incalculáveis no âmbito sócio comportamental.

E especificamente nesse ano de 1966, deram também uma guinada radical em sua música.

A partir do lançamento dos álbuns "Rubber Soul" e "Revolver", os Beatles praticamente abandonaram a sua trajetória quase ingênua, de uma linha de Rock'n Roll; Blues; e R'n'B, com letras simples e geralmente falando de amor homem-mulher, com visão adolescente e passaram a ousar artisticamente. 

Abertos à qualquer tipo de influência, sua música sofisticou-se de tal maneira que abriu um marco na sua carreira, imediatamente aceito e difundido pelos historiadores.

A carreira dos Beatles é nitidamente dividida em duas fases : pré e pós-1966.

Entre tantas inovações musicais e poéticas, os Beatles apresentaram como uma nova marca registrada em seus discos, doravante, a introdução de instrumentos exóticos e folclóricos, incorporados à estética moderna do Rock. 

Guitarra; baixo; teclados; e bateria, passaram a conviver com instrumentos exóticos e inimagináveis para o formato do Rock ocidental.

Isso abriu um horizonte muito amplo às experimentações e de imediato, tais sonoridades estimularam inúmeras bandas de Rock contemporâneas deles, a seguir tal caminho, também.

Especificamente falando dos Beatles, Harrison trouxe duas influências suas: O Folk politizado norte-americano, via Bob Dylan e a música indiana que sempre o encantou e agora, ganhava uma aura ainda mais especial.

Na canção "Norwegian Wood", que está no álbum "Rubber Soul", Harrison introduziu a cítara como elemento especial e enlouqueceu os fãs. 

O que era aquele exótico timbre que fazia frases doces durante a canção, acompanhando a melodia cantada por Lennon ?

Nessa primeira introdução da cultura indiana na música dos Beatles, a estrutura melódica/harmônica e rítmica de "Norwegian Wood", ainda seguia o padrão ocidental, sem grande choque estético.

Tratando-se de uma balada em 6/8, tem sabor folk e a cítara atua como um instrumento de apoio apenas, mas é impossível não deixar de notá-la e apreciar sua incrível beleza. 

Mesmo não sendo um exímio citarista e convenhamos, para atingir tal nível é preciso estudar muitos anos com afinco, a performance de Harrison na canção é perfeita e o apoio que teve, foi do fato de que em 1966, ter ido à Índia e feito aulas com o grande mestre do instrumento, o maestro Ravi Shankar. 

Seus esforços para aprimorar-se ao instrumento foram incentivados por Shankar, e no mesmo ano, Harrison voltaria à Índia e passaria seis semanas fazendo um curso intensivo.

Coincidindo com a decisão dos Beatles em não mais realizar shows ao vivo, a partir do final da turnê americana de 1966, o tempo para dedicar-se às composições, arranjos e experimentações de estúdio, aumentou muito, e dessa forma, o terreno ficou propício para mais incursões nesse sentido.

Mas Harrison não se encantara somente pela musicalidade indiana.

Todo o sentido espiritual por trás da música, o seduziu.

De fato, existe a música popular da Índia, mas existe também a música erudita onde o sentido espiritual é fundamental para quem toca ou escuta. 

Baseado em vibrações que aguçam os chacras, os mantras tem um poder extraordinário de emanação energética. E dentro desse conceito, toda a instrumentação erudita segue tal padrão.

Foi inevitável então o choque positivo que tal introdução musical causou no mundo ocidental, atingindo em cheio à milhões de jovens. 

Concomitante à essa explosão musical, o movimento Hippie borbulhava e toda a carga cultural da Índia encaixava-se como uma luva nesse espectro artístico e sócio comportamental.

O elemento espiritual difundiu-se de forma muito forte no movimento, trazendo diversos questionamentos sociológicos. 

A ideia de libertação de padrões de condicionamentos massacrantes da sociedade de consumo na Revolução Industrial, nunca foi tão viva quanto nos anos sessenta.
 
Os conceitos de fraternidade, solidariedade e não-violência, passaram a ser a marca registrada dessa geração que vislumbrou uma grande libertação social. 

As cores expressas em profusão nas roupas, o cabelo comprido e a oposição ferrenha à violência, questionando o sentido das guerras e naturalmente afrontando os militares, religiosos fundamentalistas e os políticos de direita, ganhou contorno de revolução branca, via desobediência civil.

Harrison nunca admitiu isso, claro, mas sua contribuição foi incomensurável nesse processo, trazendo não só a musicalidade indiana para o ocidente, mas principalmente os conceitos espiritualistas que fariam todo o sentido para uma geração que sonhou em se libertar.

A segunda música que os Beatles gravaram com tais elementos, foi ainda mais incisiva : No LP "Revolver", a canção "Love You To", tinha aí sim, uma estrutura musical indiana típica, com nenhuma influência ocidental.

Ainda no mesmo disco, há uma decisiva participação de um instrumento chamado "Tamboura", na canção "Tomorrow Never Knows", que torna a psicodelia dela, ainda mais sensacional. 

Por sua influência direta, Ravi Shankar passou a apresentar-se no ocidente, para platéias formadas por jovens. 

