sábado, 16 de agosto de 2014

Victor Brecheret - Por Luiz Domingues



Se pensarmos no grafite, como expressão moderna de paisagismo urbano em São Paulo, logo nos vem à mente, artistas como Eduardo Kobra e Os Gêmeos, como expoentes de obras significativas que estão espalhadas em vários pontos da cidade.

Se pensarmos em termos de monumentos clássicos da urbanidade paulistana, é inevitável não citarmos Victor Brecheret como um dos maiores, senão o maior escultor do século XX, cuja obra é parte viva da capital paulista.

Victor Brecheret nasceu na Itália, em  22 de fevereiro de 1895, na pequena localidade de Farnese. Seu nome de batismo era Vittorio Breheret, mas assim que chegou ao Brasil, seu nome “aportuguesou-se” para Victor Brecheret.

Já tinha trinta anos de idade quando recorreu à um cartório de São Paulo para oficializar tal nome e dessa forma ganhou cidadania brasileira, como se aqui tivesse nascido de fato.

Ainda adolescente, ingressou no Liceu de Artes e Ofícios e começou a trabalhar  com gesso e mármore, aprendendo técnicas de entalhe com tais materiais.

Crescendo como artista, voltou à Itália e estudou com o mestre Arturo Dazzio.  Com Dazzio, fez profundos estudos da anatomia humana e dos animais, além de aperfeiçoar-se nos fundamentos mais básicos da arte, aprendendo a manipular os materiais como barro e argila, buscando-lhe a densidade perfeita, tal como o grande chef culinário a buscar o ponto perfeito do cozimento dos alimentos, outorgando-lhe o sabor de máxima intensidade.

Influenciado pelo pós-impressionismo, quando voltou ao Brasil, estabeleceu amizades com intelectuais  como Mário de Andrade, Osvald de Andrade e artistas como Di Cavalcanti e Menotti Del Picchia.

Venceu um concurso público em 1920, visando a construção de um grande monumento a ser construído na zona sul de São Paulo, apresentando em maquete, o que viria a ser o famoso Monumento ás Bandeiras.
                                                                                                           Participou ativamente da Semana de Arte de 1922, com várias esculturas expostas no saguão do Teatro Municipal de São Paulo.

Depois desse evento marcante, Brecheret alavancou carreira sólida como escultor, mantendo ações em São Paulo e na Europa, simultaneamente.

Só a partir de 1923, foi que começou a trabalhar efetivamente na construção do imponente Monumento às Bandeiras, que consumiu-lhe  vinte anos de trabalho, só sendo concluído em 1953, um ano antes da inauguração oficial do Parque do Ibirapuera, que o margeia desde então.

Vivendo entre São Paulo, Roma e Paris, ganhou prêmios e participou de importantes mostras internacionais e deixou obras públicas na França, caso da escultura “O Grupo”, que orna um logradouro público de La Roche-Sur-Yon, na região da Bretanha.

Nas décadas de quarenta e cinqüenta, viveu intensamente a fase mais brasileira de sua arte, bastante impressionado em retratar motivos indígenas. Através da terracota, causou estranheza aos críticos da época.

Participou da primeira Bienal de São Paulo, em 1951, quando ganhou o prêmio de melhor escultor da exposição, justamente com uma obra de motivação indígena, “ O Indio e a Suassuapara”, escultura que hoje está em Antuérpia, na Bélgica.

Brecheret recebeu a incumbência de esculpir outro monumento  gigantesco na cidade de São Paulo, em homenagem ao patrono do exército brasileiro, Duque de Caxias, inaugurado em 1960.

Tal obra, de grande proporção, também lhe consumiu tempo e existe um vídeo no You Tube a retratar o artista em ação, trabalhando na obra. Pena que é bem curto, mas histórico, sem dúvida.

Outras obras incríveis são encontradas em outros pontos da cidade. Na Galeria Prestes Maia, por exemplo, podemos admirar ”Graça”, uma estupenda personalização do corpo feminino.

Pelos cemitérios mais tradicionais de São Paulo, mausoléus com esculturas incríveis de sua autoria, motivam visitações constantes de artistas, historiadores e estudantes de arte.

Espalhadas por Museus e acervos particulares de colecionadores, muitas esculturas de porte médio e pequeno, são de uma beleza incrível. “Fauno”; “Deusa da Primavera”, e “Safo”, uma evocação à mitologia grega; “Fuga para o Egito” e “Madona”e “Pietá”, com motivação bíblica; “Pombas”, “banho de Sol” e “Portadora de Perfumes”, “Vendedora de Frutas”como cenas do cotidiano; “Vitória”, “Torso Masculino”  e “Beijo”,”Depois do Banho” a mostrar a sensualidade etc etc.

O busto de Alberto Santos Dumont, também é obra sua, além da “Via Crucis”, na capela do Hospital das Clínicas.

A espetacular decoração de baixo relevo nas dependências do Jockey Club de São Paulo, chama a atenção pelo caráter quase de hieróglifo.

Victor Brecheret deixou sua obra por toda parte na cidade de São Paulo, tornando-a  marca registrada da pauliceia.
Ele nos deixou em 17 de dezembro de 1955, precocemente portanto e sem o tempo necessário para observar o impacto decisivo de suas obras na metrópole, caso mais sintomático do Monumento às Bandeiras, um verdadeiro cartão postal paulistano.

Nem preciso dizer o quanto fiquei triste quando vândalos  picharam essa obra do mestre Brecheret, e rumores davam conta que manifestantes radicais planejavam destruí-lo, em meio às tais “manifestações” iniciadas em 2013. Desculpe a menção, mas obra de arte é intocável, a meu ver, seja lá qual for a política vigente e as razões de seus opositores. Se os nazistas tivessem dinamitado a Torre Eiffel, como cogitaram fazer quando da iminência de sua retirada mediante derrota certa, teria sido um golpe sujo, tal qual colocarem fogo na biblioteca de Alexandria, na antiguidade, e outros tantos exemplos de vilipêndio selvagem de lesa-humanidade.

Destruir o Monumento às Bandeiras, teria sido uma barbaridade do mesmo porte. Ainda bem que não cometeram tal loucura.

Existe uma vasta bibliografia sobre Brecheret e sua obra, e a Fundação Escultor Victor Brecheret mantém um belo Site na Internet, com informações valiosas sobre a vida e obra do artista.


Recomendo visita :
http://www.victor.brecheret.nom.br/index.html

Claro, recomendo apreciar suas obras públicas e espalhadas pelos museus, igualmente.

Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu, em 2014.

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