sábado, 19 de outubro de 2013

Ebal, Fábrica de Sonhos - Por Luiz Domingues



Que as histórias em quadrinhos tem uma tradição muito antiga, não resta dúvida.

Embalando a imaginação das crianças e adolescentes, há muitas décadas, suas origens remontam à Idade Média, com as histórias de cavalaria, mescladas às lendas do folclore etc.

No Brasil, um dos primeiros registros que se tem notícia sobre um desenho dessa natureza, se deu em 1837, quando uma charge criada pelo autor Manuel de Araújo Porto-Alegre foi apresentada como litografia.


Angelo Agostini lançaria uma revista de charges e caricaturas, em 1869, e criou personagens como "Nhô Quim", e "Zé Caipora", bem brasileiros, e através deles, criticava a política do segundo Império, de Pedro II. 


Já no século XX, em 1905, surgiu a revista "Tico-Tico", que popularizou-se com suas charges, onde destacava-se o cartunista J. Carlos, que foi o primeiro desenhista brasileiro a desenhar um personagem Disney, o Mickey Mouse.

O cartunista paulista Belmonte, tornou-se uma celebridade com seus cartoons, charges, e o genial personagem "Juca Pato".

Mas ainda não havia no país um grande catalisador que pudesse conciliar essa produção nacional de charges & cartoons, com o movimento de comics, que já era fortíssimo nos Estados Unidos e Europa, com inúmeras publicações, heróis e sagas bem escritas.



Foi nesse contexto, que um jovem empreendedor surgiu no mercado editorial brasileiro, chamado Adolfo Aizen.

No início dos anos trinta, Adolfo Aizen fundou uma pequena editora chamada "Grande Consórcio de Suplementos Nacionais".


Nessa empreitada, Aizen lança "Suplementos Juvenil; "O Mirim" ,e "O Lobinho" (uma coletânea de histórias, onde foi lançado pela primeira vez no Brasil, heróis da magnitude de Batman; Superman; The Flash; e Falcão da Noite).

No ano de 1945, Aizen funda uma outra editora, que recebeu o nome de Editora Brasil-América Ltda., que passou a ser conhecida no mercado editorial, e entre seus admiradores, como "Ebal".

Numa parceria com a Editora Abril,da família Civita, que estava baseada na Argentina, nessa época, a Ebal lança personagens Disney, cuja licença pertencia à eles.


Com a abertura no Brasil da editora "Primavera" (mais tarde, "Abril"), Victor Civita, monopolizou a franquia Disney, tornando-se a grande rival da Ebal, por décadas, que tomou outro rumo.

Em princípio, a Ebal publicou muitos books de aventuras, clássicos da literatura adaptados aos quadrinhos, e sagas de heróis selvagens como "Sheena, a Rainha das Selvas", e "Tabu", entre outros.


Mas o grande trunfo de Aizen estava mesmo com os super-heróis, e entre eles, o Superman foi um carro chefe da Ebal, de 1947, até 1983, quando a Ebal perdia as forças e cedeu direitos à Abril Cultural.

Convenhamos, ter um super-herói desses no cast, por quase 40 anos, por si só já deveria ser digno de nota, mas a Ebal fez muito mais que isso, na sua história editorial.

Muitas histórias de detetive, na mais clássica tradição da literatura e cinema "noir", como por exemplo na figura de "Dick Tracy", fizeram enorme sucesso no Brasil.


Flash Gordon", o grande herói Sci-Fi dos anos trinta; "Fantasma", o enigmático misto de herói e entidade imortal; "O Príncipe Valente", "Zorro", "Tarzan"(que dispensa apresentações), etc .

Outro filão muito importante que a Ebal trabalhou, foi o dos quadrinhos com heróis ambientados no velho oeste.


Nesse segmento do Western, a Ebal lançou coisas como : "Bufalo Bill", "Cisco Kid", Cheyenne", "Nevada Kid" e outros.

Com o advento das séries de TV, a Ebal acompanhou o mercado americano, e lançou gibis baseados nelas, tais como "Gunsmoke"; "Terra de Gigantes"; Os Invasores"; "Bonanza", e outros.

Nos anos cinquenta e sessenta, auge da companhia do grande Adolfo Aizen, os números eram de gente grande.


A Ebal chegou a vender milhões de revistas. Algumas delas, com tiragens de mais de 150 mil exemplares nas bancas brasileiras.

Houve época onde chegou a ter 40 títulos simultâneos no seu catálogo, e para quem conhece o mercado editorial de revistas, sabe que é um número impressionante.


