terça-feira, 9 de abril de 2013

Paul Robeson, Um Homem Notável, Todavia Esquecido - Por Luiz Domingues


Não resta dúvida de que na cultura norte-americana dos anos cinquenta e sessenta, surgiram grandes ícones negros, principalmente nos esportes e nas artes.

Para que houvesse um Cassius Clay, muitos pugilistas brilharam antes e na mesma proporção, quando talentos dramatúrgicos como Harry Belafonte e Sidney Poitier explodiram nas telas de cinema, certamente foi fundamental que houvesse existido antes, Paul Robeson.

Quem ?

Pois é, se nem na América, onde a cultura popular costuma preservar seus ídolos, ele é muito lembrado, imagine se no Brasil alguém ouviu falar desse cidadão ?

Quem foi Paul Robeson, afinal de contas ?

Nascido em 1898, Paul LeRoy Bustill Robeson era descendente de Igbos, uma tribo nigeriana. Sim, seus antepassados chegaram na América como escravos.

Seu pai, era um pastor presbiteriano, e sua mãe falecera quando ele tinha apenas seis anos de idade.
Contrariando o script social de extremo segregacionismo desses primeiros anos de século XX, Paul conseguiu concluir seu estudos da High Scholl (o ensino médio, no padrão americano), e foi aceito numa grande universidade, sendo registrado como o terceiro negro na história a frequentar e concluir um curso universitário.

Formou-se advogado pela Universidade de Columbia, uma das maiores universidades americanas e do mundo.

Paralelamente, destacava-se também nos esportes e rapidamente tornou-se o destaque do time de futebol americano da Universidade.

Esse destaque foi tão grande que após formado, tornou-se um jogador de futebol americano profissional, disputando a principal Liga do país, e com o destaque de ser um grande craque nesse esporte. Jogou nas equipes do Akron Pros e Milwaukee Badgers.

Não satisfeito em ser craque no futebol americano profissional, também jogou basquete, e foi técnico desse esporte...

Mas havia também a verve artística dentro dele...
Cantor; ator, e escritor de enorme talento nas três atividades, Paul Robeson destacou-se por ser um ator extraordinário que rapidamente saltou das montagens amadoras para os palcos da Broadway.
Atuando em diversas montagens, chamou a atenção a sua interpretação de Otelo, de Shakespeare. Com atuação muito elogiada, foi parar na Inglaterra, onde impressionou nos palcos de Londres, interpretando Shakespeare para o público da terra desse autor genial.

E logo a sua voz extraordinária foi explorada e atuando em montagens musicais, seu potencial vocal foi exaltado.
Com voz de barítono, afinação perfeita e emissão estrondosa, Paul Robeson brilhou em musicais como por exemplo, Porgy e Bess, de Ira Gershwin.

Não demorou e o cinema o convocou, primeiramente atuando em "O Imperador Jones", onde gerou muita polêmica o fato de seu personagem matar um homem branco na história.
 


Já em "Magnólia - Barco das Ilusões" ("Showboat"), uma adaptação do musical encenado com sucesso nos palcos da Broadway, sua interpretação visceral do clássico do Blues, "Old Man River", arrebatou multidões nas salas de cinema.

Voltando à Inglaterra, viveu por lá alguns anos e protagonizou mais de 10 filmes de produção britânica.

Retornando aos Estados Unidos, aproveitando sua fama como artista e ex-atleta bem sucedido, percebeu que poderia ser mais incisivo ao expressar suas opiniões políticas e protestar contra o vergonhoso segregacionismo contra os negros na sociedade.

Contudo, num ambiente de final de anos quarenta e início dos cinquenta, ainda não havia nenhum indício de que as coisas mudariam no país, trazendo o fim de tais diferenças sociais, tornando igualitários os direitos civis para as pessoas negras.
Concomitantemente, foi nessa época que floresceu o famigerado "Macartismo", liderado pelo reacionário e arbitrário senador Joseph McCarthy.

Com métodos inspirados certamente em seus ídolos do Tribunal da Inquisição e da SS Nazista, McCarthy passava por cima dos direitos civis, ignorando a constituição e dessa forma, exercendo toda a pressão para forjar falsas confissões e afins.
Perseguindo artistas e intelectuais, principalmente, McCarthy viu em Paul Robeson, um prato suculento para a sua voracidade brutal.

Homem negro; artista e intelectualizado; culto e cultuado, falando em direitos iguais entre brancos e negros, virou um dos alvos de sua particular caça às bruxas.
Bastante atacado e perseguido, Paul Robeson viu sua carreira declinar, graças à perseguição, e num momento onde a carreira musical havia virado o carro chefe de suas atividades, emendando sucessos e grande vendagem de discos.
Contudo, só em 1958 pode retomar sua carreira, livrando-se da perseguição do reacionário McCarthy, mas nessa altura, havia perdido terreno artístico, e já estava em fase de debilidade devido à problemas de saúde.

Sua última aparição pública ocorreu em 1965, e nos seus últimos tempos, preferiu aposentar-se, vindo a falecer em 1976.
Paul Robeson foi um artista de uma versatilidade incrível; atleta profissional de alto nível; um advogado culto e um ativista político de muita coragem, numa época onde defender ideais de igualdade, era muito perigoso na América.

Abriu caminho para que muitos outros talentos pudessem brilhar depois dele e caiu num inacreditável esquecimento, descabido a meu ver.
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013

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