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sexta-feira, 15 de março de 2024

CD: Os Loucos/Vitral - Por Luiz Domingues

O Rock progressivo é uma das mais belas vertentes que o Rock produziu, desde sempre. A sua grandiosidade musical, somado à densidade artística com a qual se revestiu ao longo dos tempos, é inquestionável. 

É bem verdade que a fase áurea desse estilo deu-se na década de setenta, quando floresceu principalmente na Europa (detidamente na Inglaterra, Itália e Alemanha), mas na verdade, frutificou pelo mundo inteiro e o Brasil não ficou de fora de tal onda magnífica ao dar margem para uma infinidade de artistas geniais que beberam dessa fonte e daí em diante, produziram obras incríveis.

Entretanto, mesmo com menor abertura nos meios midiáticos, tal escola seguiu viva através de abnegados aficionados que a perpetuou após esse auge e assim, é com alegria que eu acompanho que o estilo vive e segue a produzir obras bastante expressivas, a honrar as suas mais belas tradições.

Um ótimo exemplo nesse sentido vem do grupo, "Vitral", que se propôs a trabalhar com o conceito instrumental e que foi formado em 1983, no Rio de Janeiro, pelos músicos:

Claudio Dantas - bateria e percussão
Eduardo Aguillar - baixo, teclados e guitarra
Elisa Wiermann - teclados
Luis Bahia - guitarra e baixo

Segue abaixo a história da banda expressa em seu próprio release:

A banda ficou aproximadamente dois anos em atividade e pouquíssimos registros existem desta época. Em 2015, graças a algumas partituras, raras fotos e fitas cassete com gravações domésticas encontradas em seu velho arquivo, Eduardo Aguillar teve a ideia de produzir um álbum com músicas compostas para a banda.

O que seria um trabalho solo se transformou no desejo de unir os antigos integrantes para participarem do projeto. Proposta imediatamente abraçada por Claudio Dantas, partiram para as gravações de teclados, baixo e bateria. Os resultados começaram a surgir e as velhas músicas brotavam das cinzas.

Claudio propôs então relançar a banda para shows e novas produções. Chegava a hora de reconstruir o grupo com renovadas experiências e inspirações para, inclusive, concluir as gravações do que já tomava forma de álbum.

Vitral – 2016/2018

Um ano após a revirada dos velhos arquivos, o Vitral voltou com músicos que, além de participarem de outras bandas e/ou realizarem seus trabalhos solos, resolveram também fazer parte dessa nova história do rock progressivo nacional.

Assim nasceu "Entre as estrelas", primeiro álbum da banda, lançado em 2017 pelo selo Masque Records. Completamente instrumental, o álbum traz uma mistura de influências e inspirações em três músicas, sendo uma delas, a faixa título, uma suíte de 52 minutos dividida em treze movimentos.

"Entre as estrelas" foi muito bem recebido pela crítica e público no Brasil e no mundo, mediante a seguinte formação:

Claudio Dantas - bateria e percussão (Quaterna Réquiem/cofundador do Vitral)
Eduardo Aguillar - teclados e baixo (solo/cofundador do Vitral)
Luiz Zamith - guitarra e violão (Ícones do Progressivo/solo)
Marcus Moura - flautas (Bacamarte/solo)
Vítor Trope - baixo nos shows (Orquestra Rio Camerata)

Em 2018, após dois shows para o lançamento do álbum, no Rio de Janeiro, várias mudanças foram acontecendo no mundo e também no Vitral. Junto com as mudanças, a ideia de um novo álbum, agora com músicas atuais, começava a nascer e, já no final do ano, ele já estava praticamente todo desenhado.

"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos
por aqueles que não podiam escutar a música
".

Friedrich Nietzsche

Vitral - 2023

Comemorando os 40 anos da primeira formação da banda e depois de cerca de 5 anos de maturação, chega, enfim, o novo álbum do Vitral.

"Os Loucos" é um projeto criativo que traz o que de melhor poderíamos ouvir atualmente dentro do cenário do rock progressivo instrumental. Em função da sua riqueza e multiplicidade, o novo trabalho certamente agradará aos mais exigentes amantes da música progressiva. 

Em cada faixa, uma surpresa sonora agradável. As músicas passeiam por várias nuances. Ora um vigoroso solo de guitarra com o aporte de uma bateria nervosa, ora suaves solos introspectivos de flauta, instrumento presente em todas as faixas.

