quarta-feira, 31 de julho de 2013

Greves, Protestos & Manifestações - Por Luiz Domingues

Parto do pressuposto de que não existe um regime sócio-político perfeito e que portanto, atenda à todas as necessidades, desejos e interesses de todos os cidadãos, simultaneamente.

E isso é óbvio sinal de que a diversidade humana é enorme, e nessa complexidade, é praticamente impossível haver um modo de gerenciamento público, que contente a todos os interesses. 
Posta essa colocação, que soa óbvia, mas nem todo mundo leva em consideração quando quer expor seus motivos pessoais, sigo em frente, para falar sobre algo que reputo um direito sagrado do cidadão : reivindicar.

É muito natural e salutar dentro de um regime democrático de direito, que o cidadão seja ouvido em suas reivindicações. 

Onde o poder público pode gerenciar, e isso interfere na vida do cidadão comum, é claro que se trata de um direito deste, reclamar de algo que o afeta negativamente, e reivindicar melhorias e providências sobre aspectos que estão ruins e carecem de melhorias.

Portanto, o cidadão tem o direito de reclamar, de querer ser ouvido, de reivindicar.  
Disso não tenho dúvida e de forma alguma quero ser mal interpretado, deixando claro que sou absolutamente contra medidas proibitivas de tais manifestações populares; contra o cerceamento do livre arbítrio; dos abusos contra os direitos civis e sendo assim, denotando atitudes ditatoriais abomináveis da parte de quem detém o poder público.

Contudo, na questão das greves, passeatas, manifestações e protestos públicos, por exemplo, temos observado uma profusão de equívocos, nesse sentido.

No caso das greves de categorias profissionais, por exemplo, é inacreditável que em pleno século XXI, tenhamos práticas truculentas e muito equivocadas, no sentido de não exercer pressão à quem deveria ser exercida.

Um exemplo ?

Se funcionários do transporte público, entram em greve, o objetivo é pressionar o prefeito e/ou o governador, mandatários responsáveis por tal serviço público. 
Porém, quem na prática, é que se prejudica, quando ônibus, trens de subúrbio ou metrô paralisam, por seus funcionários cruzarem os braços ?

O transtorno causado quando uma só categoria dessas para, é enorme e muitas vezes, tais greves se multiplicam, numa ação viral que estrangula as cidades, notadamente os grandes centros, causando um sofrimento gigantesco para milhões de pessoas.

Nesse caso, a pergunta é : Não existe uma maneira mais civilizada de se pressionar quem de fato querem pressionar, para que atendam suas reivindicações ?  


É necessário prejudicar milhões de pessoas para de uma forma muito indireta, isso gere um certo prejuízo à imagem de tal mandatário ?

A existência da "greve branca", onde por exemplo se abririam as catracas sem cobrança de bilhetes, daria um efeito forte sobre o governo, sem no entanto prejudicar as pessoas comuns. O transporte seria feito normalmente, sem incomodar ninguém, a não ser os políticos governantes.

Sei que nesse caso, existem mecanismos jurídicos e marotos (ah...as brechas da Lei..."), onde esse tipo de greve é coibida com a ameaça de exoneração sumária, daí o medo de fazer tal tipo de protesto.

Nesse caso, onde está a visão dessa gente, que não briga por mudanças jurídicas ? Infelizmente, optam por fazer greves antipáticas, que mais atingem o cidadão comum. 
Em relação à passeatas, tornou-se lugar comum tomar as pistas da Av. Paulista, em São Paulo (uso São Paulo como exemplo, por ser minha cidade, mas vale para qualquer cidade, incluso interioranas).

Se toda a categoria profissional e defensores de causas, as mais diversas, se sentem no direito de paralisar a avenida todo dia, pergunto-me : e o meu direito de ir e vir?

Devo agrupar pessoas incomodadas com as passeatas diárias, que fecham o caminho, e organizar uma passeata para protestar contra as passeatas ? 
Fico pensando em como se sente uma pessoa infartada dentro de uma ambulância, a caminho de um hospital (e na região da Av. Paulista existem mais de dez, importantes e enormes), quando a ambulância para, porque os defensores de uma causa qualquer, estão bloqueando-a.

Não dá para fazer a manifestação numa pista só, deixando as demais para o trânsito fluir, ainda que já prejudicado ? É tudo ou nada para essa gente ?

Outra questão : Muitas vezes, independente do protesto ser válido ou não (acredite, tem muita gente que se engaja em causas não fidedignas, sem checar fontes e comprando ideologias vazias como uma bexiga furada), existem as inevitáveis infiltrações. 
Vamos supor que a causa seja nobre e o comando da organização do protesto esteja imbuído dos mais sérios propósitos nesse sentido. Eles mobilizam os militantes da causa, preparam seus cartazes, faixas, flyers, levam megafone e instrumentos de percussão, ensaiam palavras de ordem e instruem os participantes a não provocarem pessoas comuns, não causarem nenhum ato de vandalismo etc etc.

Mas aí, tudo sai de controle, quando um bando de maus intencionados se infiltra e começam a vandalizar, arrumarem brigas, provocar pessoas comuns, praticarem saques no comércio e afrontar autoridades.

