sexta-feira, 13 de julho de 2012

The Incredible Shrinking Man - Por Luiz Domingues

 

O gênero Sci-Fi sempre atraiu um séquito de fã às salas de cinema. Fãs de literatura e histórias em quadrinhos sempre formaram a base desse público e diferentemente de outros admiradores de outros gêneros cinematográficos, os fãs do gênero Sci-Fi tendem a venerar de uma forma passional, levando essa paixão para a vida no cotidiano, e extravasando de diversas formas.
O apogeu desse estilo cinematográfico sem dúvida se deu nos anos cinquenta, nos Estados Unidos. Claro que nas décadas posteriores continuou-se a filmar com entusiasmo, mas na década de cinquenta, o boom dessa tendência foi significativo.

Além da motivação infanto-juvenil que motivava essa público natural, havia o elemento da Guerra Fria, atormentando principalmente os americanos com o temor de um iminente ataque nuclear deflagrado por parte dos soviéticos.

Daí, foi inevitável que os roteiristas de Hollywood usassem e abusassem da ideia de invasões perpetradas por alienígenas maus, numa clara metáfora ao "perigo" soviético.

E outro mote muito usado, foi o da consequência de um pós-Guerra Nuclear, onde os efeitos radioativos supostamente criariam mutações em animais, insetos ou mesmo seres humanos, criando desde gigantismo, até alterações cerebrais com consequências nefastas.

Foi nesse contexto que o diretor Jack Arnold, habituado a trabalhar com o gênero, adaptou um roteiro já existente e filmou "The Incredible Shrinking Man" (O Incrível Homem que Encolheu", em português), um dos mais impressionantes filmes dos anos cinquenta.
No livro do qual baseou-se para criar o roteiro ("The Shrinking Man", de Richard Matheson), a história é contada em flashback. Mas no filme, Arnold optou pela cronologia tradicional e o famoso (e soberbo) solilóquio final, foi um adendo por sua conta, inexistente no livro.

Sendo assim, o casal Scott e Louise Carey (interpretados por Grant Williams e Randy Stuart) vivem felizes e sem grandes problemas na vida.
Num dia de veraneio, curtem o mar à bordo de uma confortável lancha quando inesperadamente uma nuvem passa com uma estranha poeira densa e prateada.

Nesse momento, só Scott é atingido, visto que a esposa estava momentaneamente segura dentro da cabine da lancha.

Não dando grande importância ao evento, Scott limita-se a limpar-se daquela meleca prateada.

Mas quando voltam à sua cidade, Scott começa a notar algumas alterações que em principio não associa à misteriosa nuvem radioativa.
Emagrecendo rapidamente e notando que as roupas estavam ficando muito folgadas repentinamente, resolve consultar um médico.

Exames são feitos e o médico não consegue fechar um diagnóstico, concomitante ao fato de que Scott está decididamente encolhendo.
É dramática a sequência onde sucessivas adaptações são feitas visando lhe dar o máximo de conforto e normalidade, mas já medindo cerca de um metro de altura, é evidente que o psicológico dele está completamente arrasado e não há nenhum meio de sentir-se animado quanto à reversão do quadro, em meio à esse encolhimento continuado.
Mas uma esperança surge através de uma nova metodologia médica.
Nesse ínterim, conhece uma artista de circo. Trata-se de uma anã que se interessa por ele, achando-o um anão, sem suspeitar que seu encolhimento tem outra razão de ser.

Mas a autoestima de Scott desaba de vez quando percebe num posterior encontro com a anã que está menor que ela, denotando que o novo tratamento fracassara.

Sua estória torna-se pública e a imprensa assedia violentamente a família, tornando o calvário da família Carey, ainda pior.
Nessa altura, Scott já tem o tamanho de um boneco de brinquedo e passa a morar numa casa de bonecas.

Num vacilo da esposa, o gato da família ataca violentamente a casinha caçando o pobre Scott que consegue se safar desse perigo mortal, mas cai escadaria abaixo, no porão da casa.
Pequeno como um inseto, vê-se às voltas com um habitat que mais parece um planeta inóspito e desolador.

Adapta uma caixa de fósforos como sua nova habitação e veste-se como um troglodita pré-histórico, mediante retalhos de tecido que descobre pelo caminho.