Embora o som seja instrumental, as músicas de uma forma subjetiva revelam situações simbólicas, históricas e místicas. Os títulos já nos induzem a viajar por variados contextos. “Reinos do Norte”, “Sete Povos das Missões”, “Nas Asas de Horus”, “Montezuma”, “Via Appia”, “O Grande Exército Pagão”…

Para essa gravação, o cofundador da banda, Eduardo Aguillar (teclados e baixo), reuniu um time de primeira: Bruno Moscatiello (Nataraj/Kaoll/solo), na guitarra/violão, e Marco Aurêh (LummeN/Palma/solo), nas flautas, formam o núcleo do Vitral,
Gustavo Miorim, músico, produtor e mestre de bateria em São Paulo, completa o elenco como músico convidado. "Os Loucos" foi lançado dia 30 de agosto na página da banda no Bandcamp, plataforma online para artistas independentes. Anote o endereço: (www.vitralband.bandcamp.com)

Eu gostei muito do release que a banda providenciou, pois contém o histórico muito bem escrito e ao ir além, possui uma visão artística da obra em si, ou seja, com tal abordagem, eu penso que esse documento oficial da parte da banda contém um poderio sintético excelente e certamente atende bem o meu público leitor e muito interessado na audição de um trabalho desse quilate. 

Claudio Aguillar, membro fundador do "Vitral", tecladista e baixista. Fonte: Site Rock Stage Brasil

Claro que com tal adendo do release oficial da banda, foi muito facilitada a minha criação de resenha, através desse manancial de muita informação e assertividade contida no release oficial da banda. Todavia, me permito acrescentar alguns apontamentos pessoais. 

Para início de conversa, eu concordo com o texto do release, no sentido de que a banda produz um som que provoca aos seus ouvintes, imagens riquíssimas. Nesse sentido, não há nada mais "progressivo" enquanto conceito de "Art-Rock", que busca aprofundar sempre qualquer discussão em torno dos conceitos propostos, a usar a música (e vice-versa), para exibir forte conteúdo cultural. Isso é uma das marcas registradas do Rock Progressivo e o Vitral se mostra signatário dessa predisposição.

Nesses termos, exatamente como foi assinalado no release, os títulos das canções já denotam a dimensão de seu propósito nobre, ao buscar a abordagem de assuntos profundos, sob uma roupagem etérea. As músicas nos levam aos mistérios secretos do antigo Egito, às tradições dos povos pré-colombianos, a acompanhar as andanças dos jesuítas pelo sul do Brasil, as sagas perpetradas pelos povos nórdicos e da antiguidade romana entre outros temas.

O guitarrista/violonista, Bruno Moscatiello, grande nome do moderno Rock Progressivo brasileiro. Fonte: Site Rock Stage Brasil

Sob o ponto de vista estritamente musical, não há o que acrescentar, mediante uma robustez dessa monta. Eduardo Aguillar, o membro fundador, reuniu um novo time absolutamente espetacular, formado por músicos de altíssimo gabarito e sobretudo, coadunados com a estética do Rock Progressivo e assim, ao comungar dos mesmos valores, tudo fluiu de uma maneira magnífica.

A respeito da arte da capa, também gostei muito. A ilustração a mostrar seres com ares mitológicos a sustentar um vitral que insinua-se como um portal extra-dimensional e dele a emergir a figura de um outro ser, desta feita feminino, ou seja, uma mulher absolutamente fluídica a denotar ser a representação de uma força maior.
Simbolismo muito interessante, portanto, ao propor a construção de uma egrégora com alto poder energético a ditar o conceito da transformação em via de regra. E sim, é muito bonita tal arte final da parte do desenhista. 

O excelente flautista, Marco Aurêh, também bastante conhecido na cena progressiva contemporânea. Fonte: Site Stage Rock Brasil

Sobre as músicas do álbum, tenho mais algumas observações pontuais a acrescentar. Reforço o link do portal "Bandcamp" para que o leitor leia os apontamentos individualizados sobre as músicas enquanto as escuta:

Acesse o CD "Os Loucos" do Vitral:
www.vitralband.bandcamp.com

1) O grande exército pagão

Tema que se inicia épico, com o sintetizador a emular trombetas militares e a denotar uma marcha triunfal. Com inúmeras passagens extremamente melódicas, tem o elemento da doçura assegurado, com partes delicadas propostas pela flauta e outras mais contundentes mediante a guitarra a imprimir peso, e neste caso lembrou-me o Prog-Rock italiano em diversos aspectos.

