domingo, 13 de maio de 2012

Daniel Piza Fará Muita Falta !! - Por Luiz Domingues


Ainda chocado com a notícia do falecimento do jornalista cultural Daniel Piza, na última sexta feira de 2011, fiquei pensando em dois aspectos básicos que essa notícia me causou : o primeiro, óbvio, diz respeito ao caráter efêmero da vida.

Como pode um homem aparentemente saudável, de apenas 41 anos de idade ser surpreendido por um ataque de AVC fulminante em plenas férias e num ambiente interiorano bucólico e longe do stress da metrópole ?

OK, eu não o conhecia pessoalmente e portanto não sabia de seus hábitos pessoais. 

Será que era fumante ? Abusava de uma alimentação gordurosa ? Seria sedentário ?
Mesmo assim, a julgar pela pouca idade e sua aparência nas fotos, passava-me a impressão de ser uma pessoa de hábitos saudáveis e baseando-me no seu poderio intelectual, certamente era consciente ao extremo.

O segundo aspecto que me fez pensar, foi justamente o da perda de um jornalista brilhante e que fará uma falta enorme.



Eu acompanhava a coluna "Sinopse" do jornalista Daniel Piza, há muitos anos no Jornal "O Estado de São Paulo".

Nela, Daniel Piza discorria sobre assuntos variados, com extrema desenvoltura, demonstrando estar muito bem embasado em suas colocações.


Se fosse um médico, Daniel Piza seria clínico geral, sem dúvida, tamanha a sua capacidade de discernir sobre diferentes aspectos, com foco e impressionante conhecimento de causa.

Da política à economia, dos aspectos sociais à literatura, do ambiente acadêmico à ciência, todos os ramos artísticos e até o futebol, coberto com o conhecimento mais avantajado de que muitos setoristas por aí...

Em sua coluna, "Sinopse", cada aspecto tinha um subtítulo específico, que lhe conferia um charme especial.

Quando comentava aspectos do futebol, era no "Ludopédio" ; quando falava de música, "De la Musique"; Sobre cinema, era "Cahiers du Cinema"; quando criticava contradições do governo, "Porque não me Ufano" e assim por diante.

Daniel Piza era um polemista por excelência.

Não escondia de ninguém que Paulo Francis era um ídolo seu no jornalismo e de certa forma, podemos mesmo afirmar que era o seu mais fiel seguidor no jornalismo atual.

Se não tinha a verborragia corrosiva de Francis, mesmo sendo mais educado, sabia alfinetar com classe, levantando suas opiniões e com sólidos argumentos, confrontou muitas ideias ao longo desses anos todos de atividade na sua "Sinopse" do Caderno 2, aos domingos.


Particularmente, eu também tinha meus pontos de desacordo com ele. Mas nada que suplantasse a minha admiração pela sua caneta forte no jornalismo.


No campo das artes, por exemplo, principalmente na música, nunca engoli a sua insistência em incensar Elvis Costello, imprimindo-lhe uma aura de genialidade que certamente o compositor britânico nem em sonhos tem ou terá. Era pura idiossincrasia do Daniel Piza, mas isso não desabonava em nada o seu brilhantismo intelectual e conduta limpa no jornalismo.


Tinha vários livros lançados, entre eles : "Jornalismo Cultural" (2003); "Ora Bolas" (sobre futebol); "Mundois" (para crianças), "Amazônia de Euclides" (onde percorreu a mesma trilha de Euclides da Cunha, que também fora repórter do "Estadão), e "Questão de Gosto".

Teve passagens pela Folha de São Paulo; Gazeta Mercantil; e na TV, ESPN Brasil e SporTV, além da Globo News.

Escreveu inúmeros ensaios; críticas literárias; resenhas de filmes; shows musicais; peças teatrais; instalações e exposições de artes plásticas; resenhas esportivas etc, além de manter um bom Blog na internet.

Perde e muito o jornalismo cultural brasileiro com o falecimento precoce dele e gostaria de encerrar usando um de seus subtítulos da coluna "Sinopse". Sempre que comentava a morte de pessoas notáveis, o subtítulo para assuntos de notas de falecimentos, era "Uma lágrima para..."

Com pesar, deixo escorrer uma lágrima para Daniel Piza.



Matéria publicada inicialmente na Rádio/Blog KFK, e republicada no Site/Blog Orra Meu, posteriormente e ambas em 2012.  

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