terça-feira, 9 de outubro de 2012

Quando o Riff deixou de ser "Cool" ? - Por Luiz Domingues


Quando o Rock nasceu da explosiva junção das raízes da música negra mescladas à música dos brancos, as duas vertentes tinham um ponto em comum.

Tanto o blues e seus derivados, quanto o country & western, produziam fraseados marcantes de instrumentos, os chamados "riffs", que davam o estopim dessa precipitação química, ou alquimica, como queiram enxergar.


Nos primórdios do Rock, ainda incompreendido e encarado por muitos à época (nos anos cinquenta), como uma degeneração de suas raízes, a guitarra elétrica e o piano, primordialmente, encarregavam-se de produzir os tais riffs que enlouqueciam as sessões de cinema onde se exibia "Rock Around the Clock".



Logo a guitarra de Scotty Moore chamou a atenção a serviço do Rei Elvis; Chuck Berry botava para quebrar; Buddy Holly trazia sua sofisticação harmônica; Gene Vincent e Carl Perkins traziam a visceral contribuição do blues e do country, respectivamente; Richie Valens traria a latinidade, Bo Diddley, a extravagância...

Em todos, um fator em comum : a criação de Riffs de guitarra, com raiz do blues ou do country, tanto faz, o importante é que criaram uma tradição inerente ao Rock, que influenciaria as gerações posteriores de uma forma avassaladora.

Podemos sim, afirmar que o piano e o órgão (quiçá instrumentos de sopro), também criavam riffs. Jerry Lee Lewis e Little Richard que o digam.
Mas foi na guitarra que isso se tornou uma instituição no Rock.

A seguir, veio uma nova fase com a surf music de Dick Dale e seus fraseados imitando o som das ondas que só os surfistas ouvem zunir em suas orelhas; os riffs rápidos de Link Wray e os guitarristas de bandas instrumentais como Shadows e Ventures, fazendo a guitarra cantar, literalmente, para desespero dos crooners, que certamente sentiram-se ameaçados com essa onda...
E lá vem a Beatlemania, trazendo a reboque, a British Invasion.
Segundo se conta folcloricamente , alguém teria dito à Muddy Waters (ou teria sido Willie Dixon ?) : "Você não vai acreditar, mas garotos brancos da Inglaterra estão fazendo um sucesso enorme, tocando o som de negros !! "

O texto ficaria Ad eternum sendo escrito se eu fosse enumerar todos os riffs importantes criados pelos Beatles, Rolling Stones e todas as bandas dessa fase pré-psicodelia.


Só para aguçar o paladar, pensemos em Satisfaction; You Really Got me; I Feel Fine; We Gotta Get Out of this Place; My Generation...

O Bubbelugum foi ficando lisérgico na medida que os ácidos batiam nas cabeças circulantes da Swinging London e no famoso cruzamento da Haight-Ashbury em San Francisco-CA.

O Fuzz trouxe as abelhas psicodélicas às guitarras.

Beatles e Stones pirando; The Who viajando num ônibus mágico e um certo Jimi Hendrix fazendo a guitarra ir à Marte num salto quântico que nem de longe o decantado Robot "Curiosity", concebe em pleno 2012.

Riffs ? 

Meu amigo...ainda não fez a experiência na terra das mulheres elétricas ?
Quer Riff ?

Nunca ouviu o Cream ? 

A inacreditável possibilidade de três caras extrapolarem o impossível. Clapton é Deus por conta do que ?
Yardbirds; Them; Jeff Beck Group; Small Faces; Fleetwood Mac; Grateful Dead; Jefferson Airplane; Iron Butterfly; Pretty Things; The Byrds; Blue Cheer; Ten Years After... 

Blues em estado bruto, visceral, pesado...nasce o Zeppelin de Chumbo.

Do outro lado do Atlântico, os irmãos Allman unem o blues ao country sulista e uma usina de riffs brotam nos pântanos cheios de jacarés.

Carlos Santana come a guitarra com chilli, burrito e percussões mil...

Johnny Winter de um lado, Rory Gallagher do outro.Yin e Yang do Power Blues enérgico. Um em cada extremidade do oceano Atlântico.