2) Ciclopes

Esse tema se inicia em meio a um conjunto de acentuações em forma de convenções e logo a seguir propõe o staccato a demarcar bem a fórmula de compasso adotada. São belíssimos os timbres de todos os instrumentos, bem coadunados com o adorável padrão setentista.

3)  Via Appia

O começo grandioso e dramático a insinuar uma ária operística abre campo para uma suíte tipicamente "prog", ou seja, mediada por várias partes e mais uma vez a apresentar melodias muito belas.

A parte mais calma com o piano a flauta a trabalhar juntos, é incrível. O ouvinte é convidado a flutuar junto com a banda, certamente. É ótimo o timbre e linha de baixo. Um pequeno trecho a insinuar contraponto dá espaço logo a seguir para uma levada alegre e permeada por um belo solo de guitarra. 

Advém uma parte bem "glacial", naquela predisposição do "Space-Rock" e a posteriori, um solo de flauta extremamente doce. Criatividade e bom gosto de mãos dadas. E a música se encerra com uma parte mais acelerada e extremamente jovial. 

4) Sete povos das missões

É muito bonita a introdução, com o sintetizador a carregar no timbre setentista clássico. Mais uma vez a flauta conduz uma bela melodia com ares campestres e assim a música vai a se desenvolver mediante a mescla de partes calmas e mais agitadas.

Há um violão muito bonito, que atua bem rapidamente e dá espaço para os teclados mais densos e em seguida uma parte mais agressiva advém, embora seja também rápida.

Gostei de uma parte que insinuou influência indígena, acentuada pela divisão rítmica e auxiliada pela percussão. E o violão fecha com muita beleza a canção, auxiliado pela flauta.

5) Reinos do Norte

Tema com muita pompa sinfônica na sua abertura, mostra uma linha melódica deveras bonita feita pelo sintetizador. 

O elemento medieval se faz presente com grande felicidade, ao lembrar bandas Folk-Prog-Rock setentistas que trabalharam com tal sonoridade mediante extrema destreza e o Vitral honrou tais tradições, com muitos méritos.

É muito bom o trabalho de guitarra, com destaque também para a linha de bateria, que é excelente. E o tema fecha com a mesma grandiosidade do seu início.

6) Montezuma

Achei incrível a guitarra que ponteia uma melodia com notas longas a evocar algo misterioso, mas ao mesmo tempo, muito forte, a denotar uma verdade secreta, muito provavelmente guardada a sete chaves dentro de uma pirâmide asteca.

Gostei muito das partes posteriores, a prover uma grande quantidade de levadas, umas diferentes das outras, bem no conceito do Prog-Rock setentista, a usar e abusar da dinâmica, com muita sapiência.

Além do mais, a conter grandes momentos individuais ao apresentar muita intervenção da flauta, teclados a experimentar timbres diversos (e todos clássicos do gênero), e claro, da guitarra.

7) Nas asas de Horus

Tema curto, mas muito bonito, conduzido pelo piano e flauta, contém uma pontual participação do violão e sutil percussão.  

Ao ouvir esse tema, a imaginação nos leva até Horus que literalmente nos conduz a sobrevoar o Vale dos Reis e exatamente como deveria ser, a visão é espetacular.

8) Os loucos

Tema que se inicia com grande contundência, usa do recurso da quebra brusca de clima ao propor mudança de dinâmica sistemáticas e assim, apresentar um mosaico de emoções dispares entre si para o ouvinte degustar. 

Dessa forma, dos momentos mais tenros à dramaticidade de outros, da reflexão mais cerebral ao ritmo mais pulsante, somos levados a adentrar uma forte emoção caleidoscópica das mais memoráveis.
"Loucura pouca é bobagem", teria dito um famoso Rocker tupiniquim de outrora e claro que ele estava certo! Viva a imersão livre que o Rock progressivo nos proporciona ao experimentarmos a loucura em doses maciças. Viva a loucura! 

