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sábado, 10 de agosto de 2019

CD Brazilian Progressive Rock Soundtrack Volume 1 - Rio de Lágrimas / Bruno Moscatiello - Por Luiz Domingues


 
Eis aqui um exemplo impressionante de uma obra que se fosse apreciada de uma maneira isolada, já seria por si só, excepcional, no entanto, este trabalho faz parte de um conglomerado portentoso, e não apenas expresso pelo seu aspecto musical, ou seja, dessa forma mostra uma substância cultural multifacetada e muito rica.


Para explicar do que trata-se exatamente esse álbum, é preciso destacar que toda a inspiração musical nele advinda, vem de encontro com o pensamento filosófico de Renato Shimmi, um pesquisador muito sério no meio acadêmico, daí a sua sólida proposta em termos de mote. Não obstante tal estrutura intelectual fortíssima, há também o aparato ilustrativo, assinado por dois desenhistas incríveis, mestres na arte dos quadrinhos, Zé Otávio e Glaucus Noia. 

Na parte musical, uma parte é preenchida pelo trabalho do excepcional guitarrista, Bruno Moscatiello, cercado por músicos convidados (todos do mais alto calibre, entre eles, alguns históricos dentro da cena do Rock Brasileiro), e a sua conclusão dá-se com a intervenção do grupo Kaoll, um grande nome do cenário moderno do Rock Progressivo, e grupo esse em que Bruno Moscatiello, também é integrante.
Cabe explicar também, que das onze faixas que constam neste álbum coletânea, seis são oriundas do álbum : “Sob os Olhos de Eva”, do grupo Kaoll, daí a ideia do elo que complementa o conceito em torno da obra como um todo. 

Como o CD do Kaoll já foi devidamente resenhado em meu Blog, deixo abaixo o link para que o leitor tome conhecimento do que foi analisado dessa obra em separado do contexto maior, e assim, posteriormente eu avanço para repercutir a parte inicial da coletânea, com a obra: “Rio das Lágrimas”, assinada por Bruno Moscatiello e a contar com a presença de diversos convidados, muito especiais.

Eis o Link para acessar a resenha sobre o CD: “Sob Os Olhos de Eva”, do Kaoll: 

http://luiz-domingues.blogspot.com/2018/06/cd-sob-os-olhos-de-eva-kaoll-por-luiz.html 

Sobre as canções que compõem a parte da obra denominada, “Rio das Lágrimas”, trata-se de um conjunto formado por cinco temas instrumentais, a observar uma excelência musical inquestionável e nesse caso, não é uma surpresa, por motivos óbvios, ao considerar-se os músicos aqui reunidos para cumprir tal missão. 

O elo com a obra posterior, assumida pelo grupo Kaoll, é total em termos de linearidade musical, embora haja uma sutil linha divisória a delinear cada trabalho. E isso ocorre não apenas por uma questão de coerência, se analisada pelo aspecto musical tão somente, mas certamente a seguir o libreto proposto pelo ensaio filosófico escrito por Renato Shimmi e devidamente embasado, visualmente, neste caso em específico, pela arte em quadrinhos assinada por Glaucus Noia. 

A história trata da representação simbólica em torno de uma fábula muito bem embasada, a repercutir sutilmente um assunto vital, mas que não é necessariamente absorvido pela grande massa dentro da sociedade. Ou seja, a questão estrutural em torno da geopolítica que dita as normas no mundo, a usar de força desmedida, geralmente, para atingir os seus objetivos. Nesses termos, o belíssimo livro a apresentar o acompanhamento dessa fábula em quadrinhos, reforça e muito a força do texto. 

Portanto, ao lançar a ideia em contar com a palavra, o som e a ilustração, em união para provocar deliberadamente a percepção sensorial do público, mostra-se perfeita, como estratégia. Dessa maneira, quando a própria editora usa como slogan publicitário, a frase de efeito a subverter a ordem natural dos sentidos: “ouvir o texto, ver a música e ler as ilustrações”, creio que revela-se muito feliz em exprimir a proposta deste projeto.  

