sexta-feira, 25 de maio de 2012

Relato de um Show dos Novos Baianos - Por Luiz Domingues


Foi em alguma noite de maio de 1977 cujo dia correto, não me recordo, que eu, o Wilton e Laert fomos ao Tuca (Teatro da Universidade Católica - PUC ), para assistirmos um show dos Novos Baianos. 

O show foi eletrizante do primeiro ao último segundo, como era a praxe daquela banda sensacional.

Na primeira parte, eles tocavam os temas mais acústicos com ritmos brasileiros etc e na segunda parte, ficava só a sessão elétrica no palco, a que chamavam de "A Cor do Som". 

Era como se fosse uma banda dentro da outra, mas logo a seguir, o ex- baixista dos Novos Baianos, Dadi, acabou usando o nome para fundar outra banda e a história todo mundo conhece. 

Nessa hora, o bicho pegava, literalmente, pois Pepeu, Jorginho e Didi, três irmãos, simplesmente destruíam seus instrumentos para humilhar rockers radicais que desdenhavam dos Novos Baianos por conta de não serem 100 % Rock'n'Roll e terem esse lado brasileiro bem acentuado. Lembro que o Wilton conseguiu a palheta do Pepeu na última música e o quanto ficou eufórico.

Aí o Laert tinha que ir embora e eu e Wilton resolvemos dar uma enganada nos seguranças do teatro e tentar ficar para assistir a sessão maldita, de graça. Naquela época, eram comuns as sessões duplas de shows de Rock, com o primeiro show às 21:00 h e a segunda sessão à meia-noite, daí a alcunha: "Sessão Maldita".

Conseguimos burlar a segurança subindo ao palco e fingindo estarmos pedindo autógrafos dos componentes dos Novos Baianos e quando deu uma brecha, entramos coxia adentro e nos escondemos nos camarins do Tuca.

Foi uma experiência lúdica, pois o Paulinho Boca de Cantor e a Baby Consuelo ao invés de ficarem bravos com a nossa invasão, se solidarizaram e nos acobertaram, deixando-nos no camarim, sob a instrução de voltarmos à plateia, assim que o show da meia-noite estivesse para começar.

Lembro da Baby brincando conosco, daquele jeito despachado e dizendo alguma coisa do tipo: -"Olha os dois malucos aí, estão assustados...Relaxa aí, bicho, pode ficar aí numa boa e assistir a sessão maldita..."

Estávamos de fato assustados por estarmos burlando a segurança do teatro, mas muito mais é emocionados por estarmos nos camarins dos Novos Baianos, vendo-os pessoalmente num momento pós-show e se preparando para o segundo show, a movimentação dos roadies e técnicos fazendo reparos e checando o equipamento etc. Aquilo era por demais lúdico para dois moleques sonhadores de 17 anos.

Então , pouco antes de abrirem as portas para o público da sessão maldita, um roadie nos conduziu à plateia e assistimos novamente aquele petardo chamado "Novos Baianos"...

Na saída, por volta das 2:00 horas da manhã, não tínhamos outra alternativa a não ser descer a Rua Monte Alegre até a Av. General Olímpio da Silveira e esperar um ônibus para a zona leste, onde eu morava no Tatuapé e ele em Engenheiro Goulart. 


Mas não éramos só nós...haviam nesse comboio, pelo menos uns 100 freaks que tinham o mesmo objetivo. Chegando ao ponto, enquanto esperávamos a linha Lapa-Penha, eis que surge um pequeno comboio de viaturas da polícia militar. Com a truculência que lhes era peculiar naqueles tempos de ditadura, chegaram enquadrando todo mundo. 

Fomos revistados, humilhados e os que portavam drogas, apanharam muito. O sargentão parecia alucinado e queria colocar todo mundo dentro de um ônibus e prender. E naqueles tempos de AI-5, ele poderia mesmo fazer isso a seu bel-prazer. Mas por uma sorte inesperada, resolveu enquadrar só os que portavam drogas (perto de mim, tinha um hippie que estava com pelo menos 30 comprimidos de Mandrix, droga popular na época.)

Dessa maneira, após um sermão moralista de ultra-direita, nos exortando a tomar cuidado, cortar o cabelo e pensarmos em "Deus, família e Brasil", nos deixou em paz, finalmente. Foi uma experiência de uns 30 minutos mas que pareciam horas...
Este texto é um excerto de minha autobiografia, que estou escrevendo e publicando na comunidade "Luiz Domingues" no Orkut, e será republicado no Blog Luiz Domingues 2. Por isso tem o tom personalista e cita o nome de pessoas do meu contexto, no caso, meus companheiros de minha primeira banda, "Boca do Céu", Wilton e Laert, que foram comigo à este show dos Novos Baianos em 1977, no TUCA.
A editora do Blog Limonada Hippie, leu e quis publicar no seu Blog, o que causou barulho em redes sociais, notadamente o Facebook e Google+.
Portanto, está publicado na comunidade Luiz Domingues do Orkut, como parte de minha autobiografia na música,  no capítulo "Boca do Céu". No Blog Limonada Hippie, foi republicado como um texto avulso, e com o título "Relato de um Show dos Novos Baianos", criado pela Fernanda Valente, e em breve (ainda em 2012), será republicado no Blog Luiz Domingues 2  

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Pode ter certeza de que esta memória carregarei para sempre. Como diz o grande Dr.John : "Such a night"...

      Obrigado por ler, curtir e comentar !

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  2. Luiz, que fotos maravilhosas vc conseguiu para esse artigo! Obrigada por compartilhá-las, eu não conhecia! =)
    Abraço amigo!

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    1. Fernanda, muito obrigado por ter lido e comentado, por aqui, também. Eu precisava ilustrar de forma diferente para diferenciar da fotoformatação que você criou para o mesmo texto, no seu Blog , Limonada Hippie.

      E achei as ilustrações focando no momento da carreira dos Novos Baianos em 1977, ocasião em que os vi, conforme nesse relato.

      Que legal que curtiu e sou-lhe eternamente grato, primeiro por enxergar nesse excerto,uma possibilidade de texto avulso e interessante e depois, por publicá-lo com sucesso no LH.

      Beijo, minha amiga-editora !

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  3. Bem, alguma coisa tinha que ter de bom nesses tais famigerados anos de chumbo: a boa música!
    Impagável ver Novos Baianos e a Cor do Som! Não vivi nessa época, mas conheço pela internet o trabalho dessas bandas lendárias!.
    Bom texto com a qualidade Luiz Domingues a que estamos acostumados!

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    1. Ana, que sensacional que tenha gostado do relato !

      De fato, a dicotomia entre a liberdade proposta pela cultura Hippie e o chumbo do militarismo de viés direitista, era mote dos anos setenta. Ser Hippie nessa época era excitante, mas também perigoso...

      Como leu, os dois shows na mesma noite, foram maravilhosos. Memória viva de minha trajetória, que guardo com muito carinho e sinto-me muito gratificado em compartilhar com quem não teve essa oportunidade.

      E que elogio bonito ao final ! Sinto-me muito honrado e estimulado a prosseguir !

      Grato pela visita e comentário rico !

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