Para encerrar, digo que o CD "Os Loucos" da banda de Rock Progressivo, "Vitral", é muito recomendado para ser ouvido com a máxima atenção e tenho certeza, o leitor/ouvinte vai apreciar sobremaneira tal experiência sonora. O seu fiel aporte às tradições do Rock Progressivo clássico é admirável. E no aspecto da qualidade da banda, trata-se de algo muito cristalino, na minha opinião.

Ficha técnica       
CD Os Loucos - Vitral
Produzido por VITRAL
Músico convidado: Gustavo Miorim - bateria
Quadro da capa: Claudio Dantas - @claudiodantaspainter
Mixado e masterizado no Laboratório Pedra Branca, Rio de Janeiro, Brasil
Apoio: A BELA MÚSICA/KAZA 8
Músicas compostas e arranjadas por Eduardo Aguillar

Para conhecer mais o trabalho do Vitral, acesse:

Vitral - Canal de YouTube:
https://www.youtube.com/@vitral-musicaprogressivain655/videos

Vitral no Prog Archives:
https://www.progarchives.com/artist.asp?id=10387

Vitral - Facebook:
https://www.facebook.com/bandavitral

Vitral  - Matéria no RockStage Brasil:
https://rockstage.com.br/rock-progressivo-banda-vitral-celebra-40-anos-e-lanca-o-album-os-loucos/ 

sábado, 10 de agosto de 2019

CD Brazilian Progressive Rock Soundtrack Volume 1 - Rio de Lágrimas / Bruno Moscatiello - Por Luiz Domingues


 
Eis aqui um exemplo impressionante de uma obra que se fosse apreciada de uma maneira isolada, já seria por si só, excepcional, no entanto, este trabalho faz parte de um conglomerado portentoso, e não apenas expresso pelo seu aspecto musical, ou seja, dessa forma mostra uma substância cultural multifacetada e muito rica.


Para explicar do que trata-se exatamente esse álbum, é preciso destacar que toda a inspiração musical nele advinda, vem de encontro com o pensamento filosófico de Renato Shimmi, um pesquisador muito sério no meio acadêmico, daí a sua sólida proposta em termos de mote. Não obstante tal estrutura intelectual fortíssima, há também o aparato ilustrativo, assinado por dois desenhistas incríveis, mestres na arte dos quadrinhos, Zé Otávio e Glaucus Noia. 

Na parte musical, uma parte é preenchida pelo trabalho do excepcional guitarrista, Bruno Moscatiello, cercado por músicos convidados (todos do mais alto calibre, entre eles, alguns históricos dentro da cena do Rock Brasileiro), e a sua conclusão dá-se com a intervenção do grupo Kaoll, um grande nome do cenário moderno do Rock Progressivo, e grupo esse em que Bruno Moscatiello, também é integrante.
Cabe explicar também, que das onze faixas que constam neste álbum coletânea, seis são oriundas do álbum : “Sob os Olhos de Eva”, do grupo Kaoll, daí a ideia do elo que complementa o conceito em torno da obra como um todo. 

Como o CD do Kaoll já foi devidamente resenhado em meu Blog, deixo abaixo o link para que o leitor tome conhecimento do que foi analisado dessa obra em separado do contexto maior, e assim, posteriormente eu avanço para repercutir a parte inicial da coletânea, com a obra: “Rio das Lágrimas”, assinada por Bruno Moscatiello e a contar com a presença de diversos convidados, muito especiais.

Eis o Link para acessar a resenha sobre o CD: “Sob Os Olhos de Eva”, do Kaoll: 

http://luiz-domingues.blogspot.com/2018/06/cd-sob-os-olhos-de-eva-kaoll-por-luiz.html 

Sobre as canções que compõem a parte da obra denominada, “Rio das Lágrimas”, trata-se de um conjunto formado por cinco temas instrumentais, a observar uma excelência musical inquestionável e nesse caso, não é uma surpresa, por motivos óbvios, ao considerar-se os músicos aqui reunidos para cumprir tal missão. 

O elo com a obra posterior, assumida pelo grupo Kaoll, é total em termos de linearidade musical, embora haja uma sutil linha divisória a delinear cada trabalho. E isso ocorre não apenas por uma questão de coerência, se analisada pelo aspecto musical tão somente, mas certamente a seguir o libreto proposto pelo ensaio filosófico escrito por Renato Shimmi e devidamente embasado, visualmente, neste caso em específico, pela arte em quadrinhos assinada por Glaucus Noia. 