Ouça abaixo, um resumo sobre as faixas da parte "Rio de Lágrimas":

https://www.youtube.com/watch?v=WpT7qmS5Nu4

Sobre a parte musical de “Rio das Lágrimas”, cabe uma reflexão sobre as faixas:

“O Acordo”

Mostra-se impressionante o som do órgão de igreja, algo que há tempos eu não escutava em trabalhos modernos dentro do Rock brasileiro, nem mesmo em termos progressivos. Tal grandiloquência a evocar o conceito sinfônico, ornou muito bem, portanto. Assim como o uso de instrumentos de percussão, geralmente usados na música erudita e que foram bem utilizados por bandas clássicas do Rock Progressivo setentista, como os tímpanos e o tubullar bells. Em alguns momentos, a música assumiu um caráter cinematográfico, eu diria, pois abriu um campo auditivo capaz de propor imagens e assim reforçar certamente o conceito expresso pela obra em ser uma mistura sensorial entre as palavras, ilustrações e notas musicais.

“Batalha dos Minotauros”

A ideia de trazer um tipo de fraseado que lembrou um pouco as tradições da música Folk mexicana, pareceu-me interessante, mesmo que não haja na ficha técnica, anotada a participação de algum trompetista para tal execução, o que seria o usual em tal tipo de citação. O solo lento da guitarra, na perfeita exploração de notas longas, ficou muito bonito. Gostei muito da linha rítmica estabelecida pelo baixo e bateria.
“Rio de Lágrimas”

Mais uma intervenção de uma guitarra a explorar as notas longas, ou como costumamos chamar, no jargão musical, como “solo chorado”. Achei muito bonita a linha do baixo e a percussão muito criativa. A observação de diversas pontes entre as partes, dignificou as tradições do Rock Progressivo e enriqueceu o arranjo, obviamente. A presença de um belo solo de violão, dividido com outro ao sintetizador, mostra mais do que a destreza da parte dos instrumentistas, mas também revela uma beleza ímpar. Há também inserções em torno da polimelodia, e mais dois solos muitos bons ao final do tema, desta feita da parte de uma guitarra e igualmente do sintetizador.

“Morte do Sonho”

Gostei bastante da base harmônica estabelecida pelos teclados, com um teor lúgubre, tenso, no entanto, pleno em beleza. A presença de um belo solo lento à guitarra e também de um arranjo a privilegiar o violão, que engrandeceu a música.
“O Último Ato”

Mais uma vez é destacada a digitação ao violão. Gostei muito (mais uma vez) da linha de baixo e bateria e do peso estabelecido pelos teclados. Uma rápida passagem pelo piano, ficou muito bonita a destacar um belo timbre. 

Em uma outra determinada parte, a música adquiriu um caráter sinfônico, a mesclar-se com um violão muito balançado, a propor uma parte dançante, até, por incrível que pareça. Há mais um belo solo de guitarra a acontecer, com a bateria e o baixo e pontuar uma linha com muito “groove”. E encerra-se com uma boa convenção, toda tercinada em sua divisão rítmica.

Sobre a capa do CD coletânea, “Brazilian Progressive Rock Soundtrack Volume 1”, há uma mixagem das imagens do livro de história em quadrinhos que acompanha o disco, com as imagens propostas no CD “Sob os Olhos de Eva”, do Kaoll, que também faz parte do pacote completo. 

No caso da parte assinada por Bruno Moscatiello e de seus convidados, denominada como: “Rio das Lágrimas”, o trabalho do desenhista, Glaucus Noia é magnífico. A arte final foi creditada ao coletivo cultural, Sopa Art Br. 

Uma boa ficha técnica é disponibilizada através de um caprichado encarte, com o texto em inglês, naturalmente idealizado como uma estratégia a buscar-se o reconhecimento internacional desta obra.