Fósforos, alfinetes e linha de costura passam a ser suas ferramentas e armas.

Uma inundação do ralo, vira um tsunami...aliás, onde ele vislumbra a última chance de resgate, pois vê sua esposa entrando no porão, acompanhada de seu irmão (Charles Carey, interpretado por Paul Langton), motivados pela inundação, mas claro, está tão insignificante que eles nem ouvem seus gritos desesperados por socorro.

Faminto, descobre que tem um pedaço de pão velho sobre uma mesa. A escalada rumo à comida, é épica, como se estivesse escalando o Everest.


Para piorar as coisas, no porão existe uma enorme aranha, para os padrões dele naquele instante, e que passa a persegui-lo como implacável predadora.


São momentos de enorme tensão, emoldurados por uma música tensa e perfeitamente coadunada.

Cada vez menor e mais frágil, Scott não tem como enfrentá-la fisicamente, mas ainda é um ser humano e usando seu potencial de raciocínio, monta um ardil engenhoso e a mata, finalmente.
Todavia, o processo de encolhimento não cessa e ao perceber que agora está tão minúsculo que passa com facilidade por uma grade numa janela que dá acesso à área externa da casa, atravessa-a e então o filme atinge o clímax, com um solilóquio emocionante que extrapola as fronteiras do Sci-Fi, bebendo fortemente na fonte da filosofia.


Em meio à uma belíssima trilha sonora e com uma sequência de takes rápidos evocando o espaço sideral, o pensamento de Scott Carey é narrado em voz alta, dizendo :
"Eu continuava encolhendo, para virar o que ? O infinitesimal.
O que eu era ? Ainda um ser humano...ou o homem do futuro ?
Se houvesse outras explosões radioativas...outras nuvens indo em direção a mares e continentes...
Será que outros me seguiriam nesse mundo vasto e novo ?
Tão próximos...o infinitesimal e o infinito,
Mas de-repente, sabia que havia mesmo dois fins...do mesmo conceito.
O inacreditavelmente pequeno e o inacreditavelmente vasto...
Eventualmente conhecido como o fechamento de um círculo enorme.
Olhei para cima...como se de alguma forma eu pudesse agarrar os céus.
O universo, mundos incontáveis.
A tapeçaria prateada de Deus se estendia pela noite.
E naquele momento, soube a resposta para o enigma do infinito.
Eu havia pensado em termos de dimensão limitada do homem.
Eu havia subestimado a natureza.
O fato da existência começar a acabar...
É a concepção do homem, não da natureza.
E senti meu corpo diminuindo...derretendo, tornando-se nada.
Meus medos desapareceram e em seu lugar veio a aceitação.
Toda essa vasta majestade da criação...tinha de significar algo.
E então, também significava algo !
Sim !
Menor do que o menor...
Eu também significava algo !
Para Deus, não existe o zero.
Eu ainda existo".
Sucesso absoluto à época, "The Incredible Shrinking Man" empolgou também os críticos à época e tornou-se um cult-movie.

Sem dúvida que o roteiro propiciou uma gama de interpretações análogas, as mais interessantes. São inúmeros os trabalhos acadêmicos em torno da película, analisando-o sob vários pontos de vista. Cabe interpretações no campo da sociologia, antropologia e psicanálise.


A ideia de um homem que diminui-se perante a sociedade, família, casamento etc, esbarra em análises metafóricas dessa espécie contidas inerentemente na história.

A filosofia também, principalmente no solilóquio final, onde a existência da vida é posta em cheque.
Realmente, somos um grão de areia na imensidão do deserto, mas sem cada minúsculo grão, simplesmente não existiria o deserto.

Um filme incrível que apesar de ser antigo e com toda a tecnologia tosca de um filme B da década de cinquenta, emociona e faz pensar.
Resenha publicada inicialmente numa comunidade Jack Arnold da extinta Rede Social, Orkut, no ano de 2010.

2 comentários:

  1. Legal, ótimo texto, muito bom esse tipo de filmes Sci-fi, curto muito! =D

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    Respostas
    1. Muito bom contar com sua participação, amigo Kim. Eu recomendo esse filme, pois além de ser um clássico Sci-fi dos anos 50, tem em sua parte final, uma das mais belas mensagens já deixadas num filme.

      Obrigado por ler e comentar !!

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