A história trata da representação simbólica em torno de uma fábula muito bem embasada, a repercutir sutilmente um assunto vital, mas que não é necessariamente absorvido pela grande massa dentro da sociedade. Ou seja, a questão estrutural em torno da geopolítica que dita as normas no mundo, a usar de força desmedida, geralmente, para atingir os seus objetivos. Nesses termos, o belíssimo livro a apresentar o acompanhamento dessa fábula em quadrinhos, reforça e muito a força do texto. 

Portanto, ao lançar a ideia em contar com a palavra, o som e a ilustração, em união para provocar deliberadamente a percepção sensorial do público, mostra-se perfeita, como estratégia. Dessa maneira, quando a própria editora usa como slogan publicitário, a frase de efeito a subverter a ordem natural dos sentidos: “ouvir o texto, ver a música e ler as ilustrações”, creio que revela-se muito feliz em exprimir a proposta deste projeto.  

Ouça abaixo, um resumo sobre as faixas da parte "Rio de Lágrimas":

https://www.youtube.com/watch?v=WpT7qmS5Nu4

Sobre a parte musical de “Rio das Lágrimas”, cabe uma reflexão sobre as faixas:

“O Acordo”

Mostra-se impressionante o som do órgão de igreja, algo que há tempos eu não escutava em trabalhos modernos dentro do Rock brasileiro, nem mesmo em termos progressivos. Tal grandiloquência a evocar o conceito sinfônico, ornou muito bem, portanto. Assim como o uso de instrumentos de percussão, geralmente usados na música erudita e que foram bem utilizados por bandas clássicas do Rock Progressivo setentista, como os tímpanos e o tubullar bells. Em alguns momentos, a música assumiu um caráter cinematográfico, eu diria, pois abriu um campo auditivo capaz de propor imagens e assim reforçar certamente o conceito expresso pela obra em ser uma mistura sensorial entre as palavras, ilustrações e notas musicais.

“Batalha dos Minotauros”

A ideia de trazer um tipo de fraseado que lembrou um pouco as tradições da música Folk mexicana, pareceu-me interessante, mesmo que não haja na ficha técnica, anotada a participação de algum trompetista para tal execução, o que seria o usual em tal tipo de citação. O solo lento da guitarra, na perfeita exploração de notas longas, ficou muito bonito. Gostei muito da linha rítmica estabelecida pelo baixo e bateria.
“Rio de Lágrimas”

Mais uma intervenção de uma guitarra a explorar as notas longas, ou como costumamos chamar, no jargão musical, como “solo chorado”. Achei muito bonita a linha do baixo e a percussão muito criativa. A observação de diversas pontes entre as partes, dignificou as tradições do Rock Progressivo e enriqueceu o arranjo, obviamente. A presença de um belo solo de violão, dividido com outro ao sintetizador, mostra mais do que a destreza da parte dos instrumentistas, mas também revela uma beleza ímpar. Há também inserções em torno da polimelodia, e mais dois solos muitos bons ao final do tema, desta feita da parte de uma guitarra e igualmente do sintetizador.

“Morte do Sonho”

Gostei bastante da base harmônica estabelecida pelos teclados, com um teor lúgubre, tenso, no entanto, pleno em beleza. A presença de um belo solo lento à guitarra e também de um arranjo a privilegiar o violão, que engrandeceu a música.
“O Último Ato”

Mais uma vez é destacada a digitação ao violão. Gostei muito (mais uma vez) da linha de baixo e bateria e do peso estabelecido pelos teclados. Uma rápida passagem pelo piano, ficou muito bonita a destacar um belo timbre. 

Em uma outra determinada parte, a música adquiriu um caráter sinfônico, a mesclar-se com um violão muito balançado, a propor uma parte dançante, até, por incrível que pareça. Há mais um belo solo de guitarra a acontecer, com a bateria e o baixo e pontuar uma linha com muito “groove”. E encerra-se com uma boa convenção, toda tercinada em sua divisão rítmica.

Sobre a capa do CD coletânea, “Brazilian Progressive Rock Soundtrack Volume 1”, há uma mixagem das imagens do livro de história em quadrinhos que acompanha o disco, com as imagens propostas no CD “Sob os Olhos de Eva”, do Kaoll, que também faz parte do pacote completo. 

