domingo, 24 de agosto de 2014

Humauhuaca na Sessão Maldita - Por Luiz Domingues


Na São Paulo dos anos setenta, apesar das naturais limitações tipicamente tupiniquins, e pelo azar de ter uma ditadura ferrenha pairando no ar, o astral do movimento hippie ainda fervilhava.

E apesar de todas as dificuldades inerentes que uma ditadura apresentava no cotidiano, a cena cultural e artística era intensa.

Nesses termos, haviam mu
itos espaços para shows, incluso locais nobres, onde normalmente parecia inviável a realização de shows de Rock.



Um bom exemplo dessa dinâmica, foi o histórico show dos Mutantes e do Terço, unindo-se para executar um tributo aos Beatles, no ano de 1977, em pleno Teatro Municipal.

Outro caso muito interessante se deu com o Humauhuaca, banda que não tinha nem a metade da fama dos Mutantes e do Terço, mas que conseguiu lotar o Teatro Municipal, numa sessão maldita de tirar o fôlego.

Foi em 10 de dezembro de 1977, e eu eu estava lá com meus amigos, para conferir um concerto de Rock, que prometia.

Eram centenas de freaks, Hippies & Rockers espalhados por todos os setores do magnífico templo de cultura da pauliceia.

O contraste do luxo rococó da decoração do teatro, com as vestimentas dos freaks, produzia um efeito cinematográfico peculiar. Sentia-me no set de "Fearless with Vampires" do Romam Polanski, em meio à vampiros surrados, o que era bem engraçado.
O cheiro do patchouli, perfume comum para nove a cada dez hippies, aromatizou completamente o teatro e confesso, tal fragrância desperta-me um sentimento de saudade imenso.

A expectativa era total. 

Dava para sentir no ar, que o respeito pelo trabalho do Humauhuaca era absoluto, quase de reverência e sintomaticamente, penso hoje em dia como o nível de percepção do público era muito mais elevado naquela época, pois o som que a banda fazia, não era nada popular.

Pelo contrário, era um som híbrido, com bastante influência de Jazz Rock; Fusion; elementos do Folk latinoamericano; Jazz Brazuca; Prog Rock, e algo de MPB.

Não era propriamente uma banda de Rock, mas era aceita e querida pelos Rockers, pois acima de tudo, não haviam radicalismos acentuados nessa época e dessa forma, o comportamento padrão do "freak" era o de curtir música de qualidade, ainda que não houvesse o rótulo "Rock" carimbado na testa do artista.

Outro fator que tenho muita saudade : Sessão maldita com banda autoral e instrumental, lotando completamente o teatro municipal ? Você consegue imaginar algo parecido hoje em dia ? 

Luzes apagando-se...a banda entra no palco e faz um concerto magnífico...

O virtuosismo a favor da música e não o contrário, um conceito que também parece ter se perdido no tempo, infelizmente.
Olhos e ouvidos atentos na música cerebral de uma banda afiada como o Humauhuaca, fazia o coração pulsar forte na emoção que provocavam.

Que prazer ouvir o baixo extraordinário de um músico que já era lenda naquela época. Olhos grudados no hermano porteño que destruía o seu baixo Fender e era história viva. Um filminho passando na minha cabeça : 1967 e vendo aquele bando de hippies argentinos e cabeludos na TV, acompanhando o baiano doido (Caetano Veloso), que falava coisas engraçadas; 1973 e o mesmo baixista freak na retaguarda dos Secos e Molhados...

E ainda havia um baterista superb, daqueles que fazia a carcaça da bateria trepidar inteira com tanto groove, coisa que o Pedrinho "Batera" do Som Nosso de Cada Dia também era mestre em fazer.

Um baita guitarrista rocker, um pianista mestre de harmonias "tortas" e um tremendo flautista...que noitada !!

Amigos, eu estava lá e vi tudo isso. 

Saudosista, eu ? 

Pode ser, mas vou lhes dizer : adoraria que tivéssemos uma nova onda de astral tão boa quanto aquela, onde houvessem shows de bandas conhecidas ou não, toda a noite e inclusive à meia-noite, no Teatro Municipal, e com direito à um público absolutamente comprometido com a vontade de consumir música, avidamente.

Era assim que funcionava nos anos setenta, e eu desejo que volte a ser um dia. Se isso é ser saudosista, então está bem, sou mesmo...

Matéria publicada inicialmente no Blog Limonada Hippie, em 2014.

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