domingo, 27 de maio de 2012

Guerra e Paz de Portinari - Por Luiz Domingues

No ano de 1955, o já consagrado pintor Cândido Portinari recebeu uma encomenda irrecusável do governo brasileiro.

O objetivo do do governo brasileiro era presentear a ONU, enviando essa obra de grande monta para enriquecer a sua sede em Nova York. 

Sendo assim, mesmo advertido pelos médicos que já estava com a saúde fortemente comprometida pela intoxicação através de tintas, por anos a fio de trabalho em atelier, Portinari trabalhou duro por quatro anos para entregar a obra.
Usou como atelier um estúdio da TV Tupi do Rio, na velha sede da Urca. Além da exposição tóxica às tintas, teve que suportar um forte calor no galpão, por quatro anos. 

Tratava-se de uma instalação de grande proporção (somados numa superfície de 280 metros quadrados, ou seja, maior que o trabalho de Michelangelo para a Capela Sistina), com o tema "Guerra e Paz". 

Por incrível que pareça, o artista nunca conseguiu ver a obra por inteira, por falta de espaço físico condizente no velho estúdio da TV Tupi. Dessa forma, um grupo de intelectuais inconformados com essa disparidade, liderou um movimento para que as peças fossem exibidas antes de serem enviadas à sede da ONU. 

E dessa maneira, usaram o palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, para uma rápida exposição da obra montada por inteiro. Os jornais da época deram notas efusivas, falando do grande público que compareceu ao teatro nos poucos dias de exposição, destacando o fato de que não se tratava só de intelectuais e artistas, mas sim de pessoas simples do povo, demonstrando a fama que 

Portinari tinha, alcançando  as camadas do povo brasileiro.

O envio da obra foi lento, como era de se esperar, tamanho o volume dos dois painéis. Portanto, a inauguração oficial no saguão de entrada da sede da ONU, só ocorreu em 6 de setembro de 1957.

E um fato curioso e podemos dizer, lamentável, ocorreu nessa cerimônia. Por ser membro do Partido Comunista Brasileiro, 

Portinari não foi convidado para a cerimônia oficial !!

Em plena era Macharthista de caça às bruxas vermelhas nos Estados Unidos, as autoridades da ONU resolveram não convidar o próprio artista para a inauguração de sua obra no salão nobre.

Durma-se com um barulho desses...
Portinari usou tinta óleo sobre madeira compensada naval. Um painel representa a guerra e seus horrores; e o outro, a paz em sua plenitude ideal, desejada pelos homens de boa fé.

Recentemente restaurada, esteve em exposição no Rio de Janeiro, e ficará no Memorial da América Latina em São Paulo, até 21 de abril de 2012. Seguirá posteriormente para a França; Noruega, Japão, antes de voltar à Nova York, onde deverá ficar exposta no MoMa (Museu de Arte Moderna de Nova York).

Obra monumental de um genial artista paulista, nascido na pequena cidade de Brodowski ("Brodósqui", na forma aportuguesada).



Matéria publicada inicialmente no Site/Blog Orra Meu e republicado no Blog Pedro da Veiga, ambos em 2012.

2 comentários:

  1. Pois é, isso que dá querer agradar os EUA! Na minha opinião eles deveriam ter exposto a obra no Brasil e deveria ter permanecido sempre aqui em homenagem ao povo brasileiro!

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  2. Acho que você tem razão num ponto : Passados tantos anos, bem que a ONU poderia ter a iniciativa de devolver o presente e os painéis ficarem alojados definitivamente no Brasil.

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