No caso da parte assinada por Bruno Moscatiello e de seus convidados, denominada como: “Rio das Lágrimas”, o trabalho do desenhista, Glaucus Noia é magnífico. A arte final foi creditada ao coletivo cultural, Sopa Art Br. 

Uma boa ficha técnica é disponibilizada através de um caprichado encarte, com o texto em inglês, naturalmente idealizado como uma estratégia a buscar-se o reconhecimento internacional desta obra.


Para encerrar, recapitulo ao leitor que este CD é conceitual em torno do ensaio filosófico concebido pelo filósofo, Renato Shimmi. 

A parte inicial da obra musical, em torno das cinco primeiras faixas, chamada como: “Rio de Lágrimas”, é um esforço criativo do guitarrista, Bruno Moscatiello, na companhia de muitos músicos convidados. Da sexta à décima primeira faixa, assume a batuta do disco, o grupo “Kaoll”, a expressar a obra: “Sob os Olhos de Eva”. 

No cômputo geral, em termos de texto, trata-se na verdade de um único conceito, dividido em duas partes e escrito por Shimmi.

Na parte gráfica, o primeiro livro apresenta ilustrações de Zé Otávio e no segundo, são da autoria de Glaucus Noia. É notória a diferença de estilos entre tais artistas e ambos são excepcionais. Aliás, digno de nota, o luxo do acabamento gráfico, impressiona. 

Está de parabéns a editora Red Clown, em conjunto com o coletivo Sopa Art Br e da gravadora Masque, pois no cômputo geral, todos os produtos são apresentados com um alto teor de qualidade, mediante a observação de um material de primeira categoria, com nível internacional. 


E sobre a proposta filosófica expressa pelo pensador, Renato Shimmi, esta fábula mostra-se muito rica. Se o leitor & ouvinte prestar atenção, ele haverá por identificar muito claramente o que é dominação mediante a estratégia do domínio dos recursos energéticos vitais. Em termos físicos, seria a tática do estrangulamento, que impossibilita a reação e por conseguinte, estabelece quem domina e quem será sempre dominado. Portanto, transposto diretamente à realidade que norteia-nos, exprime o que está em jogo na acirrada disputa geopolítica exercida em nosso mundo.

Foi gravado no estúdio, Brainless Brothers Studio, em São Paulo.
Masterização no estúdio Sabatt Studio
Técnico de som (captura e mixagem): Fabio Ribeiro
Masterização: Saulo Battesini
Texto: Renato Shimmi
Ilustrações: Glaucus Noia
Arte Final: Sopa Art
Livro HQ editado pela Red Clown
Gravadora Masque Records

Músicos:
Bruno Moscatiello: Guitarra; violão e teclados
Kleber Vogel: Violino
Saulo Battesini: Teclados
Claudio Dantas: Percussão
Eduardo Aguilar: Baixo
Edu Varallo: Percussão
Nana Mathias: Violino
Erico Jones: Baixo
Fred Barley: Bateria
Fabio Ribeiro: Teclados
Willy Verdaguer : Baixo
Tainan Cristina: Cello

Para saber mais sobre o livro HQ/comics que acompanha este CD (assim como o livro que acompanha a parte da obra creditada ao Kaoll, “Sob os Olhos de Eva - Revoluções”, com mais ênfase ao texto do pensador, Renato Shimmi, e a conter ilustrações de Zé Otávio), acesse o site da editora Rede Clown: 

www.redcolwn.com.br 

Para saber mais informações sobre o CD, acesse o site da gravadora Masque Records: 

www.masquerecords.com 

Para conhecer melhor o trabalho do grupo Kaoll e do seu guitarrista, Bruno Moscatiello, acesse: 

Página do Kaoll no Facebook: 
https://www.facebook.com/kaoll/ 

Site oficial do Kaoll: 
www.kaoll.com 

Canal do Kaoll no You Tube: 
https://www.youtube.com/user/drguitarra 

Para conhecer o trabalho do ilustrador, Zé Otávio, acesse o seu Site: 
www.zeotavio.com 

Para conhecer o trabalho do ilustrador, Glaucus Noia (que também é um ator e poeta), acesse o seu site: 

https://estudioamao.wixsite.com/glaucusnoia