Para encerrar, recapitulo ao leitor que este CD é conceitual em torno do ensaio filosófico concebido pelo filósofo, Renato Shimmi. 

A parte inicial da obra musical, em torno das cinco primeiras faixas, chamada como: “Rio de Lágrimas”, é um esforço criativo do guitarrista, Bruno Moscatiello, na companhia de muitos músicos convidados. Da sexta à décima primeira faixa, assume a batuta do disco, o grupo “Kaoll”, a expressar a obra: “Sob os Olhos de Eva”. 

No cômputo geral, em termos de texto, trata-se na verdade de um único conceito, dividido em duas partes e escrito por Shimmi.

Na parte gráfica, o primeiro livro apresenta ilustrações de Zé Otávio e no segundo, são da autoria de Glaucus Noia. É notória a diferença de estilos entre tais artistas e ambos são excepcionais. Aliás, digno de nota, o luxo do acabamento gráfico, impressiona. 

Está de parabéns a editora Red Clown, em conjunto com o coletivo Sopa Art Br e da gravadora Masque, pois no cômputo geral, todos os produtos são apresentados com um alto teor de qualidade, mediante a observação de um material de primeira categoria, com nível internacional. 


E sobre a proposta filosófica expressa pelo pensador, Renato Shimmi, esta fábula mostra-se muito rica. Se o leitor & ouvinte prestar atenção, ele haverá por identificar muito claramente o que é dominação mediante a estratégia do domínio dos recursos energéticos vitais. Em termos físicos, seria a tática do estrangulamento, que impossibilita a reação e por conseguinte, estabelece quem domina e quem será sempre dominado. Portanto, transposto diretamente à realidade que norteia-nos, exprime o que está em jogo na acirrada disputa geopolítica exercida em nosso mundo.

Foi gravado no estúdio, Brainless Brothers Studio, em São Paulo.
Masterização no estúdio Sabatt Studio
Técnico de som (captura e mixagem): Fabio Ribeiro
Masterização: Saulo Battesini
Texto: Renato Shimmi
Ilustrações: Glaucus Noia
Arte Final: Sopa Art
Livro HQ editado pela Red Clown
Gravadora Masque Records

Músicos:
Bruno Moscatiello: Guitarra; violão e teclados
Kleber Vogel: Violino
Saulo Battesini: Teclados
Claudio Dantas: Percussão
Eduardo Aguilar: Baixo
Edu Varallo: Percussão
Nana Mathias: Violino
Erico Jones: Baixo
Fred Barley: Bateria
Fabio Ribeiro: Teclados
Willy Verdaguer : Baixo
Tainan Cristina: Cello

Para saber mais sobre o livro HQ/comics que acompanha este CD (assim como o livro que acompanha a parte da obra creditada ao Kaoll, “Sob os Olhos de Eva - Revoluções”, com mais ênfase ao texto do pensador, Renato Shimmi, e a conter ilustrações de Zé Otávio), acesse o site da editora Rede Clown: 

www.redcolwn.com.br 

Para saber mais informações sobre o CD, acesse o site da gravadora Masque Records: 

www.masquerecords.com 

Para conhecer melhor o trabalho do grupo Kaoll e do seu guitarrista, Bruno Moscatiello, acesse: 

Página do Kaoll no Facebook: 
https://www.facebook.com/kaoll/ 

Site oficial do Kaoll: 
www.kaoll.com 

Canal do Kaoll no You Tube: 
https://www.youtube.com/user/drguitarra 

Para conhecer o trabalho do ilustrador, Zé Otávio, acesse o seu Site: 
www.zeotavio.com 

Para conhecer o trabalho do ilustrador, Glaucus Noia (que também é um ator e poeta), acesse o seu site: 

https://estudioamao.wixsite.com/glaucusnoia

segunda-feira, 4 de junho de 2018

CD Sob os Olhos de Eva / Kaoll - Por Luiz Domingues


Eu fico abismado quando observo manifestações oriundas da parte de diversas pessoas através das redes sociais da internet, a lastimar o estado degradante em que encontra-se o panorama da música e da arte em geral nesta atualidade de fim dos anos dez, do século XXI. 