Para onde vai a imagem do seu protesto, outrora autodenominado "pacífico" ?

Tudo foge ao controle e nossa polícia, que ainda tem fortes ranços da ditadura militar (até quando, hein ??), reage com a sua costumeira truculência e prepotência.

É o que temos observado nessa recente onda de protestos que tem acontecido em diversas cidades, com São Paulo e Rio, chamando mais a atenção da mídia pelo seu gigantismo (mas não se enganem, pois tem acontecido em cidades interioranas e com grande truculência).

Reivindicar melhores condições de transporte e tarifas mais baixas, acho legítimo, mas nesse caso, todo esse barulho com muita gente ferida gravemente, fora as depredações inadmissíveis, perde muito de seu sentido cívico, quando é manipulado por forças obscuras que só querem "causar" ou desgastar a imagem do partido A ou B. 
Não seria o caso de promover um protesto branco, sem truculência, mas contundente, agindo fortemente nas redes sociais e por exemplo, confrontando os números apresentados pelos governantes e empresários do setor de transportes ?

Algum desses vândalos que vão às ruas munidos de coquetéis Molotov e usam máscaras para não serem reconhecidos, teve acesso às planilhas de custos do transporte público ? 
Mas mesmo assim, salta-me aos olhos o oportunismo dessas manifestações truculentas, deixando claro que são motivadas por outros interesses e com o objetivo de "causar", para usar uma gíria moderna.

O mesmo em relação aos protestos contra as falcatruas perpetradas por governantes em relação à realização da Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil. 
Ora, claro que os absurdos cometidos com o dinheiro público e ações correlatas, prejudicando pessoas humildes (recomendo assistir o documentário "A Caminho da Copa", disponível no You Tube), são abomináveis e precisam ser denunciados com veemência, mas fica a pergunta : desde 2007, sabemos que o Brasil sediaria a Copa e que falcatruas seriam cometidas, portanto, qual o sentido de promover uma manifestação na porta do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, no dia do jogo inaugural da Copa das Confederações, em pleno 2013 ??

Ora, que adianta apavorar pessoas inocentes que estavam ali para assistir a cerimônia e o jogo da seleção brasileira ? 

Isso é forma inteligente de protestar ?

E outra, agora ? Esperaram sete anos para reagir contra a roubalheira que esses eventos propiciam nos cofres públicos ? 

Sei que não é só pelos 20 centavos, como virou moda dizer. O saco do povo estourou e revelou a insatisfação acumulada por décadas e por inúmeras razões, mas ainda penso que a mobilização para reivindicar tem que ter inteligência, foco e logística.

Sou totalmente favorável à uma reforma ampla. Urge a reforma tributária, que é a meu ver, o foco número um na pauta.
Acabar com esse vilipêndio à carne do povo, que é cruelmente esfacelada por impostos insuportáveis e com a infame contrapartida do retorno insignificante de benefícios públicos, se faz mister.

A vergonhosa política oficial de não investimentos em transportes públicos de qualidade, para satisfazer a sanha da indústria automobilística e petrolífera, é outra prioridade urgentíssima.

A radical mudança do planejamento, onde saúde, infraestrutura e educação, sejam prioritárias, como única maneira de catalputar o país ao primeiro mundo, sem dúvida.

A reforma política coibindo a infame mordomia que os parlamentares e membros do executivo gozam, ás custas do cofre público.

Sou a favor da extinção da "Voz do Brasil" obrigatória nas estações de rádio.

Qual o sentido de ser obrigatório em pleno século XXI, com internet, TV a cabo e telefonia móvel ?

Quem quiser acompanhar os trabalhos do executivo, legislativo e judiciário, tem plenos canais para fazê-lo, sem a necessidade desse antipático e ditatorial programinha dos anos trinta.

Pela ampla reforma da Lei eleitoral, com a extinção do voto obrigatório.

Pelo fim do serviço militar obrigatório, imediatamente, pois servir as forças armadas tem que ser um direito e nunca uma obrigação.

Pela reforma do código civil e criminal, acabando com as abomináveis "brechas jurídicas".

Reforma total do sistema penitenciário, uma falida e insalubre forma de lidar com os condenados da justiça, onde não se recupera ninguém para a sociedade.

Fim da militarização da polícia. A polícia tem que ser o braço amigo da sociedade e este modelo que temos é de uma polícia mal preparada, carrancuda e com ranços da ditadura, insuportáveis.

Pelo investimento maciço na infraestrutura, acabando com o atraso colonial que ainda persiste.

Pela simplificação total da burocracia, que esmaga o cidadão comum e inibe o empreendedorismo dos empresários, do micro ao mega empresário.

Pela sustentabilidade, pela ecologia, pela cidadania...

Pela limpeza, pelo respeito mútuo, pela pacificação no trânsito...

Pela cultura, pela arte...

Enfim, sou a favor da reforma total do país, mas ainda assim, penso que há maneiras e maneiras de se protestar.

Em suma : Protestar, reivindicar e reclamar, são direitos do cidadão, mas há formas de se fazer ouvir, sem prejudicar as pessoas erradas, que invariavelmente pagam o pato...
Matéria publicada inicialmente no Blog Planet Polêmica, em 2013.

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