quarta-feira, 9 de maio de 2012

You Can't Take It With You - Por Luiz Domingues


Frank Capra foi o diretor que mais contribuiu para a política do New Deal do presidente Roosevelt, visando aumentar a autoestima do povo americano, na pós-queda da Bolsa de Nova York de 1929.

Por conta dessa explícita intenção em sua obra, foi combatido pelos opositores de Roosevelt e tachado de colaboracionista da direita conservadora e igualmente pelos próprios direitistas, por supostamente incutir mensagens socialistas em seus filmes. Em suma, era mal interpretado pelos dois lados do radicalismo ideológico.
Dessa  forma, sofreu uma saraivada de críticas, sendo acusado de distorcer a realidade da grande depressão, pelos dois polos ideológicos e antagonistas históricos.

Tudo intriga da oposição, pois fez mais que jogar a realidade para debaixo do tapete,como alegavam seus detratores. Capra fez é cinema de altíssima qualidade e onde enxergavam pieguice, haviam na verdade, autênticos libelos sobre a solidariedade, fraternidade e o exercício da humanidade.

Diretor brilhante e vencedor de muitos Oscars, emendou um sucesso atrás do outro, no auge do sucesso, durante a década de trinta.
E um dos maiores trabalhos dele, foi "You Can't Take It With You", de 1938, que no Brasil recebeu o título de "Do Mundo Nada se Leva" , baseado numa peça teatral escrita por George S. Kaufman e Moss Hart.

Em "You Can't Take it With You", Capra montou um mosaico de personagens e situações, onde o mote principal era sempre exaltar o sentido da simplicidade, humildade, esperança e sobretudo a solidariedade humana.

A história gira em torno de um magnata de Wall Street chamado Anthony P. Kirby (Edward Arnold) que não tem nenhum escrúpulo para esmagar quem quer que apresente obstáculo à sua ganância.
Seu filho, Tony Kirby, interpretado por James Stewart, não tem o mesmo ímpeto do pai, embora logicamente seu pai não saiba disso e nutra esperanças sucessórias no Império financeiro da família.

Mas o inevitável acontece quando Tony se apaixona pela secretária, a moça de origem simples, Alyce Sycamore, vivida pela atriz, Jean Arthur. E como fator agravante, o bairro inteiro onde mora a família humilde dela, corre o risco de vir abaixo, pressionado pela especulação imobiliária exercitada pelo conglomerado financeiro liderado pelo pai do seu namorado. Está criado o conflito... 
A família dela é liderada pelo avô, Martin Vanderhof (Lionel Barrymore) e a família vive num regime anárquico, como se fosse uma comunidade hippie, muitos anos antes desse conceito existir.

São vários parentes morando juntos e com diversos agregados que entram e saem da casa como se fosse um verdadeiro circo.

Tem a bailarina, que ensaia pela sala de estar, o cientista maluco que faz experiências estrambóticas no porão da casa, o idoso que vestido de Deus grego, posa como modelo vivo etc.
A família é popular no bairro e todos se gostam imensamente, adorando o vovô que nos momentos difíceis, saca uma harmônica do bolso e toca para espairecer e tomar as decisões importantes.

Uma tentativa de aproximação da família milionária com a realidade dessa família de lunáticos,  evidentemente acaba numa confusão hilária, um dos momentos mais ricos do cinema trintista.

E nessa confusão, o laboratório do porão explode e todos, inclusive os ricos presentes, vão presos sob a acusação de serem sabotadores comunistas...
Na cela da delegacia, uma das cenas mais pungentes da história do cinema, quando num confronto verbal de arrepiar, o vovô desperta no magnata, a semente da compaixão, sentimento há muito tempo embotado pela ganância.

No final, uma resolução surpreendente, onde o sentido da solidariedade humana só não emociona quem enxerga o filme com as lentes meramente ideológicas de direita e esquerda.
Capra satirizou seus críticos, inserindo piadas subliminares com a questão governamental (a cena do fiscal do Imposto de Renda cobrando o vovô, chefe do clã, é hilária e as falas do personagem, tem profundidade).

E a relação dos figurões de Wall Street com a realidade da classe trabalhadora, o povo mais simples (Edward Andrews, soberbo na interpretação do magnata). A rudeza da ganância de Wall Street é expressa no momento em que um investidor arruinado, suicida-se, uma cena forte e certamente dentro da realidade daqueles anos de depressão, onde muita gente realmente preferiu tirar a própria vida em desespero diante da bancarrota.
E há de se destacar também a mensagem subliminar contida na atitude do personagem Tony Kirby (James Stewart). Por mais inverossímel que seja,  todos temos que lutar por nossos sonhos.

Grandes atuações de James Stewart, Jean Arthur e principalmente de Lionel Barrymore, como o avô e Edward Arnold, como o pai do personagem Tony Kirby. 
Impossível não se apaixonar por aquela família completamente maluca, liderada pelo vovô, que transforma a residência num circo anárquico e cheio de humanidade à flor da pele.
Matéria publicada inicialmente numa comunidade Frank Capra da extinta Rede Social Orkut, em 2010.

2 comentários:

  1. Excelente e emocionante filme, é um dos que mais gosto,grande texto,abraços amigo.

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  2. Estou contigo, Kim ! Adoro esse filme e sempre me emociono vendo a cena do vovô tocando sua harmônica.

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