A reclamação procede em linhas gerais, porém, existe um aspecto que também é evidente, a dar conta de que as mesmas pessoas que reclamam o tempo todo, não percebem ou não querem perceber, que tal panorama desfavorável não é motivado pela escassez de artistas expressivos e que tenham algo relevante a acrescentar para o espectro cultural da sociedade. 

Não é o caso aqui para estender tal reflexão, então para resumir, acrescento que a degradação não passa pela falta de artistas com qualidade e principalmente através do seu sincero desejo em dar o seu recado bem embasado, mas simplesmente por haver um vergonhoso monopólio na difusão cultural mainstream a proibi-los, veladamente, ao seu livre acesso e por conseguinte, atingir o grande público. Portanto, artistas incríveis, temos em profusão, todavia, simplesmente eles não estão nos programas popularescos da TV, não são convidados a ceder as suas obras para alimentar as trilhas das novelas e a sua música não toca nas emissoras de rádio, oficiais. Apenas isso...

É o caso do Kaoll, uma banda que já tem uma história significativa na cena da música instrumental, com discografia numerosa e além da sua qualidade técnica e artística, está sempre imbuída por uma sólida base cultural.  

“Sob os Olhos de Eva”, é o novo álbum do Kaoll e traz em seu bojo, um advento muito rico ao basear-se na obra de um livro e a seguir a modernidade tecnológica, em seu aparato de apresentação, oferta ao público, um aplicativo para ser automaticamente unido a um arsenal de ilustrações e vídeos análogos. 

Sobre o livro em si, trata-se da obra homônima, do pensador, Renato Shimmi. Filósofo, com graduação também em Direito e com diversas especializações, Shimmi é um pesquisador sério, com renome, e a sua fama no meio acadêmico, justifica-se plenamente, pelo teor de sua obra. Neste livro, Renato Shimmi apresenta uma série de ensaios a analisar a questão da unidade que transcende a questão dual enfocada no mito de Adão & Eva, proveniente do Genesis bíblico. Através de tal prospecção, com profundidade, joga luzes sobre todo o desenvolvimento da humanidade ao longo dos séculos, através da construção e quebra eventual dos paradigmas estabelecidos. Não li o livro, ainda, mas através do release da obra, chamou-me a atenção uma colocação forte de seu autor a dar ciência de que o caráter libertário em desobedecer as ordens impostas arbitrariamente, foi sufocado por séculos, em uma demonstração clara da ostentação totalitária, portanto o que foi institucionalizado como paradigma irrefutável, pode e na verdade, deve ser contestado, sem dúvida alguma.

Portanto, é sob essa sólida argumentação filosófica proposta pelo pensador, Renato Shimmi, que o Kaoll concebeu o conjunto de músicas de sua mais recente obra e somente por essa iniciativa, este álbum já demonstra conter um lastro enorme. 

Contudo, vai além, pois a parte musical é riquíssima e nada surpreendente para quem acompanha a trajetória dessa banda e a qualidade inquestionável de seus componentes, individualmente a destacar-se.
O trabalho do Kaoll é fortemente influenciado por uma gama de vertentes musicais muito valiosas, mas que tem um componente em comum, o apreço (e a coragem, devo salientar), em fazer uso do experimentalismo, na contramão das regras ditadas pelos produtores musicais que atendem os interesses em prol da música Pop comercial de alto consumo e descartável. Dentre as suas ótimas influências, nota-se a presença de vertentes do Rock Progressivo setentista, a destacar-se a corrente do Krautrock, a maravilhosa escola alemã dos anos setenta, que notabilizou-se na história do Rock, justamente por abrigar uma gama de artistas que usaram o experimentalismo, fortemente em suas respectivas obras. 

