sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Queen : No Synthesizers ! - Por Luiz Domingues


Todos os álbuns do Queen, até o "The Game", lançado em 1980, continham uma frase de efeito grafada na contracapa ou na ficha técnica do encarte, com os dizeres : "No Synthesizers  !"

Essa menção com ares de "palavra de ordem", soava enigmática nos anos setenta para todo Rocker acostumado com o uso de sintetizadores por inúmeras bandas, principalmente no universo do Rock Progressivo e suas ramificações.

Por exemplo, na vertente do Krautrock, onde o contato com experimentalismos de toda ordem era notório, o uso de tais teclados multifacetados e tecnologicamente avançados para os padrões daquela época, era normal e bastante apreciado.

Ainda falando do KrautrocK setentista, bandas dessa cena germânica, como o Tangerine Dream, Can e principalmente o Kraftwerk, tinham em tais recursos, a força motriz de seus respectivos trabalhos.

Ainda que no campo do Hard-Rock, mesmo que seu uso fosse bem mais moderado, muitas bandas o usavam com criatividade e há um caso sintomático também na cena do Glitter-Rock, onde Brian Eno pilotava sintetizadores no Roxy Music, conferindo-lhe aura futurista "Glam".

O Queen surgiu no panorama britânico setentista, dentro da safra de bandas que fizeram a cena do Glitter Rock. Se David Bowie e o T.Rex de Marc Bolan eram os dois maiores expoentes dessa vertente, haviam outros tantos artistas dentro dessa onda.

Slade; Mud; Wizzard; The Troggs; Roxy Music; e o Mott the Hoople, são bons exemplos a serem lembrados e o Queen surgiu desse caldeirão, como uma banda emergente que costumava abrir os shows do Mott the Hoople.

Biógrafos e historiadores do Rock afirmam que o Queen destacou-se tanto que "engoliu" o Mott, causando-lhe o constrangimento de notabilizar-se como uma banda muito melhor que a de Ian Hunter & Cia.

Não gosto desse tipo de comparação, mesmo porque, a despeito do Queen realmente ter causado furor, o Mott era uma boa banda e não havia demérito algum em seu trabalho, pelo contrário, basta ouvir seus discos.

Mas o fato é que "Keep Yourself Alive" explodiu como single nas rádios britânicas em 1973, e o Queen entrou rapidinho no imaginário dos Rockers, como uma banda que apesar de aparentemente ser da turma do Glitter, ter elementos mais pesados em sua música, mais assemelhando-se ao Hard-Rock, além das múltiplas outras influências que lhe davam um horizonte mais largo, onde Folk; Lírico; Vaudeville; e até o Rock Progressivo. se encaixavam.

Porém, a curiosa frase grafada na capa do primeiro álbum "No Synthesizers !", soou enigmática num primeiro momento.

Como assim ?

A banda se colocava como avessa ao uso de sintetizadores em sua música ?

Então veio o segundo álbum e de novo, o Queen enfatizou que não usava sintetizadores em sua música.

Tratava-se de uma banda que usava apenas instrumentos tradicionais e vozes, e que parecia se orgulhar de não "conspurcar" sua música com tais recursos eletrônicos etc e tal.

E assim foi indo, disco após disco, até o "The Game", de 1980. Já nos anos oitenta, a banda abandonou tal discurso de forma acintosa e avançando no pop oitentista, mergulhou num álbum de roupagem "Techno Pop" e muito aquém do seu padrão de qualidade. 



O LP "Hot Space", de 1982, usa e abusa de disparos eletrônicos e não é à toa que geralmente consta de listas de piores discos da história, infelizmente.

Voltando aos anos de glória de sua Majestade, a grande Rainha de Mercury, May, Taylor e Deacon, fazia questão de dizer que não usava sintetizadores na sua obra, porque esmerava-se para criar tessituras incrivelmente complexas em seus arranjos.

O esmero, principalmente de Brian May, em gravar dúzias de guitarras para abrir inúmeras vozes (falo no sentido harmônico/ melódico e não me referindo à vozes humanas, neste caso), inclusive em solos, era algo extraordinário.

Devia dar um trabalho insano, mas o resultado final no áudio do Queen, é incrível. Tal delicadeza melódica remetia ao talento de composição e arranjo de compositores eruditos sofisticados, capazes de enxergar possibilidades sutis, que ouvidos leigos nem sonham captar.

Essa tornou-se, sem dúvida, uma das marcas registradas do Queen e do som particular de Brian May, como guitarrista de timbre e estilo, únicos.

Outra marca registrada, e que nos faz entender essa determinação do Queen em abominar sintetizadores nos seus melhores anos, sem dúvida era no quesito vozes.

A mesma obsessão que movia Brian May a criar diversas dobras de guitarra, fazendo com que a banda soasse muitas vezes como uma orquestra de cordas, era proporcionada por Freddie Mercury e Roger Taylor nos arranjos vocais.

É público e notório que Mercury e Taylor tinham vozes privilegiadas, com May dando bom apoio e Deacon eventualmente contribuindo também.

Nesses termos, o esforço que a banda fazia para criar backing vocals bastante requintados e em alguns casos até com certo exagero, supriam também a falta de sintetizadores, certamente.



Diante de verdadeiros corais, com muitas dobras de vozes, o Queen impressionava pelos malabarismos vocais.

Dessa forma, todos esses esforços empreendidos em horas e horas de estúdio para criar tantas camadas de vozes e guitarras, talvez os tenham levado à esse sentimento de orgulho por apresentarem um trabalho tão rico, harmônica e melodicamente falando, dispensando o uso de sintetizadores.

Uma pena que na década de oitenta, talvez movidos pelo sentimento de se adaptarem às estéticas vigentes, tenham abandonado tal purismo e cometido deslizes imperdoáveis como "Hot Space".

No meu caso em particular, fico mesmo com os quatro primeiros álbuns, que são os meus prediletos da discografia do Queen : "Queen"; "Queen II"; "Sheer Heart Attack" e "A Night at the Opera".

E também deixo a ressalva de que não sou contra os sintetizadores. mesmo porque, seu uso nos anos setenta, foi quase sempre muito salutar, principalmente no Rock Progressivo.

Matéria publicada inicialmente na Revista impressa : Gatos & Alfaces, nº 3, de maio de 2014.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Que prazer para mim receber sua visita e comentário elogioso, Ana Beatriz.

      Muito grato pela gentil participação !!

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