sexta-feira, 27 de julho de 2012

Mr. Smith Goes to Washington - Por Luiz Domingues


Frank Capra acreditava no ser humano e sobretudo na hombridade do homem comum, imaculado, livre dos vícios torpes do hedonismo barato e desejo inebriante pelo poder.

Sua filmografia baseou-se nesses valores primordiais e como era de se esperar, foi alvo de violentas críticas de detratores preocupados em defender seus respectivos posicionamentos políticos.

Os comunistas o acusavam de ser um acólito do capitalismo selvagem americano e os direitistas, de ser "antiamericano", por disseminar ideias socialistas de solidariedade...

Em "Mr.Smith Goes to Washington" ("A Mulher Faz o Homem" em português, aliás, uma aberração como tradução, diga-se de passagem ), Capra mexeu num vespeiro e tanto. Ao retratar a corrupção dentro do Senado norte-americano, gerou protestos, tentativas de boicote, irritou políticos e foi proibido de ser exibido na Alemanha, Itália, França, Espanha e União Soviética, comprovando o que disse nos parágrafos anteriores sobre desagradar gregos e troianos.

A história inicia-se com a morte repentina de um senador do estado de Montana e assim que o governador desse estado toma conhecimento (Hubert Hooper, interpretado por Guy Kibbee), sabe que precisa indicar um substituto para representar Montana no Senado federal.

Mas ele é um político manipulado por um empresário corrupto, Jim Taylor (interpretado pelo fabuloso Edward Arnold, um ator de confiança para Capra), que comanda um esquema de obras superfaturadas e mancomunado com o governador e o Senador Joseph Paine (interpretado pelo tarimbado ator Claude Rains).
Os filhos do governador sugerem o nome de um ídolo deles, e de todas as crianças e adolescentes no estado, Jefferson Smith (interpretado com extrema convicção por James Stewart), líder escoteiro, idealista e ingenuamente bem intencionado.

Taylor e Paine vislumbram nesse nome, o ideal para agradar a juventude e ao mesmo tempo ser facilmente manipulável, pressionando o governador Hooper a indicá-lo.

Smith aceita a incumbência e prosaicamente achando que o Senado é uma casa de idealistas como ele, vai para Washington tomar posse cheio de sonhos, querendo dar o máximo de si, levando ideias para projetos etc e tal.

Logo que chega, é muito bonita a cena em que ele visita pontos emblemáticos da cidade de Washington DC, principalmente o memorial de Lincoln, imbuindo-se de força interna para assumir uma missão muito difícil.
Mas começa a frustrar-se, vendo que ali, o idealismo é para os tolos que não conhecem os meandros da realidade corrupta na política.

Por exemplo, o velho Senador Paine o desencoraja a criar projetos muito complexos e a título de mantê-lo ocupado e longe de seu esquema corrupto, sugere que ele crie um projeto simplório para beneficiar os escoteiros.
Smith elabora então um projeto de um acampamento em Montana, num lugar próximo ao rio Willet Creek. Por azar (ou sorte ?), trata-se de um local que faz parte dos planos do empresário Jim Taylor para mais uma falcatrua em sociedade com o Senador Paine.

Paine e Taylor pressionam o idealista Senador Smith a retirar o projeto e armam provas falsas contra ele, caso não coopere, fazendo com que sofra risco de ser cassado do Senado por falta de decoro parlamentar.
Nesse ínterim, a secretária Clarissa Saunders (interpretada pela bela Jean Arthur), que em princípio achou Smith um caipira ingênuo e manipulável, nota o idealismo puro dele e afeiçoando-se, passa a orientá-lo sobre os procedimentos regulamentares do Senado e os cuidados necessários para não sair picado de dentro daquele covil de víboras.
Usando uma artimanha do regimento interno da casa, Smith, orientado por Clarissa Saunders, adota a estratégia de fazer um longo e emocionante discurso para vencer os senadores pelo cansaço.

Trata-se de uma cena muito emocionante, com o discurso inflamado virando uma prova de resistência física e psicológica.
Enquanto usa esse dispositivo regimental, os Senadores que querem derrubá-lo nada podem fazer, a não ser esperar que ele dê por encerrado o pronunciamento.

Claro, a imprensa compra essa briga e o povo vai se inflamando com essa heroica resistência. Os escoteiros montam um esquema de apoio e milhares de cartas chegam ao Senado, prestando solidariedade.


Smith vai à loucura, denunciando a corrupção; evocando o espírito da democracia; denunciando a máquina de corrupção construída por sanguessugas; os ideais americanos de liberdade; Abraham Lincoln etc etc.

No estertor de suas forças, fala diretamente ao Senador Paine, dizendo-lhe que ele era o seu ídolo e que seu pai também era seu eleitor fiel, a quem reputava como um nobre representante do estado de Montana no Senado e sendo assim, não podia acreditar que a verdadeira face do velho Senador fosse a da corrupção, das falcatruas, da quadrilha formada com empresários corruptos etc.
Desmaia a seguir, completamente exausto pelas horas a fio que resistiu no parlatório.

Mas as palavras duras proferidas calaram fundo no velho Senador Paine, que não resiste mais e aos gritos, diz abertamente que ele é que deve ser cassado e não Smith, pois tudo o que Smith dissera em seu longo discurso, era a mais pura verdade !!
Capra conseguiu promover a vitória do homem comum contra o sistema podre, lavando a alma de milhões de pessoas simples.

Claro, conforme citei no início, causou polêmica, a começar pelo próprio Senado americano, onde diversos senadores pronunciaram-se acaloradamente contra o filme, acusando-o de ser uma falácia, ofensivo, calunioso etc.
O filme foi indicado a 11 Oscars, mas só levou um, pelo roteiro. Muito se falou que também incomodou os poderosos de Hollywood, e sua derrocada na premiação foi um boicote velado. O fato, é que o filme merecia ter mais premiações, pelo seu brilhantismo em todos os quesitos.
Estou falando de um filme produzido e lançado em 1939, com essa grau de contundência extraordinário. Quando observamos os acontecimentos da política em pleno 2012, só nos resta torcer para que surja um idealista como o personagem Jefferson Smith, que suba ao parlatório e diga no rosto dessa classe política horrorosa que temos, o quanto os desprezamos pela sua natureza torpe e imutável.
"Mr. Smith Goes to Washington" é um filme emocionante, onde mais uma vez Frank Capra mostrou sua fé no ser humano decente.

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