Soma-se também nesse bojo, o Jazz, sobre algumas linhagens, o Jazz-Rock predomina, mas há gotas interessantes de outras linhas, como o Free-Jazz e o Fusion, certamente. A música erudita, sob o aspecto de suas camadas mais recônditas, marcadas pelo atonalismo, dodecafonismo e outras correntes mais radicais dentro do gênero, a música Folk, no sentido amplo da designação etc.

Na prática, o som do Kaoll é um instrumental muito versátil, a mesclar a extrema docilidade da flauta, aos solos de guitarra mais proeminentes, com pegada Rocker. Transita entre longos temas, como uma Jam Band, mas tem seus momentos mais concisos, com arranjo fechado e permeado por convenções bem arranjadas. Apresenta um arsenal de melodias, muito bom e a parte rítmica da banda é igualmente excelente, com a presença de várias batidas diferentes, a usar bem as variações nas fórmulas de compasso e claro, com toda essa categoria e ótimas influências apresentadas pelos seus membros, busca os melhores timbres, em perfeita sincronia com a preocupação em ter o seu áudio, a altura de seu quilate artístico. O álbum, “Sob os Olhos de Eva”, apresenta seis faixas. A primeira, a abrir a obra, é homônima.

Em “Sob os Olhares de Eva”, a banda apresenta uma introdução bastante instigante, a lembrar-me o trabalho de bandas progressivas bem do final dos anos sessenta, que faziam aquela transição entre a psicodelia e o iniciante gênero progressivo, propriamente dito. Alguns historiadores rotulam essa corrente intermediária como “Space Rock”, a denotar uma aproximação da música com a expansão espacial da humanidade, então sob alta voga no imaginário popular. 

Logo entra uma parte intermediária onde com muita docilidade, a flauta leva a banda para um passeio muito bonito. Mais um pouco e o Folk que surge é delicioso. Sob uma percussão bem colocada, a banda faz uma base amena, muito bem amalgamada pelo slide de guitarra. A parte final é marcada por um "looping" extremamente bonito, com maior peso e a guitarra é belíssima em sua linha de frente. Na sincronia com o livro, tal tema exprime a visão de Eva ante a oferta da serpente, a denotar a sua sede pelo conhecimento, que pelo paradigma religioso imposto-nos, é tido como algo maléfico e arrogante, por supostamente afrontar uma ordem superior, mas a proposta é a reflexão em torno do contrário, ou seja, não seria a arrogância do totalitarismo que impede a expansão do homem, portanto, o verdadeiro "mal" a ser combatido?

O próximo tema é denominado: “O Exílio da Serpente”. Tudo soa belo nessa faixa. O trabalho magnífico das cordas, da flauta e a cozinha que soa sob uma inspiração fantástica. Teclados pontuam com muita propriedade, ao trazer timbres ótimos dos velhos sintetizadores: Moog, Arp Strings e o tradicional piano vem muito bem no bojo. Lembrou-me o Jethro Tull em seus melhores momentos, com aquela capacidade ímpar que a turma de Anderson; Barre & Cia. possuía em criar arranjos com polimelodias, todas muito bem encaixadas e que obrigam o ouvinte a escutar a faixa várias vezes, para poder a cada audição, prestar atenção em um detalhe específico. A passagem quase no limiar do Hard-Rock, é ótima no trecho final, com um solo de guitarra para arrepiar.
“Kopernick” vem a seguir, e mais uma vez o trabalho das cordas é muito bonito. Tem um certo quê de música flamenca, com batidas de violão a buscar tal acento rítmico característico e mais uma vez com um belo solo de guitarra para realçar-se. Trata-se da referência à Copérnico, e a explicação que vem das estrelas a confrontar os modelos dogmáticos impostos pela Igreja.