Tornou-se então um ícone pop, com o mesmo peso de um Rock Star, vindo a tocar e encantar essa juventude, em festivais como Monterey Pop' 67, Woodstock' 69 e Isle of Wight' 70, além de realizar tours individuais pelo mundo todo (passou pelo Rio e São Paulo no início dos anos setenta, para delírio dos freaks tupiniquins).

No ano seguinte, quando saiu o monumental LP "Sgt° Peppers Lonely Hearts Club Band", a contribuição de Harrison ao disco foi pequena, mas incisiva. 

A canção "Within' you, Without You", com estrutura totalmente indiana, emociona. Com o apoio de músicos indianos radicados em Londres, Harrison a compôs, arranjou e executou cítara, com grande inspiração.

Eis a letra da música, numa tradução livre:
 
Dentro de Você, Sem Você

Nós falamos,
Sobre o espaço que dentre todos nós
E as pessoas,
Que escondem ela mesmas atrás da fortaleza
Da ilusão,
Nunca se tocam da verdade
Quando já é muito tarde;
Quando elas morrem
Nós falamos sobre o amor que todos nós compartilharíamos
Quando o encontrarmos..
Tentaremos do nosso melhor para mantê-lo lá
(Com nosso amor)
Com nosso amor nós poderíamos salvar o mundo
Se eles apenas soubessem
Tente perceber que está tudo dentro de si mesmo
Ninguém mais pode fazer você mudar;
E veja que você é realmente muito pequeno
E a vida flui dentro de você
Ou sem você
Nós falamos,
Sobre o amor que tão frio se foi
E as pessoas,
Que ganham o mundo e perdem suas almas
Elas não sabem,
Elas não veem
Você é uma delas?
Quando você enxergar o seu outro lado,
Então poderá encontrar a paz de espírito que tanto espera;
E a hora chegará quando você ver que
Somos todos um e a vida segue dentro de você ou sem você

Acho desnecessário comentar o teor dessa letra, para quem está espiritualizando-se...

Diante dessa carga inexoravelmente bela de mensagem Suddha, Harrison escancarara os portais para a juventude ocidental beber dessa fonte de conhecimento.

No mesmo ano de 1967, na canção "Strawberry Fields Forever", uma pequena inserção de um instrumento indiano, colaborou com a música, embora de forma não acintosamente indiana.


Em 1968, Harrison trouxe mais uma canção de teor explicitamente indiano e com tema espiritual.

Tratou-se de "The Inner Light", que foi lançada apenas num compacto.


É óbvio, quando fala de "A Luz Interna", Harrison fala direto da chama do coração, o Atman, a centelha divina que todos carregamos e nos faz , literalmente irmãos, como fonte de uma única luz, a que chamamos normalmente de "Deus".

Quando os Beatles encerraram atividades em abril de 1970, a carreira solo de seus quatro membros estava já em curso.

No caso de Harrison, seus discos solo sempre trouxeram elementos de teor espiritualista e a ligação com a Índia prosseguiu, até estreitando-se mais ainda.


Em 1971, Harrison produziu o que viria a ser o primeiro show de Rock beneficente da história.

Reuniu um time de astros (Bob Dylan; Ringo Starr; Eric Clapton; Badfinger; Ravi Shankar; Leon Russell; Billy Preston, e ele mesmo, é claro), e chamou a atenção do mundo para a situação dramática do povo de Bangladesh, que além da habitual miséria, sofria em meio à uma sangrenta guerra civil.

Com a renda doada para o povo de Bangladesh, esse concerto entrou para a história, rendendo um disco duplo e um documentário.


"All Things Must Pass"; "Maya Love"; "Dark Horse"; "Beware of Darkness"; "My Sweet Lord"; "Give me Love (Give me Peace on Earth)"; "Living in the Material World"; " It is "He" (Jai Jai Krishna); entre outras tantas, são músicas de sua carreira solo, com esse teor.

George Harrison entrou para a história como o "Beatle místico".

Seu entusiasmo pela espiritualidade atuou como um verdadeiro farol para milhões de pessoas em todo o planeta.


Que trio sensacional : Ravi Shankar, Peter Sellers & George Harrison !!

É inegável que muitas pessoas contribuíram para que tais conhecimentos chegassem ao ocidente.

Mas Harrison, por ser um ídolo de alcance mundial, sem dúvida teve papel decisivo.


De certa forma, o papel dele nesse processo, levou adiante os esforços da Madame Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, no final do século XIX.

Harrison contribuiu assim, muito mais que nos brindando com suas lindas canções, mas nos dando a chance de ir além.


Namastê !!

Ahimsa !

Jai Jai, Harrison !!

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2013

2 comentários:

  1. Hare, hare!
    Não é a toa que o Harrison é meu Beatle favorito e, como um pensamento, uma atitude de uma mãe pode influenciar a vida de um ser que carrega em seu ventre!
    Lindo texto e ilustrações!
    Beijos!!

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  2. Sensacional que tenha gostado da matéria.

    Não acho que só pelo fato dele ter ouvido música indiana enquanto estava no ventre de sua mãe tenha tomado esse posicionamento na vida e na carreira, mas que foi uma mensagem subliminar importante a contribuir, sem dúvida.

    Muito grato por ler, comentar e elogiar !!

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