Quando firmou exclusividade com a gigante dos quadrinhos, a DC Comics (Batman e Superman, além de outros personagens nesse cast fantástico), a Ebal já estava consolidada como a maior editora de histórias em quadrinhos do Brasil, e sua concorrente, na verdade não a atrapalhava e vice-versa, pois a Editora Abril dedicava-se ao Universo Disney, praticamente, ou seja, tinha outro nicho de público, completamente diferente, e Maurício de Souza ainda era um iniciante, com a tira da "Turma da Mônica" dando seus primeiros passos no jornal Folha de São Paulo, e longe de ser também um editor de peso no mercado, coisa que só conquistou muitos anos depois.

Não contente em lançar os  heróis da DC no mercado brasileiro, a Ebal passou a trabalhar também com a outra gigante americana, a Marvel Comics, tornando-se ainda mais poderosa.



Para quem já dominava o mercado com Batman; Superman, e toda a Liga da Justiça da DC, agora a Ebal trazia na manga : Hulk; Capitão América; Thor; Homem de Ferro; Quarteto Fantástico; Homem Aranha; Namor, e todos os Vingadores do Universo Marvel.


Particularmente, minha história com a Ebal começou aí, em 1967, quando lançou no mercado os gibis dos cinco principais heróis Marvel, num esforço de marketing em conjunto com a fábrica de brinquedos Atma, e a rede de postos de gasolina, Shell.


Concomitante ao lançamento dos desenhos animados (ou "desanimados", como alguns gostam de enfatizar, pois foram concebidos com o mínimo de movimento, para justamente simular os quadrinhos dos gibis), na TV, essa campanha conjugada fez barulho na época.

O plano "diabólico"dos marqueteiros brasucas, previa que a cada abastecimento de gasolina (não me lembro a quantidade mínima, mas creio que eram 20 litros), nos postos Shell, o motorista ganhava um boneco de plástico de um herói Marvel.


Em 1967, o meu pai foi mais um, entre milhões de pais que foram atormentados por seus pequenos pedintes, esforçando-se a evitar abastecer o tanque do carro da família, em postos cuja bandeira não fosse da Shell...




E claro, tente explicar que um boneco só, é o suficiente para um pequeno colecionador Marvel, e você vai verificar que essa informação "não tem registro", como diria o nosso querido Robot de "Lost in Space"...

Nesse lançamento de 1967, a Ebal lançou de cada Super-Herói, a reprodução da sua origem, em edições muito bonitas.


Na década de setenta, a Ebal seguiu firme na dianteira desse nicho.

Porém, nos anos oitenta, infelizmente a editora mais querida dos fãs de quadrinhos, foi perdendo força.


Muitos itens foram sendo vendidos para a editora Abril; Maurício de Souza já estava consolidado no mercado; e pequenas editoras foram surgindo e dividindo as atenções.

Concomitantemente, o crescente aumento dos vídeo-games, e inclusão social na internet não diminuiu o interesse pelos quadrinhos, mas começou a minar a sua plataforma tradicional, impressa.


Reservadamente, Aizen confidenciava que estava desanimado com tais perspectivas e nesse embalo, a Ebal foi perdendo terreno.

No ano de 1991, Aizen faleceu, mas a Ebal tentou prosseguir com a condução dos filhos dele. Aliás, Paulo Adolfo e Naumin Aizen, já comandavam junto com seu pai, a empresa há muitos anos, com a participação também de Fernando Albagli.

A Ebal ainda publicaria algumas edições de luxo do Príncipe Valente, e investiu num nicho moderno, o dos mangás japoneses, mas em 1995, fechou as portas, definitivamente, encerrando uma história muito bonita no mercado editorial brasileiro.


O histórico edifício-sede, localizado no bairro de São Cristovão, no Rio de Janeiro, ainda abriga a gráfica que servia à Ebal. Mas hoje em dia, realiza apenas serviços particulares de pequena monta para os comerciantes e moradores do bairro.

Recentemente vi comentários na Internet, preocupados com a especulação imobiliária no bairro de São Cristovão, defendendo a ideia do tombamento do edifício, com seu melhor aproveitamento cultural para a comunidade (embora atualmente, a velha gráfica divida o espaço com uma escola).

Indico duas fontes de consulta para quem quiser esmiuçar ainda mais a história da Ebal : existe um Blog na Internet, conduzido por um abnegado historiador da Ebal, chamado Oscar, que é completíssimo.

Chama-se "Guia Ebal", e nele, o fã encontra informações sobre todos os lançamentos da editora, comentados e ricamente ilustrados.

O link é :  http://guiaebal.com/

Outra dica que deixo, existe um livro escrito por um pesquisador chamado Gonçalo Junior, chamado " A Guerra dos Gibis".


Nele, Gonçalo conta a história dos quadrinhos no Brasil, e a atuação de Adolfo Aizen e sua Ebal, tem um grande destaque.