“O Julgamento e Morte de Giordano Bruno” vai direto no âmago do problema. Creio ser desnecessário maiores explicações sobre a figura histórica descrita no título da música e o que representou como símbolo de resistência à opressão, em sua época. Em termos musicais, esse tema oferece-nos um riff deveras interessante, com a banda a manter-se nele como base primordial e deixar assim a flauta a flutuar, literalmente. Apresenta peso e leveza em perfeita unidade, eu diria. Solo final com contundência na guitarra a buscar modulação de tom e novo passeio da flauta ao final, para encerrar, e que soa, magnífico.
“A Rua contra os Reis” denota a tomada de consciência das massas, ao ir às ruas e protestar contra a opressão, com a finalidade em exigir mudanças. É muito bonita a melodia proposta pelo slide guitar e a base segue a quebrar ritmicamente, muito bem.
O último tema, “Dharma em Chamas”, busca exprimir o sentimento individual da experiência rumo à unidade final, o romper com a dualidade. Adão & Eva não devem obedecer, tampouco ser punidos, e assim fundem-se em um único ser, absoluto e transcendente. E sob tal conceito metafísico, o tema musical apresenta-se com uma deliciosa explosão sonora, a trazer fortes doses de influência latino-americana, com percussão muito forte, permeada por um forte molho caribenho. O tema é muito vibrante a lembrar bandas "freaks" com tal proposta dentro do Rock norte-americano dos anos sessenta, onde a citação ao Santana é a mais óbvia, pela sua maior projeção nesse campo. Entretanto, advém uma parte mais amena, com a flauta a comandar a boa melodia. E uma terceira parte, mais uma vez sob experimentalismo, fecha a música e o álbum, exatamente como ele iniciara-se. Ou seja, a serpente contorce-se a formar o “oito infinito”, a unidade que denota o indivisível. Em síntese, a obra é muito consistente pela parte musical e a mensagem implícita a acompanhar o pensamento filosófico do schollar, Renato Shimmi, expresso em sua obra homônima ao álbum, é perfeita.
O filósofo, Renato Shimmi, autor do livro "Sob os Olhos de Eva" e que inspirou a obra musical homônima, perpetrada pelo Kaoll 

Ouça na íntegra o álbum, “Sob os Olhos de Eva”:

Eis o link para escutar no You Tube:
A ilustração da capa é muito expressiva. Com traços simples, o artista plástico, Zé Otávio Zangirolami não precisou de grandes recursos tecnológicos para contribuir com a sua criatividade, ao retratar bem o espírito da obra. Uma serpente com seu corpo a enrolar-se e formar assim a imagem do "oito infinito", diz tudo. A serpente, demonizada pelo dogma oficial, mostra aqui uma outra chave para a humanidade, diametralmente oposta. Detalhes como o símbolo atômico, o número “Pi” e o símbolo do gênero feminino, fazem parte da ilustração mais discretamente e claro que são referências importantes para reforçar a chave do pensamento de Renato Shimmi. 

A VJ, Cecília Luchessi, também participa do esforço artístico coletivo, ao responsabilizar-se pelo apoio com vídeos, no aparato virtual do álbum.

Produção geral de Bruno Moscatiello; Yuri Grafunkel e Renato Shimmi
Gravado, mixado e masterizado no estúdio Medusa de São Paulo/SP
Técnico de áudio: Janja Gomes
Capa, encarte, Lay out/arte final: Zé Otávio Zangirolami
Baseado na obra filosófica: “Sob os Olhos de Eva”, de Renato Shimmi
Formação do Kaoll nessa obra:
Bruno Moscatiello: Guitarra e violão
Yuri Garfunkel: Flauta e Viola caipira
Gabriel Catanzaro: Baixo elétrico e acústico
Rodrigo Reatto: Bateria
Janja Gomes: Percussão
Fabio Leandro: Teclados
Gabriel Costa: Baixo e Glissando Guitar

Para conhecer melhor o trabalho do Kaoll, acesse:
Página no Facebook:

site oficial:

canal do youtube:

Recomendo com bastante entusiasmo, o trabalho do Kaoll!