sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Erva do Diabo - Por Luiz Domingues


Carlos Castaneda foi um importante antropólogo e escritor.

Sua biografia pessoal é envolta em mistérios, pois muitas pessoas acreditam numa lenda de que ele teria nascido no Peru e seria descendente de incas, de onde teria herdado esotericamente, ensinamentos xamânicos de seus ancestrais.


Mas ele mesmo contava a história de que havia nascido no Brasil, em Juqueri (hoje Mairiporã), no interior de São Paulo, próximo à cidade de Atibaia.
A verdade é que ele se formou antropólogo na Universidade da California / Los Angeles (UCLA), e profundamente impressionado pela obra de Aldoux Huxley, foi fazer seu trabalho de campo junto aos indígenas americanos e mexicanos, detendo-se na questão das ervas alucinógenas, seus efeitos e funções ritualísticas/xamânicas.
Foi então que conheceu um xamã da tribo Yaqui, chamado Don Juan Matus (outro mistério : Don Juan era mero personagem fictício ou de fato existiu ? E se existiu, esse era seu nome real ?), que aceitou ser seu guia nessa pesquisa de campo.

O que Carlos Castaneda não imaginava, era que sua vida viraria pelo avesso, com a total quebra de padrões cognitivos.


Ao tomar contato com os ensinamentos de Don Juan, Castaneda vislumbrou enfim a abertura das portas da percepção que tanto o impressionara na juventude, ao ler Aldous Huxley.


As primeiras impressões sobre tais ensinamentos foram publicadas no seu primeiro livro, denominado "The Teachings of Don Juan - A Yaqui Way of Knowledge", muito mal traduzido em português como : "A Erva do Diabo".

Com esse título pernicioso, a versão brasileira acabou denotando um preconceito descabido, fazendo pré-julgamento, mas fazer o que ? O estrago estava feito...
Voltando ao livro, foi lançado em 1968, auge do movimento Hippie, contestações anti-guerra, revoluções, rebeliões etc etc, portanto num mundo em efervescente época de quebra de paradigmas.

Sendo assim, nada mais propício para catapultá-lo à condição de livro de cabeceira de toda uma geração que ousava mudar e sonhar com um mundo melhor, promovido por tais mudanças.
A primeira parte do livro, trata das experiências com diversas ervas alucinógenas e as devidas explicações das experiências por parte de Don Juan. E na parte final, Castaneda faz suas observações, ao analisar as experiências sob a ótica de uma racionalização acadêmica.
Todavia, Castaneda já havia percebido que o que estava em jogo ali não eram meras alucinações propiciadas pelos agentes psicoativos das diversas ervas ingeridas, tampouco pelo misticismo esotérico dos rituais e crenças xamânicas. O que experimentara de fato, fora uma realidade extrasensorial sem limites.

Castaneda jamais foi apologista das drogas, pois seu intuito inicial era meramente antropológico, e num segundo instante, impressionado pelo teor dos ensinamentos de Don Juan e sobretudo pelas impressionantes experiências, seu objetivo era xamânico.

Mas para muitos detratores, ficou com esse peso indevido nas costas.
Seus trabalhos posteriores continuaram focados em suas experiências vividas sob a orientação de seu mentor, Don Juan.
Livros como "A Separate Reality" (Uma Estranha Realidade); "Journey to Ixtlan"(Viagem à Ixtlan); "Tales of Power" (Porta para o Infinito); "The Second Ring of Power" (O Segundo Círculo do Poder); "The Eagle's Gift" (O Presente da Águia); "The Fire from Within" (O Fogo Interior); "The Power of Silence - Further Lessons of Don Juan" (O Poder do Silêncio); e "The Art of Dreaming" (A Arte do Sonhar), expressaram muito dessa riqueza aprendida com Don Juan.

Ainda escreveria mais alguns livros tratando do tema Xamanismo, até falecer em 1998, sob mais um mistério, pois sua morte só foi anunciada publicamente dois meses depois do ocorrido.
"A Erva do Diabo" é um best-seller que foi icônico para a geração Hippie, embora muitas pessoas tenham interpretado-o erroneamente, como um manual de dicas alucinógenas e meramente recreativas.
Quem o lê sob a ótica da antropologia ou melhor ainda, da visão esotérica do Xamanismo, se aproxima muito mais da real proposta de Carlos Castaneda em sua obra.

6 comentários:

  1. Um dia desses assisti o filme(Viagens Alucinantes)no canal''TCM''os filmes de Ken Russell sempre me fazem refletir... interessante o tema do texto, me fez lembrar o filme.

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    1. Tem tudo a ver o filme Altered States (Viagens Alucinantes) do Ken Russell, com essa abordagem antropológica/xamânica dos livros do Castaneda e Ted McKenna, entre outros autores dessa área.

      Sua observação foi muito pertinente !!

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  2. Gostei muito. Especialmente quando você cita a má tradução e, por consequência, a interpretação errônea da obrx
    Dum.

    Abx

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    1. Dum, realmente a tradução costuma ser um grande problema no mercado editorial brasileiro e na época da ditadura, ainda havia a agravante dos censores e sua completa falta de compreensão do universo cultural. Soma-se à esses fatores, a maliciosa intenção de estigmatizar o livro, mediante um nome preconceituoso.

      Obrigado por ler e comentar !!

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  3. Pela primeira vez encontro algo relacionado a Castaneda e o Mestre Don Juan. Li viagem a Ixtlan no "auge" dos meus 15 anos por duas vezes, o universo xamânico e os ensinamentos filosóficos de Don Juan me acompanham desde então.
    Obrigado!!!

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  4. Sensacional a sua participação, amigo Gaen.

    Meu caso também, encantei-me com Castaneda na adolescência, embalado no sonho hippie que ainda repercutia no Brasil, até a metade dos anos setenta.

    Depois vi a profundidade xamânica/esotérica embutida nos livros e nos ensinamentos de Don Juan.

    Chamou-me a atenção o fato por você salientado, de que há pouco texto disponível na internet, abordando Castaneda. É lamentável isso e por outro lado, fico contente por ver que o meu seja encontrado por quem se interessa pela sua obra.

    Muito grato por ler e comentar !!

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