Código do livro para consulta : ISBN 8535905820

Sou fã da Ebal, e agradeço ao senhor Adolfo Aizen, por toda alegria que proporcionou à milhares de crianças e adolescentes, por décadas, incluso eu mesmo.


6 comentários:

  1. Respostas
    1. Eu só posso lhe agradecer pela atenção e comentário tão positivo !

      O Blog é seu, visite-o sempre !

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    2. oi grande Luiz , muito legal mesmo .A Ebal Embalou nossa juventude tambem.Eu vim de MG( Alfenas) em 01/01/1970 e trouxe comigo uns 30 gibi de Hq ...so que onde fui morar a '''molecada''' nao li gibi e somente gostava mais de futebol....dai aquelo de todo fim de semana ir na praça para ''trocar''' os gibis , aqui em Sampa na zona sul ( no Campo Grande ) nao tinha isso...uma pena...Depois parei de comprar HQ para comecar a comprar o vinil de Rorckrolllll....ate hoje naoparei hehehehehehehe..vim com 15 anos para em 70.Mas meu filho tem GIBI e manga em todo que é lugar na minha casa e na casa dele (é casado) tb a Esposa vive falando para ele parar de comprar que nao tem mais lugar tambem ....rssssss...To sempre aprendendo e ouvindo sobre isso com ele...Ele tb tem o talento de desenhar e tem um blog doFreeky.....rsssss....Adoro o Pink Floyd ...ah a primeira reveista que comprei para ele foi a Revista """Heroi"""".=compraro como a grande POEIRA ZINE do Grande Bento Araujo...é isso ai...abraços a Banda PEDRA, trocadilho com o COISA da HQ....abraços

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    3. Vim parar aqui por indicação do meu pai (Oscar Gomes) quem sempre me falou do seu trabalho e também da coleção de coisas que vc tem.
      A matéria ficou muito bem escrita e pontuou todas as fases desta grande empresa EBAL. Eu não peguei esta fase, somente a seguinte da Abril Jovem, mas tenho algumas edições antigas da Ebal em casa e como um bom colecionador de quadrinhos, é sempre bom ter os clássicos também.
      Como meu pai falou, tem HQ pra todo que é lado em casa, rsrs... Minha paixão por quadrinhos foi algo natural, visto que desde pequeno sempre gostei de desenhar e de assistir aos desenhos animados da TV. Lembro de um dia meu pai chegar em casa com 2 HQs, uma do Homem-Aranha (O Melhor do H.A por Tood McFarlane nº 01) e uma do Wolverine (número 51, ambas da Editora Abril), este dia em diante não parei mais de colecionar. Também haviam as revistinhas Herói, da finada Editora Sampa... AH! Bons tempos.
      O legal, que falo pra todo mundo, é que as HQs conseguem misturar o melhor da literatura e transportar pra um visual parecido com dos filmes - a única coisa que falta é o SOM IMAGINÁRIO dos barulhos das cenas na nossa cabeça, hehehe.
      Mais uma vez parabéns e aí fica o link do meu Blog: http://tirinhasdofreeky.blogspot.com.br/

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    4. Oscar :

      Que história fantástica essa que me contou sobre sua vinda à São Paulo, bem no primeiro dia de 1970. Nessa época, a Ebal era muito poderosa, mesmo.

      Sua história é meio parecida com a minha, pois também era apaixonado por HQ, e o Rock me arrebatou posteriormente. Não deixei de curtir o HQ, mas o dinheiro curto me obrigou a escolher prioridades, e os discos de Rock passaram a predominar.

      Muito legal saber que passou essa paixão para o seu filho.

      E claro, sou colecionador e muito fã da Poeira Zine, também !!

      Obrigado por ler e comentar !!

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    5. André :

      Que fantástico saber que herdou de seu pai essa paixão pela HQ. Não tenho nenhum talento para o desenho, como você tem, mas entendo perfeitamente o impacto que a HQ imprimiu na sua vida.

      De fato, pela sua idade, a Ebal é muito remota, pois como bem observou, já no início dos anos 80, ela estava decadente e havia vendido suas franquias DC e Marvel para a Abril Cultural, que lançou então a Abril Jovem, abocanhando esse nicho do mercado.

      Tem razão, os quadrinhos são na verdade cinematográficos. O enquadramento é semelhante, e não é à toa que toda a pré-produção audiovisual usa a chamada "Storyboard", que nada mais é que o filme transcrito em HQ, para os produtores planejarem tudo.

      Muito grato por ler e comentar com essa riqueza de informações.

      Visitarei seu Blog com muito prazer !!

      Grande abraço !

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