Entra a nova década e o som fica mais pesado para quem ouvia as bandas que eletrificaram o blues ao extremo e sofisticados aos que ouviam a psicodelia, mas tinham bagagem erudita ou jazzística.
E a indústria de Riffs prosseguiu em franca expansão...

Jimmy Page; Ritchie Blackmore; Tony Iommy; Mick Box; Mark Farner; Rick Derringer; Joe Walsh; Robin Trower, e tantos outros criadores de Riffs na ala pesada.

Na turma do Prog, a ala dos "Estevams"... Steve Howe;, Steve Hackett & Steve Hillage...


John Maclaughlin;, Gary Green; Martin Barre; Jan Akkerman...


O que dizer do toque Blues de David Gilmour ? E a genialidade insana de um monstro chamado Robert Fripp ?

E até no Glitter-Rock onde a purpurina e o batom imperavam, a escola de Riffs era forte. Salve Mick Ronson, eterna aranha marciana; salve Brian May, salve Marc Bolan, get it on, get it on !!!



Pois é...uma quantidade incrível de criadores de Riffs. De suas mãos saíram verdadeiras pérolas da história do Rock.

Bastam três ou quatro notas e estádios de futebol lotados até a tampa, desmoronam...

Peter Frampton declarou certa vez que tinha um prazer incrível em dar um mi maior e fazendo sua mise-en-scené de Rock Star, levantar o braço direito com a palheta entre os dedos. Era infalível essa atitude rocker com a microfonia aliada ao peso estremecendo os P.A.'s em estádios de futebol.

Como já disse, não poderia citar aqui todos os grandes nomes da guitarra que produziram riffs infernais, eternizados, tamanha a sua profusão nos anos cinquenta aos setenta.

Mas então a opinião começou a mudar. Ah...os ditos formadores de opinião...
"Atitude" passou a ser mais valorizada que o Riff, que por sua vez tornou-se algo "fora de moda", um exemplo claro de uma Era que já era, literalmente...

Para que fazer um riff ? Para que saber tocar ? Isso era coisa do passado e merecia ser jogado no limbo da história, segundo essa nova configuração estética.

Claro que ainda persistiriam os abnegados. O que seria de Paris sem os Maquis, não é verdade ?
Mas o fato é que o Riff foi caindo em desuso, acentuadamente, a não ser em nichos fechados como o do Heavy-Metal, por exemplo.

No Pop em geral, foi sumindo.

No final da década de oitenta, pequenos lampejos de esperança com a explosão do grunge de Seattle, mas que revelou-se efêmero em sua ação, e no meio dos anos noventa, com o Brit Pop tentando resgatar a Londres sessentista, mas ficando sempre aquém, apesar da arrogância dos irmãos Gallagher, dizer o contrário.
Qual foi então o último suspiro de um Riff de guitarra ?

Provavelmente Jack White seria esse verdadeiro Dom Quixote, lutando contra moinhos de vento...
Outro dia li aqui mesmo na Jukebox (referindo-me à primeira publicação no Blog Jukebox), uma declaração de um membro de uma banda "indie" internacional, onde em tom de desabafo, dizia estar cansado de ser "indie" e que desejava que sua banda virasse uma banda de Rock de verdade...

Essa emblemática declaração revela o quanto nos afastamos dos Riffs e deixamos o rock degringolar.

Que seja epidêmico e algum formador de opinião resolva decretar que o pesadelo da inversão de valores esteja encerrado, e assim coloque a ordem semiótica no lugar certo.



Matéria publicada inicialmente no Blog Jukebox, do jornalista Dum de Lucca, no portal da revista Dynamite, em 2012

2 comentários:

  1. Também acho que o riff anda fazendo falta. Esse grupo indie seria o Artic monkeys? o Som deles anda bem pesado e cheio de solos rápidos.

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    1. Também acho, Aline !!

      Não, o depoimento que eu citei que li no Blog Jukebox, foi com o "Vaccines".

      Como você, torço por dias melhores para o Rock.

      Muito grato por ler e comentar !!

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